Expurgos e crises do regime na China: Xi Jinping completa a destruição da Comissão Militar Central do PCCh

Expurgos e crises do regime na China: Xi Jinping completa a destruição da Comissão Militar Central do PCCh

A destituição do general Zhang Youxia é um passo a mais nos expurgos que estão acontecendo no Estado Maior do exército chinês

Pierre Rousset 12 fev 2026, 13:00

A destituição do general Zhang Youxia foi anunciada oficialmente em 24 de janeiro. Trata-se de um passo a mais nos expurgos que estão acontecendo no Estado Maior do exército chinês. No entanto, Zhang era considerado intocável dada sua suposta proximidade com Xi Jinping. No que diz respeito a Comissão Militar Central (CMC), agora é uma casca vazia, já que perdeu cinco dos sete membros. Xi segue esvaziando tudo ao seu redor, contra qualquer forma de colegialidade.

O único membro que fica na CMC, presidida por Xi Jinping, é Zhang Shengming, secretário da Comissão de Inspeção Disciplinaria do Exército e secretário adjunto da Comissão Central de Inspeção Disciplinaria do Partido, encarregado de levar a cabo as tarefas sujas [1].

A opacidade profunda do regime faz com que seja aleatório, ou impossível, saber porquê tal ou qual pessoa é objeto dos expurgos que se sucedem no aparato do partido, do Exército, da administração, da sociedade civil ou do mundo econômico, embora às vezes a razão pareça evidente: a vítima havia se tornado demasiadamente poderosa frente a um conglomerado, por exemplo, ou de um munícipio, ou havia se demonstrado crítica demais e era precisar dar o exemplo. Mas, se não é assim, como saber por que uma personalidade já não aparece em público, como se houvesse caído em um buraco negro, ou por que outra é denunciada por corrupção, ou incluso por traição? É o que está ocorrendo no momento contra os cinco memebro destituídos da Comissão Militar Central.

A acusação de corrupção é utilizado habitualmente por Xi Jinping para justificar a condenação de opositores [2], reais ou supostos, com o fim de ocultar outros assuntos. A corrupção é sem dúvida um problema grave. Por causa dela, às vezes saem armas defeituosas das fábricas de produção militar, terrível!. Infelizmente, não há apenas corruptos; a corrupção é endêmica. Está enraizada em um sistema de poder autocrático e de privilégios ao qual pertencem Xi Jinping, sua família e seus aliados. Embora Xi possa estar ciente de suas consequências prejudiciais, esse sistema é o seu, e não será tornando-o cada vez mais opaco e paranoico, cada vez menos colegiado, que ele acabará com ele.

Zhang Youxia era um militar ativo de mais alta patente. Xi Jinping e ele são conhecidos pela amizade de muito tempo, como príncipes vermelhos da segunda geração, um termo que designa aos descendentes dos líderes do Partido Comunista Chinês da época revolucionária. No entanto, sua linhagem familiar é diferente. O pai de Xi foi um alto dignatário da República Popular antes de ser expurgado por Mao Zedong em 1962 e logo reabilitado por Deng Xiaoping. Uma linhagem civil, portanto, para um homem do aparato. Ao contrário, Zhang Zhongxum, o pai de Zhang Youxia, foi um dos generais do Exército Popular na época da revolução. Uma linhagem prestigiada, sem dúvida, e possivelmente seja esse o problema, agora que o Estado Maior militar tem sido “sangrado” por sucessivos expurgos e Xi impõe sua liderança única (e vitalícia) no partido e no Governo (que ele marginaliza)

Não é a primeira vez que Xi Jinping ataca a membros do seu círculo mais próximo. É bastante lógica em um regime tão personalista. À medida que a situação interna se deteriora (e, com ela, a tua autoridade), a contestação a tua pessoa pode advir que centros de poder externos, mas também de membros dos órgãos centrais do partido. Ao fim e ao cabo, estão em uma boa posição para avaliar os erros de Xi e manobrar. Em muitas monarquias, é habitual assassinar preventivamente aos parentes de sangue azul, membros da realeza. No regime dinástico norte-coreano, Kim Jong-un não hesitou em fazê-lo.

