Violência e censura em dia de autoritarismo na Câmara
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Violência e censura em dia de autoritarismo na Câmara

Retirada brutal de Glauber Braga, agressões a jornalistas e blindagem a golpistas expõem dupla medida e crise democrática no Parlamento

Tatiana Py Dutra 10 dez 2025, 02:37

Foto: Reprodução

A terça-feira (9) expôs, em cadeia nacional – ainda que por alguns minutos, até o corte da transmissão – um dos episódios mais graves de autoritarismo recente dentro da Câmara dos Deputados. Em um ato sem precedentes desde a redemocratização, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) foi arrastado pela Polícia Legislativa após realizar um protesto pacífico contra a pauta que acelera seu processo de cassação. A violência não se limitou ao parlamentar: jornalistas que aguardavam seu pronunciamento também foram agredidos, empurrados e impedidos de registrar a cena.

Glauber permaneceu por cerca de uma hora na cadeira da Presidência, denunciando a decisão de Hugo Motta (Republicanos-PB) de levar adiante o debate sobre sua cassação – enquanto parlamentares da extrema direita puderam, meses antes, ocupar a mesma Mesa Diretora por 45 horas sem qualquer ação policial. 

“Só pedi ao presidente Hugo Motta que tivesse 1% do tratamento comigo que teve com aqueles que sequestraram a Mesa Diretora por 48h”, afirmou o deputado, que teve o paletó rasgado durante a remoção. “Se imaginavam que esse era um passo para eu ficar quieto, estão enganados.”

A resposta institucional não foi diálogo, mas força: parlamentares foram retirados, o plenário esvaziado, a TV Câmara teve o sinal cortado, e repórteres foram expulsos a empurrões. A repórter Carolina Nogueira, do UOL, relatou ter sido empurrada pelo pescoço. A Fenaj, a ABI e a Abraji classificaram o episódio como “censura”, “violência inaceitável” e ato próprio de regimes autoritários.

Dosimetria

Enquanto a polícia legislativa agredia jornalistas, Motta conduzia uma sessão que mesclava repressão e blindagem. Na mesma pauta, o presidente pautou o chamado PL da dosimetria, que reduz penas de envolvidos na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro e beneficia diretamente Jair Bolsonaro e aliados. 

“É um absurdo, há uma ofensiva golpista em curso”, denunciou a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), esposa de Glauber, que também foi empurrada durante o tumulto.

A deputada lembrou ainda que, apesar de Bolsonaro acumular condenações e de Eduardo Bolsonaro – réu no STF pelo crime de coação por pressionar autoridades americanas para articular sanções contra ministros da Suprema Corte para livrar o pai da cadeia – enfrentar cassação por faltas, o foco do centrão tem sido acelerar o processo contra Glauber – cuja suposta “agressão” a um militante do MBL ocorreu quando o deputado defendia sua mãe, que viria a falecer dias depois. 

“Todo mundo aqui sabe, até as poltronas da Câmara, que não se trata de agressão a militante. Trata-se de retaliação a quem denunciou o orçamento secreto”, afirmou Sâmia, no plenário, horas antes da covarde agressão.

Boletim de ocorrência

No fim da tarde, Glauber, Sâmia e Célia Xakriabá registraram boletim de ocorrência contra a violência da Polícia Legislativa. 

“O uso desproporcional de força dentro da Casa do Povo é inaceitável”, disse o gabinete de Célia. “É também uma agressão ao trabalho da imprensa e à democracia.”

Parlamentares do PSOL reagiram duramente. Fernanda Melchionna classificou o episódio como “inacreditável”. Chico Alencar comparou o esvaziamento do plenário e o fechamento das galerias aos tempos da ditadura.

“Nós tivemos o nosso direito de parlamentar agredido”, afirmou.

Apesar da violência, Hugo Motta tentou justificar a operação: 

“Temos que proteger a democracia do grito”.

A fala foi recebida com indignação, já que o presidente não tomou medidas semelhantes quando parlamentares bolsonaristas ocuparam a Mesa Diretora, impediram sessões e humilharam a Presidência da Casa sem nenhuma consequência.

Enquanto Glauber recebia atendimento médico, Motta anunciava que as votações sobre cassações – incluindo as de Glauber, Zambelli, Ramagem e Eduardo Bolsonaro – ocorrerão na próxima semana, após análise da CCJ e decisão final em plenário, com exceção de Eduardo Bolsonaro, cuja situação pode ser decidida diretamente pela Mesa.

A terça-feira terminou com agressões, censura e blindagem a golpistas – e com a sensação, expressa nas centenas de manifestações de solidariedade ao deputado, de que o Parlamento atravessa uma crise de legitimidade. Como disse a deputada Talíria Petrone, “Hugo Motta atacou de morte a democracia”.


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