Um ensaio sobre o imperialismo e o nacional popular
tarsila-operarios-filtro

Um ensaio sobre o imperialismo e o nacional popular

Uma reflexão para um projeto revolucionário capaz de articular soberania nacional, democracia e transformação social

Frederico Henriques 8 fev 2026, 11:42

Imagem: Operários. (Tarsila do Amaral)

Este ensaio nasce de um duplo incômodo teórico e político, diretamente relacionado às transformações recentes da conjuntura internacional e às dificuldades históricas da esquerda brasileira em formular um projeto capaz de articular soberania nacional, democracia e transformação social. Em um cenário marcado pelo recrudescimento das disputas interimperialistas, pela intensificação das guerras, sanções econômicas e intervenções diretas, e pela reafirmação das hierarquias globais do capitalismo, o tema do anti-imperialismo retorna ao centro do debate político em termos concretos e dramáticos. Episódios recentes, como o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro em uma operação amplamente caracterizada como sequestro e violação da soberania estatal, recolocam de forma aguda o problema da intervenção unilateral e da autodeterminação dos povos no centro da agenda internacional. A reação de governos e organismos multilaterais a esses acontecimentos evidencia que não se trata de fatos periféricos, mas de inflexões relevantes na dinâmica das relações internacionais e nos limites efetivos da soberania dos Estados dependentes.

Ao mesmo tempo, no plano interno, seguimos confrontados com a profunda heterogeneidade estrutural da classe trabalhadora brasileira, atravessada por desigualdades regionais, raciais, de gênero e por formas múltiplas de inserção no mundo do trabalho.

Essas duas questões, a dependência externa e a fragmentação interna, não são problemas separados. Elas se articulam historicamente na formação social brasileira e colocam desafios centrais para qualquer estratégia de emancipação. A hipótese que orienta este texto é que a categoria de nacional-popular, tal como elaborada por Antonio Gramsci e apropriada criticamente na tradição marxista latino-americana, pode oferecer pistas importantes para pensar essa articulação. Não como fórmula acabada ou modelo a ser reproduzido, mas como problema político aberto, a ser reinventado à luz das condições contemporâneas.

Partindo dessas inquietações, o ensaio está organizado em cinco movimentos analíticos principais, precedidos e atravessados por uma reflexão crítica sobre a própria tradição da esquerda brasileira. No primeiro momento, retomamos o debate sobre o anti-imperialismo, dialogando especialmente com a obra de José Carlos Mariátegui, para discutir os limites estruturais da burguesia nos países dependentes e sua incapacidade histórica de conduzir um projeto efetivo de soberania nacional. Trata-se de recolocar a questão da independência não como tema do passado, mas como problema atual, profundamente ligado à dinâmica do capitalismo contemporâneo e às formas renovadas de dominação imperialista.

Em seguida, o texto se volta ao conceito de nacional-popular a partir de Antonio Gramsci, tomando o caso italiano como referência para pensar a relação entre hegemonia, cultura e política. Esse debate serve de base para o terceiro movimento, focado na análise do nacionalismo no Brasil, suas disputas e ambiguidades. A partir desse acúmulo, avançamos para uma avaliação crítica das distorções e aprendizados da experiência da esquerda petista, especialmente no que diz respeito à relação com o Estado, a burguesia e as classes populares, buscando desconstruir os fundamentos da estratégia democrático-popular hegemônica nesse setor.

Posteriormente, o texto dedica-se a desconstruir a ideia de nacionalismo forjada pelo fascismo bolsonarista, evidenciando seu caráter instrumental e autoritário. O ensaio se encerra sem pretensão de síntese conclusiva, buscando antes sistematizar questões e indicar caminhos possíveis para uma reflexão estratégica para a esquerda revolucionária sobre o nacional-popular no Brasil contemporâneo, entendendo-o como um campo de disputas em aberto e uma tarefa histórica ainda inconclusa.

Imperialismo, dependência e classe

O debate sobre o imperialismo e seus efeitos nas formações sociais latino-americanas não é novo, nem exclusivo do marxismo. Ao longo do século XX, diferentes tradições intelectuais se debruçaram sobre a condição periférica, buscando compreender os mecanismos que reproduzem a dependência econômica, política e cultural. Desde as formulações marxistas clássicas, como em Lenin e Trotsky, passando pelas teorias da dependência de Marini e Cardoso, até o estruturalismo latino-americano, como em Celso Furtado, consolidou-se um diagnóstico comum: a América Latina se integrou ao capitalismo mundial de forma subordinada, e essa inserção moldou decisivamente suas classes dominantes.

Ao escolher José Carlos Mariátegui como eixo desta parte, não ignoramos essa pluralidade de contribuições. Ao contrário, partimos do reconhecimento de que sua reflexão é pioneira, tanto cronológica quanto teoricamente. Mariátegui foi um dos primeiros intelectuais latino-americanos a formular, de maneira sistemática, uma crítica ao imperialismo articulada a uma análise concreta das classes sociais do continente, recusando tanto o liberalismo nacionalista quanto as leituras etapistas que separavam a luta anti-imperialista da luta socialista. Seu mérito não reside apenas nas conclusões a que chega, mas no método que inaugura: pensar o anti-imperialismo a partir das condições históricas específicas da América Latina.

Em Ponto de Vista Anti-imperialista (1929), Mariátegui intervém em um debate estratégico candente no interior do movimento comunista latino-americano. A questão colocada era aparentemente simples, mas politicamente decisiva: seria possível construir uma frente anti-imperialista ampla, de caráter pluriclassista, capaz de unificar burguesia, pequena burguesia e classes populares em torno de um projeto de libertação nacional? Para muitos, a resposta era afirmativa, inspirada em experiências estrangeiras e na crença de que a dominação externa produziria, automaticamente, um impulso nacionalista progressista.

Mariátegui rejeita essa premissa desde o início. Para ele, qualquer estratégia anti-imperialista que não parta de uma análise rigorosa da natureza da burguesia local está fadada ao fracasso. A condição semicolonial da América Latina, longe de gerar uma burguesia nacional interessada na soberania, produziu classes dominantes profundamente integradas ao capital imperialista. A dependência não é vivida como imposição externa, mas como parte constitutiva de seu projeto de classe.

Essa burguesia não se percebe como explorada pelo imperialismo, mas como sua parceira. A penetração do capital estrangeiro não ameaça seu poder político; ao contrário, o reforça. Por isso, não há, em seu horizonte, qualquer compromisso real com a independência nacional. A soberania interessa apenas enquanto forma jurídica, não enquanto conteúdo material. A colaboração com o imperialismo aparece como a via mais segura de acumulação e de manutenção da ordem social.

Mariátegui observa que essa postura é sustentada por uma ilusão ideológica poderosa. A independência formal, relativamente recente, alimenta a crença de que a nação já cumpriu suas tarefas históricas fundamentais. Os mitos da emancipação do século XIX permanecem vivos, encobrindo a nova forma de subordinação. A burguesia sente-se dona de seu destino, mesmo quando este é profundamente condicionado pelo capital estrangeiro. A soberania política formal funciona, assim, como máscara da dependência real.

Essa leitura antecipa, de modo notável, formulações que mais tarde seriam desenvolvidas por outras correntes críticas latino-americanas. Em Celso Furtado, por exemplo, encontramos a ideia de uma burguesia incapaz de romper com o padrão dependente de desenvolvimento porque sua reprodução econômica e social está organicamente vinculada a ele. Mariátegui, porém, acrescenta uma dimensão decisiva a essa análise: a dependência não é apenas econômica, mas também cultural e racial.

É nesse ponto que sua crítica ganha maior radicalidade. Para Mariátegui, a elite latino-americana não se reconhece como parte de uma comunidade nacional comum. Ao contrário, constrói sua identidade em oposição ao povo. A aristocracia e a burguesia definem-se como brancas, europeizadas, distantes das massas indígenas, negras e mestiças que compõem a maioria da população. Essa fratura racial e cultural impede qualquer identificação entre elite e povo e esvazia o nacionalismo de potencial revolucionário.

Enquanto em outros contextos históricos, como o chinês, citado por Mariátegui apenas como contraponto, a identidade cultural comum permitiu alianças nacionalistas transitórias, na América Latina essa possibilidade praticamente não existe. Aqui, a elite sente-se mais próxima do estrangeiro do que de seu próprio povo. O capital imperialista não é visto como inimigo civilizacional, mas como referência de modernidade, prestígio e ascensão social.

