Israel rompe trégua e mata brasileiros no Líbano
Ataque israelense durante cessar-fogo deixa três mortos da mesma família e expõe escalada contra civis
Foto: Reprodução
Mesmo sob um cessar-fogo formalmente em vigor, novos ataques de Israel no sul do Líbano continuam fazendo vítimas civis – entre elas, brasileiros. No último domingo (26), um bombardeio matou a brasileira Manal Jaafar, seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos, também nascido no Brasil, e o pai da criança, o libanês Ghassan Nader. Outro filho do casal sobreviveu e segue hospitalizado.
O ataque ocorreu na cidade de Bint Jbeil, uma das regiões mais afetadas pela ofensiva israelense recente. Segundo familiares, a família havia retornado à casa – onde já não morava – apenas para retirar pertences durante a trégua.
“Eles foram para a cidade onde está a casa deles para dar uma olhada na casa. […] estavam preparando a mala”, relatou um parente. Pouco depois, a residência foi destruída. “A casa de três andares virou pedaços.”
A morte da família escancara a fragilidade do cessar-fogo firmado em 16 de abril, que previa a suspensão das hostilidades entre Israel e o grupo Hezbollah. Desde então, porém, sucessivas violações vêm sendo registradas – com impacto direto sobre a população civil. Apenas no domingo, 14 civis foram mortos em diferentes regiões do Líbano, segundo autoridades locais, no dia mais letal desde o início da trégua.
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores condenou o episódio e destacou que ele representa “mais um exemplo das reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo”. O governo brasileiro afirmou ainda: “O Brasil reitera sua mais veemente condenação a todos os ataques perpetrados durante a vigência do cessar-fogo, tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah”.
O Itamaraty também criticou a destruição de infraestrutura civil e o deslocamento forçado em massa. Condena, ainda, “as demolições sistemáticas de residências […] e a persistência do deslocamento forçado de mais de um milhão de libaneses”, diz a nota. O Brasil defende a “imediata cessação das hostilidades” e a retirada das forças israelenses do território libanês, em conformidade com a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU.
Apesar disso, a ofensiva segue em curso. O governo de Benjamin Netanyahu sustenta que os ataques são uma resposta a supostas violações do Hezbollah e afirma agir em “autodefesa”. Na prática, porém, a continuidade dos bombardeios durante a trégua tem sido denunciada por organismos internacionais e governos como uma escalada desproporcional, que atinge sobretudo civis.
O que está em disputa
As raízes do conflito entre Israel e Líbano remontam a décadas de disputas territoriais, ocupações militares e intervenções na região, agravadas pela presença do Hezbollah – grupo que surgiu nos anos 1980 em resposta à invasão israelense do território libanês. Nos últimos meses, a tensão voltou a crescer em meio ao cenário regional mais amplo, envolvendo Irã, Israel e seus aliados.
Ainda assim, analistas apontam que a manutenção de ataques em áreas residenciais, mesmo sob cessar-fogo, não encontra justificativa no direito internacional humanitário. A repetição de bombardeios contra zonas civis, com alto número de mortos e deslocados, reforça denúncias de violações sistemáticas e amplia a crise humanitária no país.
Hoje, mais de 1 milhão de libaneses estão deslocados, segundo estimativas de organismos internacionais. O país também abriga cerca de 21 mil brasileiros – muitos deles agora expostos a um conflito que, mesmo diante de acordos formais, segue avançando sobre vidas civis.
A morte de Manal, Ali e Ghassan sintetiza esse cenário: uma guerra que, mesmo quando promete pausa, continua atingindo quem não tem qualquer relação direta com o confronto armado.