Na China, um príncipe de sangue vermelho é um privilégio muito valioso, mas também pode supor um risco…

Os especialistas em Pequim se perguntam se estes expurgos são uma prova da força ou da debilidade de Xi Jinping. Por que não ambas as coisas? Tem o poder de levá-las a cabo, mas não para estabilizar seu controle ou acalmar sua paranoia. Sua ambição se choca com uma realidade: a China é grande demais (1,4 bilhão de habitantes), o partido é grande (mais de 100 milhões de membros declarados) e o exército (mais de 2 milhões de soldados ativos) é muito alheio ao seu entorno social como para impor ao país a ditadura de um só homem (no lugar da ditadura de um só partido). No entanto, toda política de Xi se baseia em expulsões. Ao decretar a primazia dos príncipes de sangue vermelho, exclui por associação ao poder da maioria dos quadros e das elites que não são filhos ou netos dos líderes centrais reconhecidos da revolução chinesa. Ao modificar a Constituição para outorgar para si o direito de governar por toda vida, deixa de associar a direção do partido aos representantes da geração política que deveria lhe suceder em vida, como era tradição. Ao converter o PCCh em uma mola mestra e única para assegurar seu controle sobre o país, a partir da capital até o povoado mais remoto, desvitaliza a estrutura governamental. Ao fazê-lo, rompe um equilíbrio que permitia a população dirigir-se a dois centros de autoridade e garantia assim uma certa flexibilidade ao sistema, mas que também podia dar pontos de apoio a grupos rivais dentro do partido.

Mao, Xi, a Revolução Cultural

Se diz que que os expurgos em curso são os mais importantes desde as vividas na China sob Mao na época da chamada Revolução Cultural. No entanto, para compreender a natureza dos expurgos na época de Xi, a analogia é mais válida pelas diferenças entre ambas as épocas do que pelas semelhanças (um regime autoritário de partido único…). Se Mao era o primeiro entre todos, o bureau político do PCCh estava composto por personalidades fortes cuja legitimidade se baseava no papel que haviam desempenhado nas lutas revolucionários que conduziram à histórica vitória de 1949. A força de Mao residia em ter se associado com eles, mas essa unidade acabou fissurada sob a pressão da crise econômica e tensões sociais. As lutas fracionais desembocaram em um chamamento à mobilização massiva para ajustar contas internas no partido, o que abriu uma verdadeira caixa de Pandora. Todas as contradições que existiam na sociedade chinesa dos anos 70 saíram à luz.

A história desse momento de crise histórica é muito complexa, cheia de sombras mortíferas (a condenação expedida de supostos burgueses contrarrevolucionários, um culto à personalidade desenfreado…) e de luzes (o questionamento por parte de amplos setores sociais a um regime burocratizado, a liberdade de movimento e iniciativa de uma juventude que percorria o país…). O choque foi tal que o partido se desintegrou. Mao havia feito o papel de aprendiz de feiticeiro. Finalmente, teve que recorrer ao Exército para reestabelecer a ordem, inclusive contra seus próprios guardas vermelhos e seus apoiadores na classe trabalhadora, o que supôs a morte política do maoísmo original. A Revolução Cultural foi a expressão superlativa de uma crise de regime. O esmagamento dos movimentos sociais resultou na culminação de uma contrarrevolução burocrática, encarnada pela chegada ao poder da Banda de los Cuatro [3]. A partir desse ponto de vista, é muito confuso estender o período da Revolução Cultural (1966-1969, uma crise importante e bem definida) até o ano de 1976 (queda da Banda de los Cuatro). Infelizmente, isso se faz habitualmente.

É evidente que, ao longo de sua larga história, o PCCh conhecue lutas fracionais mais ou menos opacas, desvios paranoicos ou expurgos discretos, mas se pode imaginar a Xi Jinping apelando à mobilização de massa para resolver os conflitos internos do regime?

A analogia entre os expurgos atuais e os conflitos fracionais dos anos 60 é ainda menos honesta, já que se inscrevem em contextos históricos radicalmente diferentes. A vitória de 1949 supôs uma dupla ruptura: com a dominação imperialista, garantindo a independência e a unidade do país, e com a ordem social existente (uma ruptura acelerada pela guerra da Coreia, que o regime maoísta não quis, mas pela qual pagou um preço muito alto). As antigas classes dominantes, urbanas e rurais, se desintegraram. A China atual é uma grande potência imperialista profundamente integrada com a ordem capitalista mundial, da qual é um dos principais atores. Ora, o contexto história é evidentemente essencial para compreender uma crise de regime: a de ontem do regime maoísta e a de hoje do regime instaurado por Xi Jinping.