Essa identificação se manifesta nas práticas cotidianas, nos espaços de sociabilidade, nas aspirações culturais e até nas relações familiares. A confraternização com empresários e funcionários estrangeiros, a imitação de seus costumes e a valorização de vínculos com a “raça invasora” revelam que os laços de classe e raça com o imperialismo são mais fortes do que qualquer sentimento nacional. A pequena burguesia, por sua vez, tende a reproduzir esse comportamento, buscando ascensão social por meio da proximidade com o capital estrangeiro.

Diante desse quadro, Mariátegui é categórico: o fator nacionalista não pode ocupar lugar central na luta anti-imperialista latino-americana. Onde não há uma nação efetivamente compartilhada entre classes, o nacionalismo converte-se em ideologia abstrata ou em instrumento de dominação. Apostar em uma frente pluriclassista significa, na prática, subordinar as classes populares aos interesses da burguesia dependente.

A consequência estratégica dessa análise é clara. A formulação de Mariátegui apresenta, nesse sentido, uma notável convergência com a Teoria da Revolução Permanente elaborada por Leon Trotsky. Embora partam de contextos históricos distintos e de tradições políticas que nem sempre dialogaram diretamente, ambos chegam a uma conclusão estratégica semelhante: nos países de desenvolvimento capitalista dependente, a burguesia é estruturalmente incapaz de cumprir as tarefas democráticas e de libertação nacional, e qualquer separação entre luta anti-imperialista e luta socialista conduz, inevitavelmente, à derrota das classes populares.

Assim como em Trotsky, também em Mariátegui a revolução não pode ser concebida em etapas estanques, nas quais primeiro se realizariam as tarefas nacionais sob direção burguesa para, apenas em um segundo momento, abrir-se a perspectiva socialista. Ao contrário, a própria dinâmica da dependência empurra a luta democrática para o terreno da luta de classes, exigindo que o proletariado e o campesinato assumam simultaneamente as tarefas de emancipação nacional e de transformação social.

Essa posição implica uma crítica direta ao populismo e às estratégias que buscam dissolver os antagonismos de classe em nome de uma unidade nacional fictícia. A pequena burguesia, frequentemente apresentada como sujeito privilegiado do nacionalismo, revela-se incapaz de sustentar uma política anti-imperialista consequente. Quando chega ao poder, tende a pactuar com o capital internacional e a se converter em barreira à transformação socialista.

Essa afinidade teórica se torna ainda mais evidente quando se considera o papel atribuído às alianças de classe. Tal como na crítica trotskista às frentes com a burguesia nacional, especialmente após a derrota da Revolução Chinesa de 1925–1927, Mariátegui identifica na colaboração de classes não um caminho tático transitório, mas um mecanismo estrutural de bloqueio da revolução. A subordinação do movimento operário a projetos nacionalistas dirigidos pela pequena burguesia ou pela burguesia dependente não fortalece a luta anti-imperialista, mas a neutraliza, convertendo-a em instrumento de estabilização da ordem existente.

Desse ponto de vista, tanto Mariátegui quanto Trotsky partilham a compreensão de que, na era do imperialismo, as tarefas nacionais só podem ser efetivamente resolvidas sob direção proletária e como parte de um processo de transição socialista, cuja dinâmica ultrapassa os limites nacionais e se insere no movimento internacional da luta de classes.

Ao insistir nesse ponto, Mariátegui não está recusando a dimensão nacional da luta, mas redefinindo seu conteúdo. O problema não é a nação em abstrato, mas quem a dirige, em nome de quais interesses e com que projeto histórico. O anti-imperialismo, esvaziado de conteúdo de classe, torna-se retórica; articulado ao socialismo, transforma-se em prática revolucionária.

A atualidade do pensamento mariateguiano reside precisamente nessa recusa às soluções fáceis e às fórmulas importadas. Mais de nove décadas depois, as burguesias latino-americanas seguem profundamente integradas ao capital internacional, agora sob formas financeirizadas e globalizadas. A dependência não desapareceu; apenas se sofisticou. Retomar Mariátegui é retomar a exigência de pensar o anti-imperialismo a partir da realidade concreta do continente, reconhecendo que não há soberania nacional possível sem ruptura com a burguesia dependente, nem libertação nacional separada de um processo de transição socialista conduzido pelas classes exploradas.

Esta parte buscou estabelecer esse ponto de partida. Nos próximos momentos do artigo, a reflexão se deslocará para o debate gramsciano sobre hegemonia e nacional-popular, permitindo aprofundar a discussão sobre o Brasil, numa perspectiva libertadora, popular, democrática e anticapitalista.

Nacional-popular, hegemonia e classes subalternas

A reflexão de Antonio Gramsci sobre o nacional-popular emerge de uma investigação histórica situada, mas dotada de grande capacidade de generalização. Ainda que formulada a partir dos impasses da formação social italiana, sua elaboração não se limita a um problema “nacional” no sentido estreito, mas se converte em uma chave analítica para pensar os processos revolucionários em sociedades marcadas por forte heterogeneidade social, por unificações tardias e por uma relação tensa entre Estado, sociedade civil e classes subalternas. É nesse sentido que a aproximação entre a Itália de Gramsci e o Brasil contemporâneo não se dá por identidade histórica, mas por analogia estrutural.

Assim como a Itália, o Brasil constitui-se como um Estado nacional a partir de processos conduzidos fundamentalmente “por cima”, nos quais a incorporação ativa das massas populares foi limitada ou mediada. Em ambos os casos, a unificação jurídica e institucional não foi acompanhada por uma integração efetiva entre as classes dirigentes e o povo, nem por uma homogeneização mínima das condições sociais e culturais. O resultado é uma sociedade profundamente fragmentada, na qual as classes subalternas se apresentam de forma dispersa, regionalizada e atravessada por múltiplas determinações, sejam elas territoriais, raciais, culturais ou econômicas.

Essa condição ganha relevo quando situada na distinção gramsciana entre Oriente e Ocidente, que deve ser entendida menos como oposição rígida e mais como uma tipologia histórico-política. Gramsci não contrapõe mecanicamente duas realidades estanques, mas procura identificar tendências dominantes. No chamado “Ocidente”, o Estado não se sustenta apenas pela coerção direta, mas por uma complexa rede de instituições, tradições e consensos que compõem a sociedade civil. Isso não elimina a possibilidade de momentos de ruptura ou de ação direta, mas altera o peso relativo das formas de luta e da estratégia política.

Nesse sentido, é importante afastar uma leitura esquemática que opõe guerra de movimento e guerra de posição como estratégias mutuamente excludentes. Em Gramsci, a guerra de posição adquire proeminência em sociedades com sociedade civil robusta, mas não descarta a guerra de movimento em momentos decisivos de crise orgânica. O que está em jogo não é a negação da ruptura, mas a compreensão de que, sem a construção prévia de hegemonia, mesmo uma vitória no plano estatal tende a ser instável ou revertida. A estratégia revolucionária, portanto, articula diferentes formas de luta, combinando momentos de acumulação prolongada de forças com momentos de confronto aberto.

É a partir dessa chave que Gramsci formula o problema do nacional-popular. Seu ponto de partida é a constatação de que a Itália carregava uma herança histórico-nacional profundamente antipopular. Desde o Império Romano, passando pelo papel cosmopolita do clero e pelo caráter elitista do Renascimento, consolidou-se uma tradição intelectual desligada do povo, voltada para uma cultura erudita e internacionalizada. Essa tradição não é exclusiva da Itália, mas nela assume uma forma particularmente aguda, dificultando a construção de uma cultura nacional enraizada nas massas.

Aqui, é importante evitar uma contraposição excessivamente rígida entre o “caso italiano” e os demais países europeus. Gramsci reconhece que processos como a Reforma Protestante ou o Jacobinismo francês contribuíram para uma integração mais profunda entre intelectuais e povo em outros contextos, mas não idealiza esses processos como modelos perfeitos. Seu interesse não é estabelecer hierarquias civilizatórias, mas compreender por que, na Itália, a separação entre dirigentes e dirigidos se manteve de forma tão persistente, inclusive durante o Risorgimento.

