As condições de vida e de resistência no Líbano
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As condições de vida e de resistência no Líbano

Em entrevista publicada originalmente na Inprecor, o pesquisador Nicolas Dot-Pouillard aborda a atual situação do Líbano e as dificuldades para construir uma resistência anti-imperialista de esquerda

Foto: Soldados manejam as bandeiras do Líbano e do Hezbollah. (Brookings/Reprodução)

Via Viento Sur

Antoine Larrache: Qual é a magnitude dos ataques realizados pelas forças israelenses e americanas no Líbano?

Nicolas Dot-Pouillard: A magnitude dos ataques israelenses é maior do que na última guerra, no final de 2024: a destruição dos subúrbios do sul de Beirute e do sul do Líbano é colossal; a expulsão forçada de centenas de milhares de libaneses xiitas é sistemática, com um caráter marcante de guerra sectária por parte de Israel. Os israelenses tentam separar o sul do resto do país, em particular bombardeando as pontes, e cortar as vias de passagem do Hezbollah. Os assassinatos seletivos e os ataques – tão devastadores para a população – também afetam certas áreas que não são xiitas, em particular em Baabda, em uma zona cristã próxima ao palácio presidencial, ou em Bourj Hammoud, um bairro armênio. Os campos de refugiados palestinos também são um alvo habitual dos israelenses, sabendo-se que as facções palestinas participaram da última guerra de 2024 no Líbano, ao lado do Hezbollah. Tudo isso representa uma ameaça para o governo libanês e para toda a sociedade libanesa, o que significa que, em termos gerais, ninguém está a salvo e que é todo o Líbano que pagará o preço dessa guerra, não apenas a comunidade xiita, embora ela seja o alvo principal.

O objetivo político de Israel é isolar o Hezbollah de sua base social, dispersar essa base social por todo o território libanês e transformá-la em uma categoria de refugiados, para assim avivar as tensões internas libanesas. Ao atacar zonas cristãs ou sunitas onde se encontram deslocados xiitas, eles colocam as comunidades umas contra as outras. As pessoas temem acolher deslocados em suas cidades. Trata-se, portanto, de uma estratégia de divisão de toda a sociedade libanesa.

Esta guerra também tem um limiar de violência mais alto, já que é uma guerra regional: os israelenses já vêm falando há quase dois anos de uma guerra em sete frentes: Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Irã. Essas frentes têm estado relativamente separadas nos últimos anos: quando ocorreu a guerra dos doze dias contra o Irã – a primeira guerra entre Israel e os Estados Unidos –, o Líbano não participou diretamente. Quando a guerra foi travada no Líbano, de setembro a novembro de 2024, não houve nenhum ataque contra o Irã, embora os iranianos tenham realizado disparos de apoio ao Hezbollah naquela época.

Mas nem todas as frentes estavam unificadas. Hoje, essas sete frentes começam a se unificar. É o efeito posterior a 7 de outubro de 2023: um aumento progressivo da unificação das frentes, que hoje tendem a convergir para uma guerra sem limites, do Golfo ao Mediterrâneo. A lógica da unificação das frentes, no entanto, não é apenas uma teoria israelense, mas também tem uma realidade anterior: essa ideia de unificação das frentes existe desde 2021 por parte do que se denomina o eixo da resistência, constituído pelo Hezbollah, pelo Irã, por seus parceiros houthis iemenitas, pelos movimentos xiitas armados iraquianos e por praticamente todas as facções palestinas – que não são xiitas.

A partir da revolta de 2021, o conjunto das forças desse eixo da resistência havia teorizado o princípio de wahdat al sahat (a unidade das frentes). Essa teoria considerava que qualquer ataque contra um dos elementos desse eixo deveria provocar uma resposta em outra frente, por parte de outro ator do eixo da resistência. A aplicação desse princípio ocorreu de forma relativa, mas não por isso menos real, após 7 de outubro de 2023, pois foi então que o Hezbollah decidiu lançar o que se denomina Jabhat al-Isnad (uma frente de apoio) na Faixa de Gaza. Naquele momento, concebia essa frente de apoio não como uma guerra totalmente aberta contra Israel, mas como um meio de pressão sobre Israel e sobre os Estados Unidos para atenuar a pressão militar israelense sobre Gaza. Essa frente de apoio aberta pelo Hezbollah a partir da manhã de 8 de outubro de 2023 traduziu-se, pouco a pouco, na eclosão de uma guerra.

