O que ensina a noite: rumo a uma Nova Esquerda indiana em uma era de falta de liberdade
Diante de um movimento que busca refazer a nação à imagem de um passado ferido, apenas uma esquerda comprometida com uma democracia mais profunda e generosa poderá oferecer um horizonte pelo qual valha a pena lutar
Algo fundamental mudou na Índia. Podemos perceber isso não apenas nos lugares habituais — o parlamento, os estúdios de televisão, os comícios eleitorais —, mas também nas zonas mais tranquilas e silenciosas da vida: nas escolas, onde o medo se transforma em linguagem; ao redor dos poços das aldeias, onde a casta ainda determina a ordem da sede; no silêncio que se instala quando se pronuncia com raiva o nome de uma comunidade religiosa minoritária; e nas mil hesitações tácitas que agora pontuam a linguagem cotidiana. As ansiedades da era neoliberal se fundiram com um maquinário ideológico centenário, dando origem a uma formação política ao mesmo tempo dolorosamente familiar e assustadoramente nova.
Um século em gestação
Esse fenômeno não é o simples crescimento de um partido de direita. É a vitória de um projeto que esperou pacientemente por gerações, ganhando força nas shakhas [1] dos bairros, nas festividades religiosas, nas redes de caridade e nos livros didáticos escolares. Como demonstrou Christophe Jaffrelot, o Sangh Parivar é menos uma organização política do que um organismo social em expansão: respira através das instituições, circula pelos hábitos e se instala nos menores recantos da vida cultural. Quando o Partido Popular Indiano (BJP) chegou ao poder, não foi por acidente eleitoral, mas como culminação ideológica.
A novidade está na forma como essa velha maquinaria se combinou com as ruínas deixadas pelo neoliberalismo. O campo indiano está assombrado pelos fantasmas de promessas abandonadas: preços mínimos de garantia, salários estáveis, canais de irrigação que secaram antes de chegar às lavouras. Os trabalhadores, vivendo sob viadutos e carregando smartphones e dívidas nos bolsos, transbordam nas cidades. Uma geração cresceu acreditando que modernidade significa precariedade, mobilidade significa insegurança e sobrevivência significa disputar migalhas. A visão de Kalyan Sanyal — as vastas “zonas de exclusão” da Índia — já não parece terminologia acadêmica, mas a própria textura da vida cotidiana.
Ruínas neoliberais, sonhos autoritários
Nessas ruínas, o nacionalismo hindu encontrou sua linguagem. Onde a segurança econômica desmoronou, espalhou-se o ressentimento cultural; onde os empregos desapareceram, cresceram mitos de agravos históricos; onde o estado de bem-estar recuou, avançou a política da humilhação. “Você pode não estar seguro”, sussurra a narrativa majoritária, “mas ao menos é superior a alguém”. É uma moralidade tóxica, mas, em uma era de esperanças deslocadas, tem sido eficaz. As reflexões de Dave Renton sobre o fascismo — sua capacidade de transformar desespero em desejo de purificação — se ajustam ao momento atual com precisão desconfortável, ainda que o autoritarismo indiano use a máscara da democracia eleitoral.
O resultado é um híbrido peculiar: uma ordem majoritária autoritária com aspirações fascistas, que opera através dos procedimentos familiares da República enquanto a esvazia por dentro. As eleições continuam, mas seu espírito se esvai; as instituições permanecem, mas sua autonomia se corrói; os tribunais julgam, mas a justiça se torna tímida. Perry Anderson escreveu certa vez que a Índia nunca resolveu plenamente as contradições de sua origem nacionalista; hoje, essas contradições retornam com força, agora agravadas pelas ambições de um movimento que busca substituir a República por um Estado civilizacional.
Os limites da oposição liberal
Diante dessa transformação, a oposição dominante se move como um sonâmbulo. Sua imaginação continua presa à linguagem dos anos 1990: eficiência, crescimento, desenvolvimento, secularismo como ritual simbólico, políticas sociais como clientelismo e coalizões como objetivo final da política. Não percebe que o BJP não apenas disputa eleições, mas reescreve a própria linguagem em que a política se desenrola. Como pode um partido cuja visão de mundo está esgotada, cujo secularismo é tímido, cujo programa econômico é indistinguível da ordem dominante e cuja imaginação social está limitada pelo “bom senso” do mercado enfrentar um movimento que busca uma remodelação total da sociedade?