A unificação italiana do século XIX é, para Gramsci, o exemplo histórico mais claro dessa limitação. O Risorgimento constituiu-se como uma revolução passiva, isto é, uma transformação conduzida pelas elites, que modernizou o Estado sem mobilizar politicamente as massas e sem enfrentar as estruturas sociais herdadas. A ausência de uma força jacobina capaz de radicalizar o processo, incorporar os camponeses e realizar reformas estruturais resultou em uma unificação formal, mas não em uma nação efetivamente popular. A Questão Meridional expressa essa fratura: o Sul foi integrado ao Estado italiano como periferia interna, sob hegemonia do Norte industrial.

Esse diagnóstico encontra ressonâncias evidentes no Brasil. Também aqui a formação do Estado nacional preservou as estruturas fundamentais da dominação colonial e escravista, produzindo uma sociedade marcada por desigualdades extremas e por uma classe trabalhadora profundamente heterogênea. Assim como na Itália, a ausência de uma tradição nacional-popular sólida dificultou a constituição de uma vontade coletiva capaz de articular as demandas populares em um projeto de transformação social.

O nacional-popular, em Gramsci, não designa uma essência cultural preexistente, nem um retorno a formas tradicionais de identidade nacional. Trata-se de uma tarefa política e histórica, inseparável da luta pela hegemonia. O problema central não é a inexistência da nação, mas o fato de que ela foi historicamente apropriada pelas classes dominantes, mantendo o povo à margem da vida política e cultural. Construir o nacional-popular significa, portanto, reapropriar a nação a partir das classes subalternas.

Essa tarefa passa necessariamente por uma reforma intelectual e moral, na qual os intelectuais desempenham papel decisivo. Gramsci insiste que toda classe que aspira à hegemonia precisa produzir seus próprios intelectuais orgânicos, capazes de elaborar, sistematizar e difundir uma concepção de mundo enraizada na experiência popular. Esses intelectuais não são apenas teóricos, mas organizadores, mediadores entre o senso comum das massas e a filosofia da práxis. Sua função não é substituir o povo, mas contribuir para a elevação crítica de sua consciência.

No mundo moderno, essa função não pode ser desempenhada de forma dispersa. A figura do Moderno Príncipe, isto é, o partido político, aparece como o instrumento capaz de sintetizar vontades fragmentadas e transformá-las em projeto coletivo. O partido, em Gramsci, não é apenas um aparato eleitoral ou institucional, mas um organismo pedagógico, formador, capaz de articular economia, política e cultura em uma estratégia de longo prazo. É nesse espaço que se opera a passagem do nível econômico-corporativo para o ético-político, condição indispensável da hegemonia.

Nesse ponto, o debate gramsciano conecta-se diretamente à história dos processos revolucionários. Em todas as grandes rupturas históricas, da Revolução Francesa à Revolução Russa, da Revolução Chinesa à Revolução Cubana, a questão nacional desempenhou papel central. Seja na luta contra a coroa absolutista, contra o czarismo, contra o imperialismo europeu ou contra a dominação direta dos Estados Unidos, a construção de uma identidade nacional-popular foi inseparável da constituição das classes subalternas como sujeito político.

Isso não significa reduzir a luta de classes ao nacionalismo, nem subordinar o socialismo à nação. Significa reconhecer que a passagem da classe “em si” à classe “para si” ocorre sempre em um terreno histórico concreto, atravessado por relações nacionais, culturais e simbólicas. A classe se constitui politicamente ao mesmo tempo em que disputa a nação. O nacional-popular, nesse sentido, não é um desvio da luta socialista, mas uma de suas mediações históricas fundamentais.

É essa articulação, entre classe, nação e hegemonia, que confere atualidade ao pensamento de Gramsci. Ao invés de opor internacionalismo e questão nacional, ele nos permite compreender como a luta pela transformação social se enraíza em formações históricas específicas, sem perder sua dimensão universal. Essa perspectiva será decisiva para, na próxima parte do artigo, analisar o caso brasileiro e as formas pelas quais a esquerda lidou, ou deixou de lidar, com o problema do nacional-popular em sua prática política recente.



Intelectuais orgânicos e o problema do nacional-popular no caso brasileiro

Para iniciar esse debate, trazemos a contribuição de Carlos Nelson Coutinho para o centro da reflexão sobre o nacional-popular no Brasil. Por ser pioneiro e organizar esse campo de discussão, Coutinho permite um passo decisivo no sentido de historicizar os limites estruturais da construção de uma vontade coletiva nacional no país. Em Cultura e sociedade no Brasil, ele demonstra que a modernização brasileira ocorreu majoritariamente por meio de uma via prussiana, isto é, através de transformações conduzidas “pelo alto”, baseadas em pactos entre frações dominantes, que preservam as estruturas fundamentais da dominação ao mesmo tempo em que incorporam elementos modernos da economia capitalista, do Estado e da cultura. O resultado não é a estagnação, mas uma modernização profundamente desigual, excludente e antipopular.

Essa dinâmica não pode ser compreendida apenas a partir da produção material ou da estrutura agrária, embora essas dimensões sejam decisivas. Ela precisa ser pensada também a partir do caráter financeiro da dependência brasileira, isto é, da forma como o país se integrou historicamente aos circuitos internacionais de capital, não apenas como exportador de mercadorias primárias, mas como espaço permanente de exportação de excedentes, rendas e valor. Desde o período colonial, passando pelo Império, pela República oligárquica, pela industrialização dependente e chegando ao capitalismo financeirizado contemporâneo, a economia brasileira funcionou como plataforma de valorização externa do capital.

Nesse processo, a burguesia nacional não aparece como sujeito autônomo de um projeto nacional, mas como fração consorciada, que retém parcelas do excedente produzido internamente enquanto aceita, e frequentemente organiza, a remessa estrutural de lucros, juros e rendas ao exterior. O centro decisório da acumulação não se localiza no país, e a burguesia brasileira se constitui como classe dominante subordinada, cuja racionalidade econômica está orientada pela associação ao capital internacional, seja ele comercial, industrial ou, cada vez mais, financeiro. Esse padrão aprofunda aquilo que Coutinho, em diálogo com Gramsci, identifica como modernização sem democratização e como bloqueio estrutural à formação de um nacional-popular.

Esse traço se articula diretamente com os três pilares históricos que estruturam a formação brasileira: a escravidão, o extrativismo e a centralidade agrária, hoje reconfigurada no agronegócio financeirizado. A escravidão não apenas moldou relações de trabalho; ela instituiu uma forma específica de Estado, de elite e de cultura política que naturaliza a desigualdade extrema, a violência e a desumanização. O extrativismo consolidou uma economia voltada para fora, dependente de ciclos de exportação e profundamente vulnerável às flutuações internacionais, reforçando a lógica de enclave e de saque ambiental e territorial. O agronegócio contemporâneo, por sua vez, longe de representar uma superação desse modelo, constitui sua atualização: altamente integrado ao capital financeiro global, dependente de crédito, tecnologia e mercados externos, ele reorganiza o território nacional segundo uma racionalidade antipopular, concentradora e ambientalmente destrutiva.

É nesse contexto que se compreende a fragilidade histórica da sociedade civil no Brasil, tal como analisada por Coutinho. A modernização “pelo alto”, associada à dependência externa e à exportação estrutural de excedentes, produziu uma esfera pública restrita, na qual o Estado aparece como mediador privilegiado dos interesses dominantes, e não como resultado da organização autônoma das classes subalternas. Isso tem efeitos diretos sobre a cultura e sobre a posição dos intelectuais.

Esse diagnóstico encontra forte ressonância no ensaio de Roberto Schwarz, Cultura e Política, 1964–1970, que analisa precisamente o destino do nacional-popular no campo cultural após o golpe empresarial-militar. Schwarz parte de um paradoxo: mesmo derrotada politicamente, a esquerda manteve, por alguns anos, uma relativa hegemonia cultural nos meios artísticos e universitários. Teatros, editoras e cinemas tornaram-se espaços de difusão de uma sensibilidade anticapitalista, em contraste radical com a consolidação autoritária do poder estatal.