Grande Salto Adiante internacional

Os traumas da Revolução Cultural e o reinado caricatural da Banda de los Cuatro desacreditaram o esquerdismo, criando as condições políticas prévias para a contrarrevolução burguesa. Um processo iniciado em grande medida por Deng Xiaoping e que culminou com a repressão massiva de 1989, que não se limitou a praça de Tiananmen e seus arredores (em Pequim) nem aos estudantes. Estendeu-se às províncias, a muitos âmbitos sociais, e destruiu durante muito tempo as organizações proletárias independentes. Quanto à reinserção da China na ordem internacional, ela foi levada a cabo em grande medida pelos predecessores de Xi Jinping, entre eles Jiang Zemin e Hu Jintao.

O essencial da transformação que permitiu a China dar seu Grande Salto Adiante mundial foi obra de outros, não de Xi Jinping. Ele foi eleito chefe do partido e do Estado em 2012, não porque era poderoso, senão porque representava um compromisso aceitável entre as principais frações presentes na direção do PCCh. Soube aproveitar sua posição. Assim, depois de sua reeleição em 2017, pôde ratificar as mudanças na Constituição que lhe permitem, entre outras coisas, permanecer no cargo todo tempo que desejar. Pode-se falar aqui de uma verdadeira mudança de regime político. Dito isso, embora Xi tenha se dotado de grandes poderes, sua legitimidade é débil. Não é um novo Mao, apesar do cuidar do culto à sua personalidade. No entanto, hoje em dia, a evolução da situação na China não lhe favorece, longe disso.

Crise social, crise do regime

Os profundos efeitos da crise imobiliária que começou há cinco anos seguem sentidos e vão muito além do endividamente dos municípios e da apatia do mercado. Na China é tradicional investir grande parte das economica na compra de uma moradia para fazer frente aos gastos da velhice e aposentadoria, já que os gastos sanitários são tremendamente elevados. Muitos famílias se arruínaram por terem investido em edíficios em construção, pelo financiamento em cidades cuja construção ficou inconclusa ou em residências cujo valor despencou.

Nas classes populares, os pais dependem de ajuda que recebem dos seus filhos, mas o país está envelhecendo demograficamente. O crescimento está em declive. Os signos da crises do regime são numerosos. A geração Z chinesa se nega a obedecer as ordens de Xi Jinping (trabalhar sem descanso, procriar sem demora…). As lutas sociais cobram um novo impulso.

O que permite a um regime autoritário ganhar o apoio ou a neutralidade da população, além do clientelismo, é a convicção de que a situação econômica das famílias vai melhorar. No entanto, os pais já não acreditam que seus filhos vão viver melhores do que eles. O sentimento de inseguraça social cresce, a corrupção alimenta numerosos escândalos (desabamento de prédios, incêndios, medicamentos e leite infantil contaminados, mortes evitáveis de crianças…) e os estragos da crise climática se deixam sentir cada vez com mais dureza. Essa mistura explosiva não é exclusiva da China. A escala internacional, alimenta uma guerra de classes preventiva e unilateral, de cima para baixo, que tem como objetivo destruir as antigas solidariedades populares e acabar com o nascimento de novas solidariedades nos tempos de policrise. As chamadas democracias ocidentais não são hoje em dias muito benevolentes com suas classes populares e com os movimentos de resistência (veja-se a criminalização das lutas ecológicas na França, quando enfrentam a urgência de todas as urgências)…

Xi Jinping faz um chamado à unidade em nome do patriotismo e da ameaça estadunidense, mas se trata do nacionalismo de uma grande potência, não de um antiimperialismo como na época da revolução chinesa. Poderia a guerra externa ser uma resposta de poder à crise interna? No momento, parece improvável. Não seria uma empreitada fácil. A cadeia de comando militar está desorganizada com expurgos permanentes. Está carcomida pela corrupção e não tem nenhuma experiência militar significativa. A invasão a Taiwan provavelmente não está na agenda, embora siga sendo uma ambição totalitária.

Uma guerra no estreito de Taiwan também colocaria em perigo os avanços políticos e diplomáticas que a China está obtendo atualmente no cenário internacional. Graças aos golpes desferidos por Washington a Aliança Atlântica, China se encontra em uma posição chave para representação de uma frente de rechaço que inclui países como a Índia, com a qual, no entanto, mantém importantes disputas. Sucedem as visitas de dirigentes de países membros do bloco ocidental, procedentes do Canadá, Finlândia, França, Grã Bretanha, Irlanda, Coreia do Sul… e amanhã Alemanha. Xi Jinping deve saborear este momento, mas Pequim não fará concessões. Diante das sucessivas crises de superprodução, a economia chinesa depende cada vez mais de seus mercados exteriores. Nota-se muito isso na África, sem dúvida, mas não só ali.

Publicado em Viento Sur


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