Embora o Hezbollah tenha tomado a iniciativa durante um ano, Israel também começou a assumir a iniciativa e acelerou os acontecimentos a partir de julho de 2024 até o início da guerra entre setembro e novembro. Então, cometeu uma série de assassinatos, não apenas a famosa operação dos localizadores, mas também a decapitação progressiva de todo o comando do Hezbollah. Agora, essa lógica de unificação de frentes se aplica ao mundo inteiro: Israel e os Estados Unidos travam uma guerra contra o Irã, as frentes se ampliaram para o Golfo, o Iraque e o Líbano, com o Iêmen à espera.

Por outro lado, o Irã já não tem linhas vermelhas e está aprendendo a lição do ciclo de negociações/sanções/bombardeios imposto pelos Estados Unidos há vários meses. Eles querem mudar a equação. Nesse sentido, já não é impossível que, em caso de negociações, o Irã coloque a questão libanesa na balança e busque um acordo global e regional. É o que indicam as últimas intervenções de seu Líder Supremo e de seu ministro das Relações Exteriores. De qualquer forma, o Irã já não quer voltar ao status quo anterior. E, diante de tudo isso, mantém-se firme militarmente e sabe mobilizar uma combinação de nacionalismo iraniano – não especificamente islâmico – com a dinâmica profundamente messiânica do xiismo, dois combustíveis fundamentais para resistir na guerra.

O mesmo ocorreu durante a guerra entre o Irã e o Iraque na década de 1980, que, após as crises internas posteriores a 1979, voltou a consolidar o país. Como resultado, até mesmo os Estados Unidos começam a duvidar da possibilidade de uma mudança de regime. É provável que os israelenses tentem agora uma invasão do sul do Líbano. O limite para eles situa-se no plano puramente militar. Na última guerra de 2024, o Hezbollah sofreu um golpe, no sentido de que sua liderança havia sido decapitada e seu carismático líder, Hassan Nasrallah, havia sido assassinado. Mas no terreno, no sul do Líbano, verificou-se que seus combatentes haviam, em certa medida, salvado o partido e que a incursão israelense foi, no entanto, bastante limitada, já que não conseguiu avançar mais do que 4 ou 5 km dentro das fronteiras do Líbano. Não houve invasão do sul do Líbano e travaram-se várias batalhas renhidas, especialmente em Khiam, no sudeste do Líbano — não muito longe, aliás, da Síria e das Colinas do Golã —, onde os israelenses entraram em três ocasiões e tiveram que se retirar.

O Hezbollah, segundo certos indicadores, parece ter se reorganizado, em parte, desde a última guerra. Se não se reorganizou, a guerra será curta e ele será esmagado. Se se reorganizou, a guerra será necessariamente mais longa. Os indícios apontam, por enquanto, para que sua liderança, ao contrário da guerra de 2024, não tenha sido decapitada. Quando a guerra começou na noite de domingo, 1º de março, os israelenses realizaram uma série de ataques muito precisos nos subúrbios do sul, o que levou a crer, nas primeiras horas, que toda a liderança havia sido decapitada, mas não foi o caso. Circulava o boato de que o chefe do bloco parlamentar, Mohamed Raad, havia sido assassinado. Mas ele falou na tarde seguinte. Circulava o boato de que o secretário-geral do partido, Naïm Qassem, havia sido assassinado. Acabou sendo falso. Este é um primeiro indicador: sua liderança não foi decapitada, está oculta. O segundo indicador é que, apesar da política de desarmamento no sul do Líbano, ao sul do rio Litani, levada a cabo pelo exército libanês, pelo governo e pelas forças internacionais da FINUL1, parece que o Hezbollah, de fato, continua a ter presença militar, já que atualmente estão ocorrendo combates, especialmente na aldeia de Khiam, em Naqqoura e em Taybeh. Combates nos quais as tropas israelenses e o Hezbollah se enfrentam na zona de fronteira há três semanas, e um pouco mais para o interior do Líbano.

O período de cessar-fogo não foi um verdadeiro cessar-fogo, já que o Líbano era bombardeado diariamente no sul e no leste, na Bekaa. Os sobrevoos da aviação israelense e dos drones israelenses sobre Beirute eram contínuos. E, por fim, é preciso saber que Israel ocupou cinco pontos no sul do Líbano, dos quais o exército normalmente deveria ter se retirado ao término do cessar-fogo após 60 dias, o que não fez. Portanto, a situação anterior à guerra atual era a de uma guerra provável. Para a população do sul do Líbano, a guerra nunca realmente cessou desde o cessar-fogo de 2024.