Para Schwarz, no entanto, essa hegemonia cultural não expressava força política, mas isolamento social. O golpe rompeu os vínculos organizativos entre a intelectualidade de esquerda e as massas populares, convertendo o discurso nacional-popular em linguagem circulante sobretudo entre estudantes e setores da pequena burguesia urbana. A categoria de “povo”, central no populismo anterior a 1964, sobreviveu como idealização simbólica, mas já não correspondia a um sujeito político efetivamente organizado. O nacional-popular, esvaziado de base material, transforma-se em compensação moral e mercadológica para uma esquerda derrotada no plano da luta de classes.

Coutinho formula esse problema a partir do conceito de “intimismo à sombra do poder”. Em uma sociedade com mercado cultural limitado e instituições civis frágeis, o intelectual tende a depender do Estado, de favores e de mecanismos de cooptação para sobreviver material e simbolicamente. Essa dependência não exige adesão explícita ao poder: basta evitar as questões decisivas da vida social. Assim, produz-se uma cultura “ornamental”, voltada para a subjetividade, para a forma, para a distinção simbólica, que funciona como apologia indireta da ordem existente. A escravidão, o racismo estrutural, a dependência econômica e a violência de classe aparecem diluídos, naturalizados ou simplesmente silenciados.

Aqui é fundamental explicitar, com maior rigor, a distinção gramsciana entre intelectual e intelectual orgânico, que Coutinho mobiliza de maneira decisiva. Para Gramsci, todos os grupos sociais produzem intelectuais, mas nem todos os intelectuais cumprem a mesma função histórica. O intelectual tradicional tende a se perceber como autônomo, acima das classes, herdeiro de uma continuidade histórica (como o clero, o jurista, o acadêmico clássico). Já o intelectual orgânico é aquele que emerge de uma classe social fundamental e contribui ativamente para organizar sua visão de mundo, sua prática política e sua hegemonia.

No Brasil, a predominância histórica de intelectuais tradicionais e cosmopolitas, muitas vezes ligados ao Estado, às elites agrárias ou às frações urbanas dominantes, dificultou a constituição de um bloco intelectual orgânico das classes subalternas. Isso não significa ausência completa, mas descontinuidade, fragmentação e repressão recorrente dessas experiências. Ainda assim, Coutinho identifica uma linha alternativa, que ele denomina nacional-popular, formada por intelectuais que buscaram uma vinculação orgânica com os dilemas do povo brasileiro e com a luta por transformação social.

A reflexão sobre o nacional-popular no Brasil exige ampliar de forma consequente a noção gramsciana de intelectual orgânico, superando leituras restritas que a associam apenas à classe trabalhadora masculina, urbana e industrial. Na formação social brasileira, marcada pela escravidão, pela racialização do trabalho e pela centralidade do patriarcado, raça e gênero não são dimensões secundárias, mas elementos constitutivos da própria estrutura de classe. Nesse sentido, intelectuais como Lélia Gonzalez e Heleieth Saffioti ocupam lugar central não apenas por seus aportes temáticos, mas porque suas elaborações teóricas emergem de uma relação orgânica com lutas sociais concretas. Gonzalez, ao articular raça, classe e gênero, desvela o caráter profundamente racializado do capitalismo dependente brasileiro e critica tanto o nacionalismo abstrato quanto formas de marxismo incapazes de incorporar a experiência histórica da população negra. Saffioti, por sua vez, demonstra que o patriarcado não constitui um resíduo arcaico, mas um elemento funcional à reprodução do capitalismo periférico, elevando a compreensão crítica sobre o lugar das mulheres trabalhadoras na totalidade social. A essas autoras somam-se figuras como Nísia Floresta, em outro contexto histórico, e Beatriz Nascimento, cuja reflexão sobre quilombos, território e memória negra reinscreve a própria ideia de nação a partir das experiências das classes subalternas racializadas.

É justamente a partir dessa ampliação do conceito de intelectual orgânico que se torna possível compreender, em termos mais precisos, a linha nacional-popular identificada por Carlos Nelson Coutinho na cultura brasileira. O que define essa tradição não é um recorte temático específico, nem a idealização do “popular”, mas a capacidade de traduzir teoricamente as contradições reais da formação social brasileira e intervir nelas a partir de um ponto de vista enraizado nas classes subalternas. Ao valorizar autores como Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes, Coutinho indica a existência de um esforço persistente, embora historicamente bloqueado, de construção de uma cultura crítica capaz de articular interpretação e transformação. Nesse sentido, o nacional-popular aparece menos como uma tradição consolidada e mais como uma tendência interrompida, cuja fragilidade expressa os limites estruturais da modernização “pelo alto” no Brasil.

A leitura de Schwarz permite ainda qualificar o problema do nacional-popular no terreno das formas culturais. Ao analisar o Teatro de Arena, o Teatro Oficina e o Tropicalismo, ele mostra como diferentes respostas artísticas tentaram lidar com o colapso da estratégia populista. Enquanto o Arena buscava reativar a identificação nacional e a exaltação heroica do povo, produzindo uma espécie de autocelebração moral da esquerda, o Oficina rompe com a conciliação e passa a confrontar violentamente sua própria plateia, revelando a cumplicidade da pequena burguesia com a ordem social. Já o Tropicalismo, ao justapor arcaico e moderno, expõe alegoricamente a integração do atraso brasileiro ao capitalismo internacional, recusando a ideia de que a modernização levaria automaticamente à emancipação.

Em todas essas experiências, o que se evidencia é a crise de um nacional-popular fundado na conciliação de classes e na expectativa de uma burguesia progressista. A cultura capta, por vias estéticas, aquilo que a política não conseguiu resolver: a modernização conservadora não é um desvio, mas a forma própria de inserção do Brasil no capitalismo dependente. O nacional-popular, separado de um projeto de transformação estrutural, deixa de ser base de hegemonia e converte-se em linguagem crítica sem potência dirigente.

Reconhecer o papel das mulheres intelectuais orgânicas nesse processo não é um gesto suplementar, mas condição para compreender por que a hegemonia popular permaneceu incompleta e por que a constituição da classe “para si” no Brasil se deu de forma desigual, fragmentada e permanentemente tensionada pela questão nacional.

Retomando Coutinho, o que está em jogo não é a inexistência de uma cultura popular ou de experiências de resistência, mas a dificuldade histórica de convertê-las em hegemonia. A dependência financeira, a centralidade do agronegócio e a permanência de estruturas herdadas da escravidão bloquearam a constituição de um projeto nacional capaz de integrar as classes subalternas como sujeito político. Onde falta um nacional-popular enraizado, a nação tende a ser apropriada pelas elites ou devolvida sob a forma de nacionalismos conservadores, autoritários e excludentes, frequentemente mediados por dispositivos culturais que substituem a organização política por identidades simbólicas e afetos mobilizadores.

Por isso, o nacional-popular, tal como pensado por Gramsci e reelaborado por Coutinho, não pode ser confundido com retórica desenvolvimentista ou soberanista vazia. Ele exige enfrentar o núcleo duro da formação brasileira: a dependência financeira, a estrutura fundiária, o racismo estrutural, o patriarcado e a captura do Estado por frações dominantes associadas ao capital internacional. Sem isso, qualquer projeto nacional se reduz a administração da dependência.

Esse diagnóstico nos permitirá, na próxima parte do ensaio, examinar criticamente a experiência recente da esquerda brasileira, em especial a trajetória do PT, à luz do problema do nacional-popular: seus avanços parciais, suas conciliações estruturais e os limites de uma estratégia que, ao não enfrentar de forma sistemática essas determinações históricas, acabou reiterando elementos da revolução passiva que pretendia superar.

Administrar a dependência no projeto PTista

A trajetória do Partido dos Trabalhadores não pode ser compreendida apenas como um processo de adaptação pragmática às condições adversas da política institucional brasileira. Ela expressa uma inflexão estratégica profunda, que transformou um projeto inicialmente orientado à construção de hegemonia popular em uma experiência de gestão conciliada do Estado capitalista dependente e financeirizado. Ao longo desse percurso, a esquerda do PT produziu uma leitura distorcida de Gramsci, substituindo a centralidade da luta pela hegemonia por um excepcionalismo petista, fundado na crença de que a combinação entre ocupação institucional, estabilidade macroeconômica e políticas públicas compensatórias seria suficiente para promover transformações estruturais. Nessa chave, governar passou a significar administrar o regime político existente, e não reorganizar as relações de poder na sociedade.