A crise da esquerda, porém, é ainda mais dolorosa, porque é uma crise de possibilidades. A esquerda foi, um dia, a âncora dos movimentos de massa em todo o país, organizou trabalhadores e camponeses e ensinou gerações a ler não apenas palavras, mas o mundo inteiro. Hoje, encontra-se enfraquecida: presente, mas vacilante; com princípios, mas cansada; com organização ampla, mas politicamente tímida. O Parlamento tornou-se seu centro de gravidade, puxando-a cada vez mais para alianças que diluem sua clareza e amortecem sua voz. Age como se a ameaça pudesse ser superada por aritmética tática, como se o Sangh Parivar fosse apenas mais um adversário parlamentar.
Mas a extrema direita não é um adversário parlamentar. É um projeto civilizacional — e só uma política contracivilizacional pode enfrentá-lo. A esquerda precisa recuperar seu sentido de missão histórica, sua capacidade de imaginar além dos horizontes do presente, mobilizar aqueles que vivem e trabalham nas sombras da economia e falar uma linguagem que coloque a dignidade no centro da vida política.
Para isso, deve enfrentar uma realidade que conhece há muito tempo, mas nem sempre tratou com a urgência necessária: a casta não é um complemento da classe, mas a própria gramática do trabalho na Índia. A questão dalit não é apenas de representação, mas de organização do trabalho, distribuição da degradação e gestão do medo. A ordem de castas fragmenta a classe trabalhadora antes mesmo que ela possa se organizar. Qualquer política de esquerda que não coloque a abolição das castas no centro de seu programa terá base social reduzida, alianças frágeis e imaginação incompleta. Aqueles que mais sofrem a violência do capitalismo — trabalhadores sem terra, profissionais da saúde, trabalhadores informais, migrantes, dalits, adivasis, OBCs e muçulmanos — são exatamente os que a extrema direita busca cooptar ou excluir da comunidade nacional. A esquerda deve, portanto, construir uma força compensatória a partir de baixo, focando nos pontos onde casta e classe se cruzam de forma mais violenta.
Implicações globais
Mas o campo de luta não é apenas nacional. A virada autoritária da Índia se projeta para fora, deixando marcas duradouras na ordem mundial. Um país com uma das maiores — e talvez mais precárias — forças de trabalho do mundo não pode abraçar o autoritarismo sem consequências globais. Quando proteções trabalhistas são desmontadas na Índia, o capital global comemora; quando sindicatos são enfraquecidos, cadeias de suprimento se endurecem; quando a dissidência é criminalizada, as fábricas do mundo se tornam mais silenciosas. O capital global não apenas tolera a virada autoritária — ele a abraça.
A crescente posição da Índia como enorme mercado consumidor intensifica essa cumplicidade. Gigantes da tecnologia e conglomerados financeiros tratam o país como a próxima fronteira de expansão. Um regime que oferece desregulamentação, mão de obra barata, sindicatos enfraquecidos e estabilidade política é um presente para investidores. E assim, o silêncio global se aprofunda. Democracias que pregam direitos humanos se calam diante do tamanho da Índia, de seu mercado e de sua utilidade geopolítica.
Há ainda a questão climática. A Índia está na linha de frente da crise climática: suas ondas de calor, ciclones, secas e enchentes são prenúncios do futuro do planeta. A visão de desenvolvimento do atual governo, marcada pela mineração predatória, expansão do carvão e expropriação disfarçada de progresso, ameaça não apenas a sobrevivência ecológica do país, mas do mundo inteiro. Um Estado autoritário que reprime movimentos ambientalistas e criminaliza a resistência indígena acelera a catástrofe.
No plano geopolítico, a Índia tornou-se um pilar da estratégia indo-pacífica. É cortejada como contrapeso à China, o que concede ao regime governante uma espécie de imunidade moral. Potências ocidentais toleram ali o que denunciariam em outros lugares, porque a Índia é grande demais, estratégica demais e central demais na coreografia da rivalidade global. A erosão da democracia indiana entrelaça-se, assim, com interesses imperiais; a luta global contra o autoritarismo passa necessariamente pela Índia.