Na sua opinião, qual é o objetivo dos Estados Unidos e de Israel?

A visão histórica global dos israelenses sobre o Líbano baseia-se, na minha opinião, em três elementos centrais. O primeiro elemento é que, historicamente, a extrema direita religiosa reivindicou o sul do Líbano como terra bíblica. Mas esse não é necessariamente o aspecto mais importante, pelo menos entre os militares e os políticos.

O aspecto que desempenha um papel central e histórico é a questão da água e a questão das alturas estratégicas: o sul do Líbano é um território montanhoso que também faz fronteira com as Colinas do Golã sírias. Já em 1948, quando Israel foi criado, as forças do futuro Estado israelense atacaram 15 aldeias no sul do Líbano. Naquela época, ocorreu um massacre de civis libaneses na aldeia de Houla — uma aldeia bastante conhecida por sua presença comunista histórica, que se mantém até hoje. A história das reivindicações e ambições israelenses sobre o Líbano é uma história antiga.

O terceiro aspecto é que o sul do Líbano está historicamente ligado à Palestina, por meio do comércio, dos intercâmbios, dos casamentos… Sob o Império Otomano, não havia fronteiras entre o sul do Líbano e a Palestina histórica. Durante o período do Mandato Britânico da Palestina, nas décadas de 1920 e 1930, era uma região onde ainda havia muita circulação. Durante a grande revolta árabe palestina de 1936, os britânicos expulsaram muitos militantes palestinos para o Líbano. Em 1948, grupos libaneses também participaram da luta ao lado dos palestinos contra as tropas do futuro Estado de Israel. Portanto, houve uma interação histórica entre o Líbano e a Palestina.

Essa interação histórica será especialmente intensa entre os anos 1960 e 1980, já que os movimentos de resistência palestinos, como a Fatah, a FPLP, a Frente Democrática e outros, presentes no sul do Líbano nos campos de refugiados palestinos, se aliarão às organizações da esquerda libanesa. Mas essa história não se resume à história da esquerda libanesa. O imã Moussa Sadr – uma personalidade carismática e teólogo xiita, libanês, mas nascido no Irã, na cidade de Qom – criará na década de 1970 um movimento xiita, o Movimento dos Deserdados, cujo braço armado é o Amal (acrônimo de Afwaj al-Muqawama al-Lubnaniya, Destacamentos da Resistência Libanesa). O movimento Amal formou-se militarmente nos campos de refugiados palestinos. Conta a lenda que a palavra Amal, que significa esperança, foi cunhada naquela época por Yasser Arafat. Esse partido continua existindo até hoje, com o papel central do presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri.

Nos anos de 1979, fala-se da aliança entre os deserdados de sua terra e os deserdados em sua terra, sendo os deserdados de sua terra os palestinos e os deserdados em sua terra a comunidade xiita, que era uma das comunidades mais marginalizadas social, econômica e politicamente no Líbano.

A própria fundação do Hezbollah, no início da década de 1980, esteve intimamente ligada não apenas à experiência da revolução iraniana, ao Iraque e a um xiismo transnacional, mas também à experiência palestina, já que vários oficiais do Hezbollah, na verdade, haviam sido anteriormente membros de organizações palestinas, principalmente a Fatah, de Yasser Arafat.

É preciso saber que havia muitos combatentes libaneses nas organizações palestinas, e alguns deles foram encontrados mais tarde nas fileiras do Hezbollah. Tudo isso para dizer que a trajetória histórica do sul do Líbano sempre esteve ligada à da antiga Palestina sob mandato. Existe uma interação histórica que não se nega até hoje.

Agora enfrentamos três grandes conflitos relacionados ao Líbano que levarão tempo para se desenvolver e ser resolvidos. O primeiro é o caráter regional do conflito: o conflito atual não é apenas um conflito em solo libanês, mas se desenvolve no Irã, no Iraque e no Golfo. As frentes estão interligadas como, sem dúvida, nunca estiveram desde a guerra de 1967 e, além disso, o campo de confronto é hoje muito mais amplo. A segunda questão conflituosa é a da pura relação de forças militares entre o Hezbollah e os israelenses, baseada em uma guerra assimétrica e uma guerra de desgaste. E a terceira questão são as contradições internas libanesas após esta guerra, que podem prenunciar grandes tensões no país.