Essa inflexão pode ser formulada de modo próximo ao diagnóstico de José Corrêa Leite, para quem os governos petistas, embora tenham ampliado o consumo popular e reduzido a pobreza extrema, não romperam com a lógica estrutural do neoliberalismo, mas contribuíram para consolidar uma sociabilidade neoliberal no país. A contradição central não reside na existência de políticas redistributivas, mas no fato de que elas foram implementadas sem disputa estrutural sobre o poder econômico, sem democratização radical do Estado e sem enfrentamento dos mecanismos de dependência financeira e primarização produtiva.

Nessa perspectiva, a opção estratégica do PT pela governabilidade pactuada dentro da Nova República, entendida como um regime oligárquico com forte poder de veto das elites agrárias e financeiras, significou abdicar de tensionar o sistema político e econômico em nome da estabilidade. A democracia passou a ser tratada como horizonte suficiente, e não como forma histórica limitada de dominação de classe. O resultado foi a despolitização progressiva da sociedade e a conversão da inclusão social em integração individual pelo consumo, sem fortalecimento de sujeitos coletivos capazes de sustentar um projeto de transformação.

Em sua origem, o PT formulou o projeto democrático-popular como uma estratégia que combinaria luta institucional e mobilização social permanente. A experiência sindical, as comunidades eclesiais de base e os movimentos populares urbanos e rurais apareciam não apenas como base eleitoral, mas como sujeitos ativos da transformação. Nesse momento, ainda estava presente, ao menos no discurso, a compreensão de que a democracia liberal não poderia ser simplesmente ocupada, mas tensionada e transformada a partir de baixo. Contudo, essa dimensão rapidamente se esvaziou. A mobilização social foi progressivamente substituída por uma lógica de representação e negociação, e os movimentos populares foram incorporados como correias de transmissão do governo, perdendo autonomia política, capacidade de pressão e função pedagógica na formação de uma consciência de classe.

Esse deslocamento é analisado com grande precisão por Ana Claudia Chaves Teixeira em seu estudo sobre as trajetórias do ideário participativo no Brasil. A autora demonstra que a noção de participação sofreu uma inflexão histórica importante: se nos anos 1970 e 1980 ela era concebida como processo de emancipação e construção de poder popular, e nos anos 1990 passou a ser entendida como deliberação e cogestão no interior do Estado, durante os governos petistas ela se consolidou predominantemente como escuta.

Nesse terceiro momento, houve ampliação expressiva dos canais institucionais, como conselhos e conferências, mas sem correspondente ampliação do poder decisório das classes subalternas. A sociedade civil passou a ser convocada a opinar, enquanto as decisões estratégicas sobre política econômica, infraestrutura e modelo de desenvolvimento permaneceram blindadas da participação popular. A institucionalização da participação, longe de fortalecer a capacidade de pressão dos movimentos, contribuiu para sua burocratização e para a internalização da lógica governamental em suas próprias práticas.

Esse deslocamento se articulou a uma ilusão persistente nas possibilidades de transformação da democracia liberal burguesa. Inicialmente, acreditou-se que o principal obstáculo era a chegada ao Executivo federal. A vitória eleitoral aparecia como ponto de inflexão histórico. Uma vez alcançada, o diagnóstico foi deslocado: o problema passou a ser o parlamento, o sistema político ou o chamado “presidencialismo de coalizão”. Em nenhum desses momentos se colocou em questão o próprio caráter de classe da democracia liberal. O regime foi tratado como campo neutro, e não como forma política específica de dominação burguesa, profundamente funcional à reprodução do capitalismo dependente.

Com isso, a participação social tende a ser reconfigurada como técnica de gestão e legitimação, e não como instrumento de disputa efetiva de poder. O Estado passou a ser concebido como instância relativamente autônoma, capaz de induzir desenvolvimento, inclusão e redistribuição por meio de políticas públicas, desde que ocupado por forças progressistas. Essa concepção ignora um princípio elementar da tradição marxista e gramsciana: o Estado não é um árbitro neutro nem um instrumento técnico disponível a qualquer projeto político, mas um aparelho das classes dominantes, cuja função central é garantir a reprodução das relações sociais existentes. Mesmo quando concede reformas, o faz para estabilizar a ordem, administrar conflitos e preservar os fundamentos da dominação.

A experiência petista confirma esse diagnóstico. Ao governar sem disputar hegemonia na sociedade civil, o PT tornou-se refém da própria máquina estatal e das correlações de força que a atravessam. As políticas de inclusão social, embora relevantes, foram implementadas sem alterar os fundamentos do poder econômico e político. Quando a crise se aprofundou e as classes dominantes romperam o pacto, o Estado revelou rapidamente seus limites: tribunais, parlamento, mídia e aparelhos repressivos operaram de forma coordenada para reordenar o poder, sem que houvesse uma base popular organizada capaz de resistir ou disputar o sentido da crise.

Esse processo foi profundamente condicionado pela relação estrutural do PT com o capital financeiro, frequentemente apresentada como concessão tática, mas que se converteu em um dos pilares centrais do seu arranjo de governabilidade. Desde o início dos governos Lula, manteve-se intacto o núcleo do regime macroeconômico herdado dos anos 1990, composto por metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante, garantindo a centralidade dos rentistas e a plena liberdade de circulação do capital financeiro. Essa opção subordinou o conjunto da política econômica às exigências da valorização financeira, transformando o Estado em garantidor da rentabilidade do capital financeiro por meio do pagamento sistemático da dívida pública, da remuneração elevada dos títulos e da estabilidade dos fluxos de capitais.

O capital financeiro, longe de ser um aliado circunstancial, constituiu o núcleo duro da governabilidade petista. Bancos, fundos e conglomerados financeiros não apenas foram preservados, como se fortaleceram, ampliando lucros, influência política e poder de veto sobre qualquer tentativa de mudança estrutural. Essa dinâmica aprofundou o caráter dependente do capitalismo brasileiro, intensificando a exportação de excedentes sob a forma de juros, dividendos e remessas financeiras, enquanto a burguesia interna se contentava com parcelas subordinadas desse processo. Em termos gramscianos, trata-se de uma renúncia explícita à disputa de hegemonia no plano econômico: ao aceitar a financeirização como eixo organizador do Estado, o PT abriu mão da construção de um projeto nacional-popular capaz de enfrentar o poder estrutural do capital financeiro.

Essa vulnerabilidade foi ainda mais agravada pela aliança estrutural com a burguesia agrária, sustentada pela crença na existência de uma burguesia nacional progressista. O caso do ruralismo e do agronegócio é particularmente elucidativo. Em nome do crescimento econômico, da estabilidade macroeconômica e da geração de superávits comerciais, o PT não apenas pactuou com o agronegócio, como o elevou à condição de pilar estratégico do modelo de desenvolvimento. Esse setor, historicamente associado à concentração fundiária, à violência no campo, à devastação ambiental e à expulsão de populações indígenas, camponesas e quilombolas, foi apresentado como expressão de modernidade e eficiência.

O ruralismo, porém, longe de representar uma fração “nacional” da burguesia, constitui uma das bases mais sólidas da dependência brasileira, profundamente integrada ao capital financeiro internacional e às cadeias globais de commodities. Ao fortalecê-lo, o PT contribuiu para aprofundar o padrão extrativista e exportador da economia, reforçando a reprimarização e bloqueando qualquer possibilidade de reforma agrária ou de reorganização democrática do território. Trata-se de um antiprojeto nacional-popular por excelência, que transforma a nação em plataforma de valorização do capital e o povo em variável de ajuste.

Essa trajetória foi sustentada, por fim, por uma forma implícita de etapismo. A ideia de que seria necessário primeiro consolidar a democracia, promover o crescimento e reduzir a pobreza para, em um momento posterior e indefinido, enfrentar as estruturas de dominação, funcionou como justificativa permanente para o adiamento dos conflitos centrais. Esse etapismo não foi formulado como teoria, mas operou como prática cotidiana: evitar o enfrentamento com o capital financeiro, com o agronegócio, com os meios de comunicação e com o sistema político em nome de uma estabilidade sempre provisória.

