Preso nos EUA, Ramagem expõe limites da aliança entre bolsonarismo e trumpismo
Detenção pelo ICE mostra que nem aliados da extrema direita brasileira não têm guarida garantida sob política migratória rígida dos Estados Unidos
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
A prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem pelo serviço de imigração dos Estados Unidos expõe, mais uma vez, os limites da aliança simbólica entre a extrema direita brasileira e o governo de Donald Trump. Detido pelo ICE em Orlando, na Flórida, Ramagem não encontrou no país norte-americano o refúgio político que aliados sugeriam – reforçando que nem mesmo figuras centrais do bolsonarismo têm guarida garantida sob a política migratória endurecida dos EUA.
Foragido desde setembro de 2025, Ramagem havia deixado o Brasil de forma clandestina pela fronteira com a Guiana, antes de seguir para os Estados Unidos. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal a mais de 16 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado e organização criminosa, ele foi incluído na lista da Interpol por determinação do ministro Alexandre de Moraes, o que viabilizou sua captura internacional.
Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, “a prisão é fruto da cooperação internacional Brasil-Estados Unidos no combate ao crime organizado. Ramagem é um cidadão foragido da Justiça brasileira e, segundo autoridades norte-americanas, está em situação migratória irregular”. A detenção ocorreu por questões migratórias, e o governo brasileiro já iniciou os trâmites para sua extradição.
A trajetória de Ramagem está diretamente ligada ao núcleo duro do bolsonarismo. Ex-diretor da Abin no governo de Jair Bolsonaro, ele é investigado por integrar a chamada “Abin paralela” e por participação na trama golpista que culminou nos atos de 8 de janeiro. Sua prisão, portanto, não é apenas um episódio jurídico, mas também político, com repercussões no campo da extrema direita brasileira.
O caso desmonta a narrativa de que os Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Trump, funcionariam como porto seguro para aliados ideológicos. Na prática, a política migratória norte-americana tem sido marcada por rigor e seletividade, atingindo inclusive apoiadores estrangeiros do trumpismo.
Desde o início do governo Trump, dados de órgãos oficiais como o Department of Homeland Security indicam um aumento significativo nas detenções e deportações de imigrantes. Em 2019, por exemplo, mais de 267 mil pessoas foram deportadas, incluindo milhares de famílias. Relatórios também apontam que, entre 2017 e 2020, dezenas de milhares de crianças migrantes foram detidas em centros de custódia, muitas delas separadas de seus responsáveis — política amplamente criticada por organismos internacionais de direitos humanos.
Casos de brasileiros surpreendidos pela repressão migratória também se multiplicaram nos últimos anos. Influenciadores digitais que viviam nos Estados Unidos sem status regular relataram detenções inesperadas, batidas do ICE e processos de deportação. Em redes sociais, alguns afirmaram ter sido abordados “na rua” ou em suas residências, sem aviso prévio, evidenciando o alcance das operações.
A prisão de Ramagem ocorre nesse contexto mais amplo de endurecimento das políticas migratórias e reforça que alinhamento ideológico não garante tratamento privilegiado. Pelo contrário, evidencia contradições: enquanto setores da extrema direita brasileira exaltam o modelo norte-americano, seus próprios quadros podem ser alvos das mesmas políticas que defendem.
Nos bastidores políticos, o episódio é interpretado como mais um sinal de desgaste da articulação internacional da extrema direita, já abalada por derrotas recentes em outros países. A ideia de uma rede global coesa encontra limites concretos quando confrontada com interesses nacionais e legislações internas.
Ao fim, a prisão de Ramagem sintetiza um paradoxo: o mesmo Estado que inspira parte da extrema direita brasileira não hesita em aplicar suas regras migratórias de forma dura — inclusive contra aqueles que se alinham politicamente ao seu governo.