A atual estratégia israelense já não é necessariamente uma estratégia baseada na normalização. A normalização com os países árabes continua sendo uma prioridade para eles, mas não tanto quanto era nos acordos de Abraão com Donald Trump. Acredito que a prioridade atual para os israelenses é estabelecer uma espécie de desarmamento geral de todos os países fronteiriços. O que eles exigem do Líbano é, muito claramente, uma zona desmilitarizada com um Exército libanês enfraquecido ao sul do Litani. Exigem o mesmo da Síria, que é um Estado particularmente enfraquecido. Não se deve esquecer que, após a queda de Bashar al-Assad, os israelenses bombardearam massivamente todas as posições do que restava do Exército sírio para aniquilá-lo. Hoje, eles estão no nível de capacidades que tinham no final da década de 1940. Têm as mesmas exigências no Sinai egípcio, já que nos últimos dois anos pediram aos egípcios que o desmilitarizassem. O Sinai é egípcio, faz parte da soberania egípcia, mas eles exigem uma desmilitarização total. Portanto, acredito que a prioridade dos israelenses, e isso se encaixa perfeitamente no contexto desta guerra, é a desmilitarização dos países vizinhos, o que para eles é mais importante do que a questão da normalização das relações entre os Estados árabes e Israel. Isso não significa que a normalização não seja importante. É a cereja do bolo, mas a prioridade para eles é a desmilitarização.

No que diz respeito ao Líbano, eles podem aceitar, no máximo, um Exército libanês que seja uma espécie de força policial interna, destinada a desarmar o Hezbollah ou a controlar os campos de refugiados palestinos. Em hipótese alguma aceitarão um Exército de defesa nacional. Aliás, essa é uma visão compartilhada pelos americanos e europeus: um Exército libanês que não seja um exército de defesa nacional, mas um exército voltado para o interior, uma polícia, em suma.

O governo libanês parece atacar cada vez mais o Hezbollah; qual é a dinâmica atual das relações entre eles?

A política do governo libanês tende, na verdade, a ceder às exigências americanas. O governo libanês cede por uma razão óbvia: quer preservar as infraestruturas civis, entre elas o aeroporto de Beirute, o porto e o conjunto de estradas e eixos viários que permitem garantir a continuidade entre o norte e o sul do país. Os israelenses ameaçam com um bloqueio total e, diante disso, de fato, o governo de Nawaf Salam e a presidência de Joseph Aoun consideram que é preciso oferecer uma série de garantias. E entre as garantias oferecidas está a proibição oficial do braço militar do Hezbollah no Líbano, o que é uma novidade desde o início da década de 1990. Por enquanto, isso não tem muitas consequências, mas provavelmente terá no final da guerra, já que então é de se esperar uma verdadeira polarização política no país entre os defensores do armamento do Hezbollah, cujo braço militar será proibido, e aqueles que defendem seu desarmamento. Portanto, a crise política interna libanesa e o agravamento das tensões internas são muito prováveis.

A segunda pressão israelense e norte-americana é a faca colocada no pescoço do Exército libanês – que já é financiado em grande parte pelos Estados Unidos –, especialmente no que diz respeito aos salários e ao armamento. A pressão dos Estados Unidos e de Israel chega hoje praticamente a exigir a renúncia do atual chefe do Exército, Heikal, cuja posição é que o Hezbollah deve ser desarmado, mas que não se deve entrar em um conflito civil no Líbano e que isso deve ser fruto de um diálogo político, e não de uma relação de forças militares internas no país.

Quais são as possibilidades de construir uma resistência popular de esquerda no Líbano, os pontos de apoio nesse sentido?