O resultado foi paradoxal. Ao renunciar à construção de uma vontade coletiva nacional-popular, o PT contribuiu para despolitizar amplos setores populares e para esvaziar o sentido emancipatório da própria democracia, convertendo cidadãos em consumidores. A classe trabalhadora foi tratada como beneficiária de políticas públicas, não como sujeito histórico capaz de dirigir a nação. Quando a crise política e econômica se aprofundou, essa base social mostrou-se incapaz de defender o projeto que a incluíra parcialmente.

Esse esvaziamento organizativo ajuda a compreender por que as Jornadas de Junho de 2013, embora expressassem demandas por direitos universais e crítica ao sistema político, não foram politicamente reapropriadas pelo governo nem convertidas em impulso de reformas estruturais. Preso às suas alianças conservadoras e à lógica da governabilidade, o PT mostrou-se incapaz de disputar a direção do conflito social, abrindo espaço para que a insatisfação fosse canalizada por discursos moralistas e antipolíticos.

Ao mesmo tempo, como observa Teixeira, a própria arquitetura participativa construída nos anos anteriores já não operava como instrumento de mobilização e confronto, mas como espaço consultivo. Quando a ofensiva das classes dominantes se intensificou em 2015 e 2016, inexistia um tecido organizativo capaz de sustentar uma defesa ativa do governo. A sociedade civil havia sido convertida em público convidado ao diálogo, não em sujeito coletivo com capacidade de imposição política.

Em síntese, a experiência da esquerda petista não fracassou por excesso de radicalismo, mas por sua renúncia estratégica ao conflito de classes e à construção da hegemonia. Ao transformar Gramsci em um teórico da governabilidade e não da ruptura, o PT abriu mão da luta de classes como eixo de sua ação. O balanço crítico dessa trajetória não é um exercício retrospectivo estéril, mas uma condição necessária para recolocar, no presente, a tarefa histórica que permanece em aberto: a construção de um projeto nacional-popular capaz de articular classe, território, raça e democracia em uma estratégia real de transformação da sociedade brasileira.

Fragmentação neoliberal e nacionalismo fascista

O esgotamento do projeto democrático-popular e a renúncia à construção de uma hegemonia nacional-popular não produziram apenas um ‘vazio’ político-organizativo, como se fosse um espaço neutro a ser ocupado. Ao converter a participação popular em escuta passiva e o cidadão militante em consumidor individualizado, a estratégia petista erodiu os ‘anticorpos’ coletivos da classe trabalhadora.

Desarmada de seus espaços de socialização política e destituída de uma narrativa de futuro, essa subjetividade atomizada tornou-se terreno fértil para a ofensiva ideológica seguinte. Não se tratou, portanto, apenas de um recuo, mas da entrega de uma classe trabalhadora fragmentada à nova maquinaria de hegemonia da direita. É nesse cenário de desagregação, ativamente produzido pela conciliação e aprofundado pela crise, que o neoliberalismo digital e o fascismo encontraram as condições ideais para operar a captura dos afetos e a reorganização reacionária da sociedade.

Logo, a crise contemporânea do nacionalismo não pode ser compreendida apenas como um fenômeno político imediato, tampouco como simples reação cultural ao avanço da extrema direita. Ela está enraizada em transformações profundas do capitalismo nas últimas décadas, particularmente sob a hegemonia neoliberal, que produziram não apenas uma reestruturação econômica, mas uma reconfiguração das formas de identidade, pertencimento e subjetivação. Para compreender esse processo, o diálogo com Stuart Hall é decisivo, não como ponto de chegada, mas como mediação crítica para pensar os limites e as possibilidades da luta política no presente.

Em A identidade cultural na pós-modernidade, Hall parte da constatação de que as identidades modernas que conferiam estabilidade ao mundo social, entre elas a identidade nacional, encontram-se em crise. A figura do sujeito unificado, portador de uma essência fixa, cede lugar a identidades fragmentadas, móveis e contraditórias. Hall reconstrói esse processo distinguindo três concepções de sujeito: o sujeito do Iluminismo, centrado e racional; o sujeito sociológico, constituído na interação entre indivíduo e estrutura social; e o sujeito pós-moderno, descentrado, atravessado por múltiplas posições identitárias. Essa transição não é meramente cultural, mas produto de transformações materiais profundas associadas à globalização, à financeirização e à reorganização do poder.

Um ponto central da reflexão de Hall é a crítica à ideia de identidade nacional como unidade natural e homogênea. As nações modernas são comunidades imaginadas, sustentadas por narrativas que produzem continuidade, tradição e pertencimento. Essas narrativas jamais foram neutras: funcionaram historicamente como mecanismos de unificação simbólica que ocultaram conflitos de classe, raça e gênero, impondo uma identidade nacional dominante como se fosse universal. O nacionalismo moderno, portanto, sempre foi uma construção política e cultural, e não um dado ontológico.

O neoliberalismo, contudo, não apenas desestabiliza essas narrativas: ele desorganiza ativamente os mecanismos de mediação coletiva. A compressão espaço-tempo, a financeirização, a circulação acelerada de mercadorias, capitais e imagens e a precarização generalizada do trabalho desancoram as identidades nacionais de seus referenciais materiais. O resultado não é a superação progressiva do nacionalismo, mas sua fragmentação em múltiplas identidades parciais, frequentemente desarticuladas entre si. Esse processo abre brechas importantes para o reconhecimento de sujeitos historicamente invisibilizados, mas também dificulta a construção de projetos coletivos de transformação.

No capitalismo contemporâneo, esse processo é profundamente mediado pelas plataformas digitais controladas por grandes conglomerados tecnológicos, que podem ser compreendidos, em termos gramscianos, como novos aparatos orgânicos de hegemonia da burguesia financeira. A internet e as redes sociais, longe de constituírem um espaço neutro de circulação livre de ideias, operam segundo algoritmos orientados por interesses econômicos, voltados à maximização de engajamento, tempo de permanência e extração de dados. Essas plataformas organizam a visibilidade, a circulação de discursos e a formação de opiniões segundo critérios privados, subordinados à lógica da valorização do capital, tornando-se hoje um dos principais dispositivos de produção de consenso, desinformação e disciplinamento social.

Nesse sentido, a hegemonia já não se constrói apenas por meio da escola, da imprensa tradicional ou dos partidos, mas também, e cada vez mais, por meio de infraestruturas digitais que articulam comunicação, consumo e vigilância. Trata-se de uma mutação importante das formas de dominação cultural, que reforça a capacidade do capital de intervir diretamente na constituição das subjetividades.

Hall insiste no caráter contraditório dessa dinâmica. A pluralização identitária pode ampliar horizontes democráticos, mas também pode ser capturada como forma de governamentalidade neoliberal, na medida em que a fragmentação das identidades sociais enfraquece a capacidade de organização coletiva e a construção de sujeitos políticos comuns. O neoliberalismo não apenas tolera a fragmentação: ele a produz como condição funcional à sua reprodução, pois uma classe trabalhadora dispersa, precarizada e concorrencial é menos capaz de se reconhecer como sujeito histórico.

Na periferia do capitalismo, esse processo assume contornos ainda mais violentos. Diferentemente dos países centrais, onde o Estado nacional foi capaz, ainda que de forma excludente, de produzir algum grau de integração social, nos países dependentes o nacionalismo sempre foi incompleto, frágil e atravessado por hierarquias coloniais. A crise da identidade nacional, nesses contextos, não se apresenta como simples pluralização cultural, mas como desagregação social profunda, marcada pela informalidade, pela precarização do trabalho, pela racialização da pobreza e pela violência estrutural.

No Brasil, a fragmentação identitária impulsionada pelo neoliberalismo se articula diretamente à herança da escravidão, do patriarcado e da dependência. Amplos setores da classe trabalhadora passam a se reconhecer prioritariamente por identidades parciais, sejam elas territoriais, religiosas, raciais ou ocupacionais, sem que essas identidades encontrem mediações políticas capazes de transformá-las em força coletiva. Esse processo não é apenas um efeito cultural difuso, mas um mecanismo ativo de dominação, que bloqueia a passagem da classe trabalhadora de classe “em si” a classe “para si”.

