Pré-conferência antifascista reúne movimentos e parlamentares em Ribeirão Preto
Encontro na USP articula movimentos sociais, pesquisadores e parlamentares na construção de estratégias de enfrentamento ao neofascismo no Brasil e no mundo
Movimentos sociais, parlamentares, pesquisadores e militantes se reuniram na noite de quinta-feira (13), em Ribeirão Preto (SP), para debater o avanço da extrema direita e os desafios da organização popular no cenário político contemporâneo. Realizada no Auditório André Jacquemin, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), a Pré-Conferência Internacional Antifascista integrou o processo de mobilização para a Conferência Internacional Antifascista, que ocorrerá entre 26 e 29 de março em Porto Alegre.
O encontro reuniu representantes de diferentes organizações políticas e sociais e buscou construir diagnósticos comuns e estratégias de enfrentamento ao crescimento do neofascismo no Brasil e no mundo. A mesa foi mediada pela professora da USP e dirigente do ANDES-SN, Annie Hsiou, que destacou a importância da articulação entre universidades, sindicatos e movimentos populares.
Segundo ela, a conferência surge em um contexto internacional marcado por crises econômicas, conflitos militares e fortalecimento de projetos autoritários. A proposta, explicou, é reunir organizações de diferentes países para debater o avanço do fascismo, do racismo e de diversas formas de violência política, além de fortalecer estratégias internacionais de resistência.
Capitalismo em crise e disputa geopolítica
A pesquisadora e dirigente estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Manuela Aquino, situou o avanço da extrema direita dentro de uma crise estrutural do capitalismo contemporâneo.
“A gente vive um momento em que essa crise não tem mais saída dentro do que o próprio capital oferece”, afirmou.
De acordo com a socióloga, a recomposição das taxas de lucro tem ocorrido por meio da intensificação da exploração do trabalho e da ampliação da disputa por recursos naturais estratégicos. Esse processo se expressa, segundo ela, na precarização das relações de trabalho, na expansão do chamado empreendedorismo e na redução de direitos sociais.
Aquino também chamou atenção para a disputa global por minerais estratégicos e terras raras. “Quando a gente pensa nessas terras raras, 80% delas estão no continente africano e na América Latina”, afirmou.
Para a dirigente do MST, o mundo atravessa um período de transição no equilíbrio de poder global, o que tende a intensificar conflitos.
“Existe uma transição de poder mundial acontecendo agora, e momentos assim na história costumam vir acompanhados de guerras e disputas muito fortes”.
Neofascismo e crise da democracia
A vereadora de Campinas, Mariana Conti, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), destacou que o crescimento da extrema direita está ligado à crise estrutural do capitalismo e ao aumento das desigualdades sociais.
“O neofascismo é hoje o principal inimigo de classe e dos povos do mundo”, afirmou.
Para a parlamentar, o cenário atual é marcado por uma concentração inédita de riqueza global, que enfraquece as bases da democracia e aprofunda crises sociais.
Integrante da Global Sumud Flotilla, Conti também mencionou a situação da Palestina como um exemplo dramático desse contexto de violência e dominação.
“A Palestina é um laboratório para o mundo, tanto no teste de armas quanto na construção de modelos de controle político”, afirmou.
A vereadora também ressaltou que experiências de mobilização popular demonstram que a extrema direita pode ser enfrentada.
“Quando há mobilização social, é possível emparedar a extrema-direita”.
Autoritarismo no Brasil
O vereador de São Carlos, Djalma Nery, também do PSOL, trouxe ao debate uma reflexão sobre as raízes históricas do autoritarismo no país. Segundo ele, o Brasil possui uma tradição própria de movimentos autoritários que antecede o fenômeno contemporâneo da extrema direita.
“O Brasil tem a sua própria versão do fascismo, que foi o integralismo”, afirmou.
Para o parlamentar, elementos simbólicos daquele movimento seguem presentes na política atual, como o lema “Deus, pátria e família”. Nery também chamou atenção para a permanência de ideologias autoritárias ligadas à chamada cultura bandeirante no interior paulista.
Ao analisar o cenário internacional, o vereador destacou a intensificação das disputas geopolíticas e a multiplicação de conflitos armados em diferentes regiões do mundo.
“Se a ofensiva é global, a resistência também precisa ser global”.
Segundo ele, a derrota eleitoral do bolsonarismo em 2022 não significou o fim da extrema direita no país. Para Nery, o campo bolsonarista segue organizado social e politicamente, exigindo tanto mobilização popular quanto disputa institucional.
Movimentos locais e solidariedade internacional
Após as intervenções da mesa principal, representantes de organizações e coletivos da região realizaram saudações ao encontro, entre eles integrantes do Sintusp, da Resistência Caipira Antifascista, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Marcha da Maconha e do Movimento Ecossocialista Florestinha Urbana.
Representando o Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, Fátima Suleiman denunciou a situação vivida pelo povo palestino e reforçou a importância da solidariedade internacional.
“Falar da Palestina é falar todos os dias. Nosso povo está morrendo de fome, de sede, morrendo por tiros e por bombas”.
Durante as intervenções, representantes de diferentes movimentos também destacaram pautas como a luta antirracista, a defesa dos direitos humanos, o combate ao encarceramento em massa e a importância da organização popular diante do avanço da extrema direita.
Unidade para enfrentar o neofascismo
Nas considerações finais, os participantes reforçaram a necessidade de ampliar a articulação política e fortalecer a mobilização social.
“É fundamental construir unidade para derrotar o neofascismo e o bolsonarismo, mas também fortalecer um campo popular conectado com as lutas sociais”, afirmou Mariana Conti.
Para a parlamentar, a mobilização popular continua sendo a principal ferramenta para enfrentar projetos autoritários.
“A única forma de combater o fascismo é com luta social. Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”.
Djalma Nery também ressaltou a importância de reconstruir o debate político com a sociedade em um contexto de radicalização.
“Hoje há uma tentativa de transformar qualquer divergência em guerra. O adversário político deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo”.
Ao final da atividade, Manuela Aquino também registrou solidariedade ao coletivo cultural Samba da Opinião, que tem promovido rodas de samba e atividades culturais em espaços públicos de Ribeirão Preto e vem sendo alvo de ataques de setores conservadores da cidade.
“Eles ocupam as praças da cidade com cultura gratuita e isso também é uma trincheira importante da luta política”, afirmou.
A pré-conferência em Ribeirão Preto faz parte de uma série de encontros preparatórios realizados em diferentes cidades brasileiras com o objetivo de ampliar o debate público sobre o avanço da extrema direita e fortalecer redes internacionais de solidariedade e resistência democrática.
Com informações do blog O Calçadão