Esta questão requer, em primeiro lugar, uma observação sobre o estado das relações de força políticas no Líbano, em comparação com os anos de 1960 a 1980. Houve uma experiência muito rica e ampla da esquerda libanesa, excepcional inclusive no sentido de que o Líbano foi o terreno onde surgiu o que naquela época se denominava as novas esquerdas árabes. Essas forças existiram na Tunísia com O Trabalhador da Tunísia, em Marrocos com Ilal Amam (Adiante). No Líbano, concretizaram-se, em particular, em formações como a Organização de Ação Comunista no Líbano (OACL) ou o Partido de Ação Socialista Árabe (PASA), que respondiam a uma radicalização para a esquerda do nacionalismo árabe. Foi isso também que deu origem à experiência do Partido Comunista Libanês. Pois no Líbano, a velha esquerda do Partido Comunista Libanês é também um elemento da nova esquerda, a partir de seu segundo congresso, em 1968. A renovação intelectual da esquerda libanesa também passou pelo PCL, com filósofos como Mahdi Amel – de quem se diz que se inspirou em Althusser, o que é parcialmente verdade – ou Hussein Mroueh, que tentou uma leitura marxista do islamismo, sendo ele próprio um ex-seminarista do santuário xiita de Najaf, no Iraque. O Partido Comunista Libanês desempenhou um papel real, inclusive intelectual, na renovação do pensamento marxista da época. Realizou uma crítica às posições soviéticas, em particular sobre a questão palestina, em relação ao plano de partilha de 1947, mas também sobre a política soviética, por exemplo, na Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga.

Entre os anos de 1960 e 1980, essa esquerda libanesa também foi impulsionada pela dinâmica e pelo ímpeto da revolução palestina no Líbano. Após a retirada palestina do Líbano em 19822, a esquerda libanesa, o Partido Comunista, a Organização de Ação Comunista no Líbano e outras formações como o Partido de Ação Socialista Árabe situaram-se no centro da resistência a Israel no sul do Líbano, em particular com a fundação do que é conhecido como o Jamoul (Frente de Resistência Nacional Libanesa). Mas toda essa esquerda libanesa seria afetada pela queda do bloco de Leste e pela virada chinesa na década de 19803.

Isso teve repercussões financeiras e militares no contexto da guerra civil e da resistência a Israel no sul do Líbano. O apoio militar e financeiro era fundamental: quando esse apoio desapareceu, o poder político também desapareceu com ele. E, em seguida, o Irã e o Hezbollah se apropriaram do capital anti-imperialista da esquerda, inclusive desviando e integrando seus militantes.

Portanto, hoje em dia, a esquerda libanesa encontra-se muito enfraquecida e também se viu dividida por uma série de questões. A questão síria a dividiu na década de 2010, já que alguns militantes de esquerda davam prioridade à defesa do Hezbollah e do eixo da resistência contra os Estados Unidos e Israel, enquanto outros se colocavam do lado da revolução síria. A questão do Irã também a dividiu. Assim, ela se dividiu em torno de questões estratégicas, como as revoluções árabes, a relação com o Ocidente, a organização da política, etc.

A questão do renascimento de uma resistência de esquerda no Líbano, colocada dessa forma, é, na minha opinião, bastante abstrata: porque quem fala de resistência também deve pensar na questão dos meios de comunicação, da base popular interna e do apoio externo necessário, coisas das quais a esquerda libanesa, ao contrário dos anos 70, carece, devido à mudança nas relações de força mundiais desde a queda do Muro.

Existem, digamos, três posições de esquerda no Líbano nesse contexto: a primeira articula-se em torno de um dos principais jornais do país, o jornal al-Akhbar (As Notícias), que defende a ideia de que é preciso apoiar o “eixo da resistência” a todo custo, na medida em que o que está em jogo é uma batalha existencial – no sentido literal – pelo futuro desta região. Desde seu retorno ao Líbano, Georges Ibrahim Abdallah posicionou-se sem ambiguidades nessa linha. A segunda posição se expressa no Partido Comunista Libanês ou na Organização Popular Nasserista do deputado Oussama Saad em Saida: é preciso reconstruir uma resistência popular não confessional além do Hezbollah; mas isso nos leva novamente à questão da base popular, dos meios de comunicação e do apoio, questão por enquanto insolúvel. Uma terceira esquerda reduz o nome de esquerda a uma defesa mínima dos direitos humanos e da democracia, mas de forma bastante despolitizada: é a vertente da sociedade civil e das ONGs da esquerda, representada por alguns deputados denominados da sociedade civil no Parlamento libanês desde 2022.