As plataformas digitais intensificam esse processo ao organizar a experiência social por meio de bolhas informacionais, comunidades afetivas fechadas e circuitos de reconhecimento fragmentados. O algoritmo não apenas reflete preferências existentes, mas produz ativamente segmentações, incentivando identidades reativas, ressentimentos e moralismos que substituem a análise estrutural por conflitos simbólicos imediatos. A experiência social torna-se cada vez mais mediada por circuitos privados de informação, nos quais a desinformação, o pânico moral e as narrativas conspiratórias circulam com enorme velocidade e capilaridade.

Esse ambiente é particularmente funcional à política fascista. A extrema direita consegue mobilizar o descontentamento social não contra as estruturas econômicas da exploração, mas contra inimigos fabricados e grupos vulneráveis, convertendo frustrações materiais em ódio cultural. O fascismo contemporâneo não se organiza apenas por partidos e lideranças, mas por ecossistemas digitais que operam de forma contínua, capilar e descentralizada, tornando-se parte estrutural da reprodução do autoritarismo no interior do neoliberalismo.

É nesse terreno de fragmentação social, insegurança material e esvaziamento das mediações políticas que emerge o fascismo contemporâneo. Longe de ser um simples retorno ao passado, o fascismo aparece como resposta autoritária à crise da hegemonia neoliberal. Ele oferece uma identidade aparentemente sólida e totalizante em um mundo marcado pela instabilidade e pela perda de referenciais comuns. Trata-se, contudo, de uma identidade fundamentalista, hierárquica e excludente, organizada pela negação do outro e pela naturalização da desigualdade.

No centro dessa construção fascista está a figura do sujeito dominante, historicamente o homem branco, heterossexual e proprietário, apresentado como portador legítimo da nação. No Brasil, esse processo assume feições específicas, profundamente patriarcais, misóginas e racistas. A extrema direita mobiliza ressentimentos sociais reais, mas os reorganiza em chave identitária regressiva, deslocando o conflito do plano das classes para o plano moral, cultural e racial. O inimigo deixa de ser o capital financeiro, o imperialismo ou o agronegócio e passa a ser o feminismo, os povos indígenas, a população negra, os migrantes ou a própria esquerda.

Esse movimento se apresenta como nacionalista, mas trata-se de um nacionalismo falso, desprovido de qualquer conteúdo de soberania. No caso brasileiro, o bolsonarismo é exemplar: sob retórica patriótica, promoveu uma política radicalmente entreguista, subordinando o país aos interesses do imperialismo, desmontando capacidades estatais, aprofundando a dependência econômica e abrindo o território à pilhagem ambiental. A “nação” evocada nesse discurso não é o povo nem o território, mas uma identidade abstrata, racializada e autoritária, plenamente funcional à dominação de classe.

Esse falso nacionalismo aponta para uma tese central do debate contemporâneo: neoliberalismo e fascismo, longe de se excluírem mutuamente, podem estabelecer relações de convergência em determinados contextos históricos. O neoliberalismo contribui para fragmentar e precarizar os vínculos sociais e políticos, enquanto o fascismo aparece como resposta autoritária a essa desagregação, prometendo ordem, pertencimento e hierarquia. Ambos, por caminhos distintos, tendem a dificultar a construção de uma identidade coletiva emancipatória e a se alimentar da crise das formas tradicionais de nacionalismo, sem oferecer uma alternativa efetivamente popular.

É precisamente nesse ponto que o nacional-popular reaparece como categoria estratégica. Diferentemente do nacionalismo burguês ou fascista, ele não busca homogeneizar nem apagar as diferenças, mas organizá-las politicamente. Parte do reconhecimento da heterogeneidade real da classe trabalhadora e afirma a necessidade de construir unidade na diferença, transformando identidades parciais em momentos de uma totalidade concreta. Trata-se de articular raça, gênero, território e trabalho em um projeto comum de emancipação.

Contudo, essa tarefa estratégica encontra hoje um obstáculo adicional: a concentração privada dos meios digitais de produção e circulação de ideias. Enquanto a formação de opiniões, identidades e afetos estiver estruturada majoritariamente por plataformas subordinadas à lógica da extração de dados e da rentabilidade financeira, a construção de uma vontade coletiva nacional-popular enfrentará limites materiais objetivos. A disputa de hegemonia exige, portanto, enfrentar não apenas o poder do capital financeiro e do agronegócio, mas também o controle privado das infraestruturas comunicacionais que organizam a experiência social contemporânea.

Debater o nacional-popular, portanto, não é um exercício nostálgico nem uma recusa da pluralidade contemporânea. É resgatar a ideia de soberania popular contra o nacionalismo identitário, racista e entreguista da extrema direita. É afirmar que a nação não pertence ao capital, nem à burguesia, nem ao patriarcado, mas às classes subalternas organizadas. É criar as condições políticas e culturais para que ribeirinhos do Amazonas, povos indígenas, camponeses do Sul, operários industriais, trabalhadores precarizados de aplicativos, mulheres, população negra e juventude periférica se reconheçam como parte de um mesmo sujeito histórico.

O nacional-popular reaparece, assim, não como identidade fixa, mas como processo político de unificação, indispensável à passagem da classe trabalhadora de classe “em si” a classe “para si”. Ele não nega as diferenças produzidas pela modernidade tardia, mas as reinscreve em uma estratégia coletiva de transformação. É essa possibilidade, e seus limites históricos, que será retomada na conclusão, ao pensarmos o nacional-popular como tarefa estratégica do presente e como condição para a construção de um projeto anticapitalista e socialista para o Brasil.

O nacional-popular como tarefa estratégica do presente

As reflexões desenvolvidas ao longo deste ensaio partem de um diagnóstico crítico, mas não conduzem ao pessimismo. Ao contrário, buscamos demonstrar que a crise atual, marcada pela intensificação do imperialismo, pela financeirização extrema do capitalismo, pela ofensiva da extrema direita e pela falência dos projetos de conciliação, abre também uma brecha histórica para a esquerda revolucionária. Essa brecha não se apresenta como retorno a fórmulas do passado nem como simples negação das experiências recentes, mas como possibilidade concreta de reorganizar a estratégia socialista a partir de uma categoria que permaneceu inacabada no Brasil: o nacional-popular.

O retorno do tema do anti-imperialismo ao centro do debate político contemporâneo não é casual. As guerras em curso, as sanções econômicas, a reorganização das cadeias globais de valor, a disputa por territórios, recursos naturais e rotas estratégicas recolocam a questão nacional de forma incontornável. No entanto, como buscamos demonstrar, a nação não é um terreno neutro. Ela pode ser apropriada pela direita, convertida em retórica vazia, entreguista e abstrata, funcional à dependência e ao autoritarismo; ou pode ser disputada pelas classes subalternas como forma histórica de unificação política, capaz de articular soberania, democracia e transformação social. É nesse segundo sentido que a categoria de nacional-popular mantém toda a sua atualidade.

Ao longo do texto, procuramos mostrar que nem a burguesia brasileira nem os projetos de conciliação foram capazes, ou sequer dispostos, a construir um projeto nacional efetivo. A dependência externa, a financeirização, o agronegócio e o extrativismo não são desvios, mas o núcleo duro da forma como o capitalismo se organiza no Brasil. Por isso, qualquer projeto nacional que não enfrente esses elementos está condenado a reproduzir a subordinação. O nacional-popular, tal como pensado por Gramsci e reelaborado criticamente na tradição marxista latino-americana, não é uma etapa intermediária nem um verniz ideológico: ele é o modo concreto pelo qual a luta de classes se inscreve no terreno nacional.

Essa constatação nos permite avançar para um ponto decisivo: a luta anti-imperialista, o combate ao fascismo e a construção de um projeto socialista não são tarefas separadas nem sucessivas. Elas se entrelaçam. O fascismo contemporâneo, longe de ser um fenômeno meramente cultural ou moral, emerge como resposta autoritária à crise do capitalismo dependente e financeirizado. Combater o fascismo exige enfrentar suas bases materiais, suas alianças com o capital financeiro, com o agronegócio, com o militarismo e com o imperialismo. E isso só pode ser feito a partir da organização consciente das classes subalternas como sujeito político nacional.