A crise reside no fato de que a Índia — país vasto, crucial para o capitalismo global, para o equilíbrio climático e para a geopolítica — caminha para um futuro autoritário enquanto sua oposição permanece paralisada. Resistir a essa trajetória ultrapassa as fronteiras nacionais: trata-se de defender o futuro da democracia, dos direitos trabalhistas, da ecologia e da desmilitarização global.
Rumo a uma nova formação de esquerda
Dessa perspectiva, a renovação da esquerda não é apenas desejável — é necessária. Sua tarefa não é retornar a fórmulas antigas nem apegar-se a hábitos organizativos esgotados, mas reinventar-se como uma força capaz de dialogar com um século marcado pela precariedade, pelo colapso ecológico e pelo autoritarismo identitário. Deve construir novas solidariedades entre os precários e excluídos; criar novas linguagens que atravessem castas, classes, religiões e regiões; tratar a educação política como prática viva, e não como memória arquivada; abraçar o internacionalismo como orientação estratégica.
Acima de tudo, a esquerda deve recuperar a arte que um dia dominou: a arte de nomear o mundo — suas estruturas de violência, suas possibilidades de transformação, suas fissuras ocultas, seus sonhos reprimidos. Porque a extrema direita prospera quando o mundo é mal nomeado: quando exploração vira destino, sofrimento vira sacrifício, opressão vira tradição e dissidência vira traição.
O lento trabalho de renovação
No fim, o caminho mais honesto pode ser o que Achin Vanaik aponta com serenidade: o lento e quase subterrâneo trabalho de construir uma Nova Esquerda desde o zero. Não se trata de ressuscitar velhos partidos nem de um milagre eleitoral, mas de uma longa acumulação molecular: organização paciente em salas cheias e campos devastados, em assembleias sindicais, coletivos de mulheres, assentamentos dalit e dormitórios de migrantes — nesses espaços esquecidos onde as promessas da república nunca chegaram de fato. É daí que surgem os quadros capazes de atravessar os longos invernos do autoritarismo: pessoas forjadas na luta, educadas na solidariedade, guiadas por uma visão além do esgotamento da democracia liberal. A história mostra que rupturas súbitas são preparadas por anos de invisibilidade.
Uma nova esquerda, se nascer, surgirá inicialmente em silêncio, reunindo fragmentos de resistência até que, um dia, quando as condições amadurecerem e o medo vacilar, emerja com uma força que parecerá repentina — mas que, na verdade, esteve sendo gestada por um século. Diante de um movimento que busca refazer a nação à imagem de um passado ferido, apenas uma esquerda comprometida com uma democracia mais profunda e generosa — que supere o capitalismo em vez de suplicar a ele — poderá oferecer um horizonte pelo qual valha a pena lutar.
Notas
[1] Estrutura do nacionalismo hindu.
A Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) está no centro do movimento nacionalista hindu. Fundada em 1925, é uma organização que se tornou uma das forças mais influentes da Índia contemporânea. Em vez de funcionar como um partido político, atua como uma rede nacional de quadros voluntários que se reúnem regularmente para formação ideológica, exercícios físicos e atividades comunitárias. Ao longo de um século, criou escolas, instituições de caridade, organizações culturais e iniciativas de mobilização que influenciaram profundamente a vida social cotidiana.
O partido governante Bharatiya Janata Party (BJP) funciona como braço político da RSS, e muitas das principais lideranças do país, incluindo o primeiro-ministro, foram formadas em suas fileiras. Para compreender as atuais transformações autoritárias e majoritárias na Índia, é fundamental entender a RSS: sua visão de mundo, sua disciplina organizativa e sua ambição de longo prazo de transformar a Índia em uma nação explicitamente hindu.
A shakha é a unidade básica da RSS: uma reunião local regular em que se cultivam disciplina e pertencimento ideológico por meio de exercícios, cânticos e instrução informal. Simples na forma, mas poderosa em seus efeitos, ela incorpora a cosmovisão da organização nos hábitos cotidianos. Por meio de milhares dessas assembleias de bairro, a RSS construiu uma rede de quadros sem paralelo em escala e durabilidade.