No entanto, hoje em dia existe no Líbano uma corrente de esquerda, anti-imperialista, contrária à ocupação e que tem efeitos concretos no terreno, limitados, mas não por isso menos reais. Ela tenta construir algo, em particular o que poderíamos chamar de uma forma de resistência civil. Por exemplo, durante o período de cessar-fogo que se seguiu à guerra de 2024, nos comitês de moradores e moradoras pelo direito de retornar às suas aldeias na zona de fronteira. Algumas dessas militantes de esquerda, aliás, foram ameaçadas diretamente pelos israelenses por telefone. Hoje em dia, há uma mobilização social e humanitária do Partido Comunista Libanês e do Secours Populaire, afiliado a ele e que administra, por exemplo, o hospital da cidade de Nabatieh. Os ativistas e os trabalhadores atuam em condições especialmente difíceis, já que a cidade de Nabatieh está sujeita a fogo e bombardeios contínuos.

Quais são as tarefas dos anti-imperialistas a esse respeito?

Acho que no Líbano e em toda a região ocorreu algo bastante interessante quando aconteceu o sequestro de Maduro. No Líbano, isso foi visto como um acontecimento extremamente preocupante, no sentido de que afetava diretamente as pessoas: não de forma simbólica, mas como uma ameaça concreta: na região, nós somos os próximos. No Líbano, existe uma grande consciência — não apenas entre os grandes anti-imperialistas históricos, mas inclusive entre as elites — de uma espécie de imperialismo em estado puro, de um imperialismo norte-americano sem paralelo na história em termos de mobilização militar intercontinental. Nem a China nem a Rússia, por exemplo, podem se comparar em termos de mobilização militar intercontinental: os Estados Unidos contam com mais de 250 mil pessoas mobilizadas em todos os continentes, em cerca de 80 países, com bases militares gigantescas. A China, em comparação, possui uma base militar em Djibuti com menos de 2 mil pessoas. O discurso de Donald Trump é um discurso que se afastou completamente das justificativas teóricas sobre a democracia, sobre a exportação da democracia, e que já nem mesmo se interessa pelo soft power. É um imperialismo desinibido, muito mais do que sob Bush filho. A grande questão contemporânea para os movimentos contra a guerra na Europa Ocidental, nos Estados Unidos ou na Austrália é como articular seus movimentos contra a guerra com os movimentos anticoloniais no Sul global. Essas interações continuam sendo muito difíceis. A frota para Gaza que partiu da Tunísia tentava dar algumas respostas iniciais. Em torno de Gaza, perfilou-se um novo internacionalismo pós-10 de outubro.

Ao mesmo tempo, já não existem espaços como os da década de 2000, com a dinâmica dos Fóruns Sociais Mundiais no Brasil ou na Índia, para reunir e debater temas controversos entre ativistas do Norte e do Sul: deve-se equiparar o imperialismo norte-americano ao da Rússia e da China, ou existe hoje uma forma de superimperialismo norte-americano desinibido sem paralelo na história? Como abordar a questão dos movimentos anticoloniais com dimensão religiosa? São questões que dividem, mas já não há espaços de encontro para debatê-las com serenidade.

Uma das dificuldades é que, no Sul, existe uma grande consciência de que o Ocidente continua sendo muito solidário: as divergências sobre a Ucrânia, por exemplo, entre a União Europeia e os Estados Unidos são percebidas daqui como divergências conjunturais e não estruturais, já que, no fim das contas, no que diz respeito a Gaza ou mesmo ao Irã, esse sentimento de solidariedade entre os grandes países ocidentais continua presente. As divergências conjunturais não conseguem pôr fim a essa espécie de aliança estrutural dos países ocidentais, uma aliança ao mesmo tempo ideológica, política e econômica. Paralelamente, existe uma certa decepção entre os povos do Sul Global: o Sul Global hoje talvez exista economicamente por meio de organismos como a Organização de Cooperação de Xangai ou os BRICS, mas não existe politicamente.

Todos estão bem cientes disso. Aqui há um grande paradoxo, porque entre os anos de 1950 e 1970 existia uma dinâmica política do Sul Global – com a Conferência de Bandung e a Tricontinental –, mas sem dinâmica econômica. E atualmente há uma dinâmica inversa: solidariedade econômica, mas sem uma tradução política real.

Notas

  1. A Força Provisória das Nações Unidas no Líbano é uma missão da ONU implantada no sul do Líbano desde 1978. ↩︎
  2. Em 1982, a OLP foi obrigada a abandonar Beirute, sob a pressão da invasão israelense. ↩︎
  3. Aos poucos, a China de Deng Xiaoping foi deixando de apoiar os movimentos de libertação nacional e os partidos comunistas do Terceiro Mundo, em favor de seus interesses econômicos e diplomáticos. ↩︎

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