É nesse ponto que o nacional-popular revela sua potência estratégica. Ele não se confunde com homogeneização nem com apagamento das diferenças. Ao contrário, parte do reconhecimento da heterogeneidade estrutural da classe trabalhadora brasileira. Unificar os ribeirinhos do Amazonas, os povos indígenas, os camponeses do Rio Grande do Sul, os operários de São Paulo, os trabalhadores precarizados de aplicativos no Nordeste, as trabalhadoras domésticas, os jovens periféricos e a classe trabalhadora como um todo não significa negar suas especificidades, mas construir uma vontade coletiva capaz de transformar diversidade em força política comum. Essa unificação não é espontânea; ela é produto de organização, disputa ideológica, mediação política e construção de hegemonia.

Nesse processo de unificação, os debates sobre raça e gênero não podem ser compreendidos como pautas identitárias laterais, nem como ‘temas transversais’ que se somam mecanicamente à luta econômica. Ao contrário, é preciso levar às últimas consequências a lição das intelectuais orgânicas que radicalizaram a interpretação do Brasil: a classe trabalhadora possui cor e gênero, e a sua exploração se dá através dessas determinações.

Como demonstrou Heleieth Saffioti, o patriarcado não atua como um resíduo arcaico pré-capitalista, mas como uma engrenagem simbiótica e vital para a acumulação e a superexploração do trabalho na periferia do sistema. Da mesma forma, a construção de uma vontade coletiva nacional exige enfrentar o que Lélia Gonzalez diagnosticou como a ‘neurose cultural’ brasileira: a negação sistemática da nossa amefricanidade.

O verdadeiro nacional-popular, portanto, não pode ser um projeto ‘neutro’. Ele exige que a esquerda rompa com a supressão histórica da maioria negra e feminina e reconheça que não haverá soberania possível enquanto aquelas que constituem a base da pirâmide social e o corpo vivo da nação permanecerem alijadas do protagonismo dirigente. Assumir essas dimensões não é uma concessão ao fragmentarismo pós-moderno, mas a única via materialista rigorosa para que a classe trabalhadora se converta em totalidade concreta, superando a divisão imposta pela história colonial e perversamente atualizada pelo neoliberalismo.

O nacional-popular, nesse sentido, não é apenas uma categoria cultural ou discursiva. Ele implica uma reforma intelectual e moral, no sentido gramsciano: a elevação crítica do senso comum, a construção de novos intelectuais orgânicos, a reorganização da cultura, da linguagem, das formas de sociabilidade e das práticas políticas. Implica também a reconstrução de organizações capazes de articular luta institucional e mobilização social, sem subordinar uma à outra, e sem repetir a ilusão de que o Estado, por si só, possa ser o motor da transformação.

A experiência recente da esquerda brasileira demonstrou, de forma contundente, os limites de uma estratégia baseada na conciliação, na financeirização e na administração da dependência. O esgotamento desse ciclo não deve conduzir nem à nostalgia nem ao ceticismo, mas à reelaboração estratégica. A construção de um projeto nacional-popular exige romper com o etapismo, abandonar a crença em burguesias progressistas e enfrentar diretamente o poder do capital financeiro, do agronegócio e das estruturas que sustentam a dependência.

Nesse ponto, o debate sobre o ecossocialismo se torna central. A crise ambiental não é um problema externo ao capitalismo; ela é uma de suas expressões mais agudas. No Brasil, a destruição ambiental está diretamente ligada ao extrativismo, à expansão do agronegócio, à financeirização da terra e à violência contra povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Um projeto nacional-popular que ignore essa dimensão está condenado ao fracasso. Incorporar o ecossocialismo significa repensar a relação entre sociedade e natureza, redefinir o uso do território, reorganizar a produção e colocar a vida, humana e não humana, no centro do projeto político.

Nesse sentido, o ecossocialismo não deve ser compreendido apenas como resposta à crise ambiental, mas também como resposta estratégica ao fascismo contemporâneo. O autoritarismo de extrema direita se alimenta do colapso da ideia de progresso, da insegurança material, da degradação dos territórios e da percepção difusa de que o futuro foi cancelado. Diante de um horizonte marcado por catástrofes climáticas, crises alimentares e deslocamentos populacionais, o fascismo oferece ordem, hierarquia e violência como falsas promessas de proteção. O ecossocialismo, ao contrário, recoloca a possibilidade de futuro coletivo, articulando justiça social, reconstrução dos territórios e planejamento democrático da produção como alternativa real ao colapso civilizatório administrado pelo capitalismo.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a defesa da soberania formal, mas a construção de um novo projeto de país, anticapitalista e socialista, capaz de articular democracia radical, justiça social, igualdade racial e de gênero, e sustentabilidade ecológica. Esse projeto não nasce pronto, nem pode ser imposto de cima. Ele se constrói no conflito, na organização e na luta cotidiana das classes subalternas.

Esse horizonte estratégico torna-se ainda mais relevante diante da reconfiguração recente do imperialismo, marcada pelo uso crescente de políticas de força, sanções unilaterais e pela reafirmação de zonas de influência, especialmente na América Latina e no Sul Global. Como já ocorreu em outros momentos históricos, tentativas de impor uma ordem internacional baseada na força tendem a produzir efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que aprofundam a dependência econômica e política, também reativam sentimentos anti-imperialistas e impulsos nacional-populares. A imposição externa, ao desconsiderar sistematicamente as vozes, os interesses e as condições de vida das populações subordinadas, não apenas estabiliza hierarquias, mas pode igualmente criar as condições para a emergência de novos ciclos de contestação social e política, nos quais a questão nacional reaparece articulada a demandas de transformação estrutural.

Concluímos, assim, reafirmando que o nacional-popular não é uma herança a ser celebrada nem uma fórmula a ser aplicada, mas uma tarefa histórica em aberto. Em um contexto de crise orgânica do capitalismo brasileiro, a possibilidade de reconstruir a esquerda revolucionária passa pela capacidade de disputar o sentido da nação, de reorganizar a classe trabalhadora como sujeito político e de articular anti-imperialismo, antifascismo e socialismo em uma estratégia comum. Hoje, essa tarefa só pode ser formulada de modo consequente se articular soberania popular, transição ecossocialista, enfrentamento direto ao imperialismo e às novas formas de dominação digital e financeira. Se há uma lição central a extrair do percurso analisado neste ensaio, é que não há emancipação possível sem hegemonia, e não há hegemonia possível sem povo organizado, consciente e protagonista da construção de um país novo.

Referências bibliograficas

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas. 4. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Tradução de Carlos Nelson Coutinho et al. 6 v. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000–2002.

_________________. Cadernos do cárcere. Tradução de Carlos Nelson Coutinho et al. 5 v. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000–2002.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

LEITE, José Correa. O PT e a construção de uma sociedade neoliberal no Brasil. In: COLETIVO 660 (Org.). O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate. São Paulo: Elefante, 2018. p. 79-148.

MARIÁTEGUI, José Carlos. Ponto de vista anti-imperialista. In: LÖWY, Michael (org.). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Perseu Abramo, 2012.

SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 61-92. (Coleção Clássicos Latino-Americanos).

TEIXEIRA, Ana Claudia Chaves. Trajetórias do ideário participativo no Brasil. Caderno CRH, Salvador, v. 33, p. 1-15, 2020. Disponível em: http://dx.doi.org/10.9771/ccrh.v33i0.33834.

TROTSKY, Leon. A revolução permanente. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007.


TV Movimento

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo

Global Sumud Flotilla: Por que tentamos chegar a Gaza

Importante mensagem de três integrantes brasileiros da Global Sumud Flotilla! Mariana Conti é vereadora de Campinas, uma das maiores cidades do Brasil. Gabi Tolotti é presidente do PSOL no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e chefe de gabinete da deputada estadual Luciana Genro. E Nicolas Calabrese é professor de Educação Física e militante da Rede Emancipa. Estamos unindo esforços no mundo inteiro para abrir um corredor humanitário e furar o cerco a Gaza!

Contradições entre soberania nacional e arcabouço fiscal – Bianca Valoski no Programa 20 Minutos

A especialista em políticas públicas Bianca Valoski foi convidada por Breno Altman para discutir as profundas contradições entre a soberania nacional e o arcabouço fiscal. Confira!
Editorial
Israel Dutra | 03 fev 2026

A crise do Master exige respostas à esquerda

A crise do Banco master é um grande problema para o andar de cima e também uma oportunidade para a esquerda combativa agitar um programa antibanqueiros
A crise do Master exige respostas à esquerda
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores