8 de Março leva multidões às ruas contra feminicídio
Atos em todo o país, impulsionados pelo Coletivo Juntas e outros movimentos feministas, denunciaram a violência de gênero e exigiram políticas públicas para garantir que mulheres possam viver sem medo
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Milhares de mulheres ocuparam ruas e avenidas em diversas cidades brasileiras neste domingo (8), no Dia Internacional da Mulher, transformando a data em um grande grito coletivo contra a violência de gênero e o feminicídio. Mobilizações ocorreram em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Belém, reunindo movimentos feministas, sindicatos, organizações populares e coletivos políticos.
Com palavras de ordem, performances artísticas e homenagens às vítimas de violência, os atos denunciaram a escalada de crimes contra mulheres no país e reforçaram a necessidade de ampliar políticas públicas de proteção. Em 2025, o Brasil registrou 1.470 casos de feminicídio, o maior número desde o início da série histórica, segundo dados do Ministério da Justiça.
Entre os protagonistas das mobilizações esteve o Coletivo Juntas, que participou da organização de atos e intervenções em diferentes cidades, destacando a urgência de enfrentar o machismo estrutural e garantir o direito das mulheres à vida.
Ruas ocupadas
No Rio de Janeiro, manifestantes caminharam pela orla de Copacabana com cartazes como “não é não” e “eu quero viver sem medo”. O ato também lembrou o estupro coletivo de uma adolescente ocorrido recentemente na cidade.
Já em São Paulo, milhares de mulheres tomaram a Avenida Paulista em defesa da igualdade de gênero, do combate ao feminicídio e contra a precarização do trabalho simbolizada pela escala 6×1.
Em Belo Horizonte, uma instalação com 160 cruzes foi montada na Praça da Liberdade para representar mulheres assassinadas em Minas Gerais nos últimos dois anos. A intervenção foi organizada pelo coletivo Casa das Marias.
“Cada cruz simboliza uma história interrompida, uma família marcada pela violência e uma falha coletiva na proteção dessas vidas”, afirmou o grupo. “Não há o que celebrar enquanto mulheres continuam sendo assassinadas pelo simples fato de serem mulheres.”
Na capital mineira, manifestantes também protestaram contra uma decisão judicial que havia absolvido um homem acusado de violentar uma menina de 12 anos sob a alegação de que ambos mantinham um “relacionamento amoroso”. A sentença acabou revertida após pressão social.
Memória e denúncia
Em Porto Alegre, milhares de pessoas marcharam pelo centro da cidade em defesa da vida das mulheres. Uma performance teatral transformou a caminhada em um ritual de memória: participantes carregaram sapatos femininos manchados com um líquido vermelho enquanto gritavam os nomes de vítimas de feminicídio.
A mobilização denunciou também o crescimento desses crimes no estado. Apenas nos primeiros meses de 2026, 20 mulheres já haviam sido assassinadas, um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O Coletivo Juntas realizou ainda uma intervenção no centro da capital gaúcha exibindo os nomes dessas vítimas. A iniciativa buscou transformar o espaço público em um memorial e reforçar a luta por justiça.
“A gente não aguenta mais ver as mulheres morrendo como moscas. Então a gente trouxe o nome delas pra cá, pra lembrar que são vidas, que são histórias e que para que isso não se repita com outras mulheres”, afirmou Carla Zanella.
Ela acrescentou: “É uma história, são filhos, mães, pais, tios, tias, irmãos que ficam com essa dor de perder uma mulher vítima do machismo, vítima da ideia de posse, de que o homem tem direito sobre aquele corpo”.
Luta que atravessa o país
Em Salvador, o ato teve como lema: “Mulheres vivas, em luta e sem medo: por democracia com soberania, pelo Bem Viver, fim do feminicídio e da escala 6×1”. A caminhada partiu do Morro do Cristo até o Farol da Barra.
Já em Belém, centenas de mulheres marcharam pelo centro histórico da cidade em defesa de políticas públicas de igualdade de gênero.
“Historicamente, 8 de março é dia de luta, de reflexão, de ir às ruas protestar e pedir por políticas públicas”, afirmou Vanessa Albuquerque. “Nós queremos igualdade de gênero, combater a violência contra a mulher, o feminicídio e tantas outras violências que acometem nós mulheres.”
Um grito coletivo
Ao transformar ruas e praças em espaços de denúncia e solidariedade, os atos do 8 de março reafirmaram que a luta feminista permanece central na defesa da democracia e dos direitos sociais.
Entre memória, luto e resistência, as manifestações deixaram claro que, enquanto mulheres continuarem sendo assassinadas por serem mulheres, o Dia Internacional da Mulher seguirá sendo, antes de tudo, um dia de luta.