Petro denuncia tentativa de assassinato
Presidente colombiano alerta para ameaça da extrema direita e do narcotráfico; histórico de violência política e ofensiva contra sua agenda explicam riscos
Foto: RS/Fotos Públicas
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou na terça-feira (10) que escapou de uma tentativa de assassinato durante um voo de helicóptero, em meio à escalada de violência política no país e ao acirramento do conflito com grandes organizações do narcotráfico. O relato foi feito durante uma reunião do Conselho de Ministros, transmitida ao vivo, e reforça o clima de instabilidade às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para daqui a três meses.
“Tenho que confessar que vou me mudar em dois dias, estou fugindo da morte”, disse Petro.
Segundo o presidente, havia meses ele vinha sendo alertado sobre um plano de narcotraficantes para assassiná-lo. O episódio mais recente teria ocorrido quando o helicóptero presidencial não conseguiu pousar no local previsto.
“Eles não acenderam as luzes [do heliporto]. E também não pousei esta manhã, porque fiquei com medo de que atirassem no helicóptero, com meus filhos dentro”, relatou.
De acordo com Petro, a aeronave precisou sobrevoar o mar aberto por cerca de quatro horas.
“Então, voamos para o mar por quatro horas. Não cheguei onde deveria pousar, mas cheguei aqui”, afirmou.
O presidente disse ainda que vinha “escapando” nos últimos dias e que estava em estado permanente de alerta diante das ameaças.
As declarações ocorrem em um contexto de forte ofensiva contra o governo de esquerda. Petro é o primeiro presidente progressista da história colombiana e, desde que assumiu, tem enfrentado resistência de setores ligados às elites tradicionais, à extrema direita, a grupos paramilitares e a cartéis do narcotráfico — forças que, historicamente, atuaram de forma articulada no país.
Uma das principais motivações apontadas para as ameaças é o confronto direto com o Clã do Golfo, maior organização criminosa da Colômbia. O cartel suspendeu recentemente os diálogos de paz após Petro fechar um acordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para intensificar a perseguição ao seu líder, conhecido como “Chiquito Malo”. A região de Córdoba, onde o grupo atua com força, é marcada por assassinatos políticos e presença paramilitar.
Além disso, Petro tem promovido reformas estruturais que atingem interesses poderosos, como a tentativa de desmontar a política antidrogas baseada na militarização, a proposta de redistribuição de terras, mudanças no sistema de saúde e a reabertura de investigações sobre crimes cometidos durante o conflito armado. Analistas e organizações de direitos humanos apontam que essas agendas costumam provocar reações violentas na Colômbia, país que carrega uma longa história de extermínio de lideranças de esquerda.
A própria trajetória política do presidente é marcada por ameaças. Em 2024, Petro denunciou outra suposta tentativa de assassinato, que o impediu de comparecer a um desfile militar no Dia da Independência. Durante a campanha eleitoral de 2022, aparecia em atos públicos protegido por escudos blindados e forte esquema de segurança. À época, quando ainda era senador da oposição, afirmou que traficantes da região cafeeira planejavam matá-lo.
O episódio desta semana coincidiu ainda com o sequestro da senadora indígena Aida Quilcué, aliada próxima de Petro, no departamento de Cauca. Ela e seus guarda-costas foram libertados horas depois, mas o caso reforçou o alerta sobre a ofensiva de grupos armados contra figuras ligadas ao governo.
Petro afirmou que, além das ameaças físicas, há tentativas de desestabilização política. Segundo ele, os planos incluiriam ordens de captura e até uma conspiração para “destruir” sua recente reunião com o presidente dos Estados Unidos. “Organizações criminosas e adversários querem me destruir”, disse.
Com a Colômbia entrando em um novo ciclo eleitoral e a esquerda buscando manter o projeto iniciado em 2022, o presidente voltou a denunciar o que classifica como uma aliança histórica entre narcotráfico, paramilitarismo e setores do Estado. A sucessão de episódios, segundo observadores internacionais, evidencia que a violência política segue sendo um instrumento central para tentar barrar mudanças sociais profundas no país.