Pressão popular e crise política: a queda tardia de Juscelino Filho
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Pressão popular e crise política: a queda tardia de Juscelino Filho

Após meses de denúncias e blindagem política, ministro das Comunicações entrega cargo e expõe dilema do governo Lula

Tatiana Py Dutra 9 abr 2025, 10:51

Foto: Agência Brasil

O ministro das Comunicações, Juscelino Filho (União Brasil), finalmente pediu demissão após uma série de denúncias envolvendo suspeitas de corrupção e uso indevido de recursos públicos. Ele foi recentemente denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por corrupção passiva e outros crimes relacionados ao desvio de emendas. No início da noite de ontem,  o deputado federal licenciado anunciou a demissão, por carta.

Sua saída não foi surpresa para parte da opinião pública, que desde o início do escândalo cobrava uma postura mais firme do governo federal. O que chama atenção, no entanto, é por que o presidente Lula não antecipou esse desfecho, mesmo diante das crescentes evidências e da pressão da sociedade civil.

Juscelino Filho estava no centro de investigações que apontavam uso de verbas para beneficiar empresas ligadas a sua família e a prática de superfaturamento em contratos públicos. Reportagens e apurações de órgãos de controle reforçaram as suspeitas, alimentando uma crise de imagem para o governo. Ainda assim, Lula hesitou.

A razão para essa hesitação está no complicado xadrez da política de coalizão que sustenta o governo por cima. Lula, que retornou ao poder com a missão de reconstruir a democracia após o desastre bolsonarista, aprofunda sua política de conciliação para manter uma base parlamentar minimamente estável de apoio – especialmente diante de um Congresso hostil e dominado pelo Centrão. Juscelino representava não apenas uma peça desse tabuleiro, mas a influência do União Brasil, partido de direita que assegura apoio ao Planalto.

Porém, a permanência do ministro se tornou insustentável. A base social que sustenta o governo, composta por movimentos populares, sindicatos e setores progressistas, intensificou a pressão pública, acusando Lula de tolerância com práticas que ele mesmo sempre condenou. A opinião pública, mais vigilante após anos de ataques à democracia, não aceitou a retórica da governabilidade a qualquer custo.

Diante desse cenário, a demissão de Juscelino Filho não foi apenas um ato administrativo, mas uma pequena mudança nas amarras do fisiologismo que ainda resistem em Brasília. Para Lula, fica a lição: a construção de uma base sólida de apoio deve vir de baixo, a partir de medidas concretas em favor do povo trabalhador, e não às custas dos compromissos éticos mínimos que sustentam o projeto de seu governo.


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