Governo avança para pôr fim à escala 6×1
Proposta de jornada 5×2 com 40 horas semanais, sem corte de salário, ganha força no Congresso e responde ao desgaste histórico imposto aos trabalhadores
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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu avançar com uma das pautas mais sensíveis para a classe trabalhadora: o fim da escala 6×1. Um projeto de lei com urgência constitucional deve ser enviado ao Congresso Nacional ainda neste mês, propondo a adoção da escala 5×2 – cinco dias de trabalho para dois de descanso – e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.
A iniciativa representa uma resposta direta a uma demanda histórica dos trabalhadores brasileiros e do movimento sindical, que há décadas reivindicam melhores condições de trabalho e mais tempo para a vida fora do emprego. Nos últimos anos, o tema ganhou novo fôlego com a mobilização de parlamentares como Erika Hilton e Rick Azevedo, além da pressão crescente nas redes sociais.
A proposta do governo será enxuta, focada nos pontos centrais, como forma de evitar alterações que desidratem seu conteúdo no Congresso. A estratégia também busca garantir que o Executivo tenha poder de veto sobre eventuais mudanças que prejudiquem os trabalhadores – algo que não ocorreria no caso de uma proposta de emenda constitucional.
O apoio popular à medida é expressivo. Segundo pesquisa do Datafolha, 71% dos brasileiros defendem o fim da escala 6×1, índice que chega a 83% entre jovens. O tema, inclusive, atravessa divisões políticas, mostrando que o desgaste causado por jornadas extensas é uma realidade compartilhada por grande parte da população.
O peso da 6 x 1
A escala 6×1 – que prevê apenas um dia de descanso semanal – é amplamente criticada por especialistas em saúde do trabalho. Estudos da Organização Internacional do Trabalho indicam que jornadas prolongadas estão associadas ao aumento de doenças físicas e mentais, como estresse crônico, ansiedade e síndrome de burnout. Além disso, a falta de tempo para descanso e convivência familiar impacta diretamente a qualidade de vida, dificultando o cuidado com os filhos, o acesso à educação e até a participação social e política.
No Brasil, essa realidade é ainda mais dura para trabalhadores de setores como comércio e serviços, onde a escala 6×1 é comum. Longas jornadas, baixos salários e deslocamentos exaustivos agravam a sobrecarga, especialmente para mulheres, que acumulam trabalho doméstico e de cuidado. O resultado é um ciclo de desgaste que afeta não apenas o indivíduo, mas toda a estrutura familiar.
A mudança para a escala 5×2 e a redução da jornada para 40 horas semanais seguem uma tendência internacional. Países europeus e experiências recentes em empresas ao redor do mundo apontam que jornadas menores podem aumentar a produtividade, reduzir o absenteísmo e melhorar o bem-estar dos trabalhadores, sem prejuízo econômico. Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que países com jornadas mais curtas tendem a ter maior equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
Ao apostar na urgência constitucional, o governo tenta acelerar a tramitação e evitar que a proposta seja esvaziada por pressões de setores empresariais contrários à mudança. A intenção é que ao informar a população da existência dessa medida, ela se mobilize a favor da medida para pressionar a sua aprovação”.
Mais do que uma disputa legislativa, o fim da escala 6×1 se consolida como uma pauta de disputa social. Ao colocar no centro do debate o direito ao descanso, à convivência familiar e à dignidade no trabalho, a proposta recoloca a necessidade de reorganizar o tempo de vida da classe trabalhadora – historicamente subordinado à lógica do lucro.