Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Nova onda feminista: o papel estratégico da luta das mulheres

Sobre a atual onda feminista, seus aspectos, seu contexto de desenvolvimento e seu impacto nas diferentes esferas da vida cotidiana.

Não aceito mais as coisas que não posso mudar,
estou mudando as coisas que não posso aceitar
(Angela Davis)

Nós que acreditamos na Liberdade
não podemos descansar
até que ela seja alcançada!
(Ella Baker)

#ElesNão

Na noite do dia 5 de fevereiro deste ano, Donald Trump cumpriu um rito comum a todos os presidentes dos Estados Unidos: fez seu discurso sobre o “estado da União”[1] em uma sessão conjunta que reuniu deputados e senadores. Trump usou este encontro anual para, principalmente, pressionar os congressistas a aprovarem a construção de um muro na fronteira com o México, afim de impedir a entrada de imigrantes – polêmica que praticamente paralisou o governo norte-americano nos últimos meses. O teor anti-imigrante de seu discurso já era algo esperado. Mas a cobertura da imprensa deu destaque para outro fato importante: a presença de dezenas de congressistas mulheres vestidas de branco assistindo ao pronunciamento do presidente. Enquanto as câmeras da imprensa cobriam o discurso de Trump, o que mais saltava aos olhos era o aglomerado de mulheres na plateia praticamente brilhando – resultado do contraste de suas roupas.

A escolha da cor branca tinha como objetivo homenagear as sufragistas, movimento emblemático da luta das mulheres em sua primeira onda, mais de um século depois. Além da homenagem a um dos movimentos precursores do feminismo, as mulheres queriam dar um recado a Trump: contra a barbárie, as mulheres defenderão a vida. Em 6 de fevereiro de 1918, as mulheres conquistaram o direito ao voto no Reino Unido. Um ano depois, o mesmo direito foi conquistado nos EUA. Cem anos e muitas lutas mais tarde, o Congresso americano reúne um número recorde de mulheres eleitas (negras, muçulmanas, latinas). Uma parte significativa dessas congressistas – especialmente oriundas da sua ala democrata – decidiu comparecer ao discurso vestindo branco: uma forma de homenagear a luta das mulheres, mas também de contrastar com o discurso mórbido de Donald Trump. Uma dessas congressistas que mais têm se destacado é Alexandria Ocasio-Cortez, oriunda do Bronx, de origem porto-riquenha, ativista da ala radical do Partido Democrata e parceira de nossa organização-irmã, o DSA (Democratic Socialists of America).

Já no Brasil, temos um presidente que em muitos aspectos se assemelha com o comandante-em-chefe americano. Digamos que ambos poderiam ser denominados como populistas ultraconservadores, ainda que o regime político destes países guarde diferenças relevantes. No Brasil, temos hoje um governo com traços autoritários, tutelado por militares. Um novo tipo de regime, ainda em transição, mas cuja fisionomia fundamental já podemos anunciar: maiores restrições às liberdades democráticas e melhores condições para aplicar um ajuste econômico ainda mais severo contra a maioria do povo, o que coloca na defensiva as mulheres e o conjunto da classe trabalhadora.

Por isso, vislumbramos uma mudança na correlação de forças políticas em nosso país (mudança possivelmente preconizada com o bárbaro assassinato de Marielle Franco). E aqui vale extrapolar este parênteses. Marielle era o absoluto oposto desse projeto político que ascendeu ao poder no país. Mulher negra, LBT, oriunda de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro – a Maré. Diferente da maioria das mulheres com mesmo perfil, conseguiu chegar à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, logrando ser a mulher mais votada desta eleição. Marielle era símbolo da Primavera Feminista, da necessidade de democratização da política, eco das vozes de 2013, força da revolta das mulheres e da juventude negra. Ela levou para os palácios o grito contra as chacinas e as injustiças sociais que impõem sofrimento a inúmeras mães e famílias brasileiras. Tudo indica que foi assassinada por milícias do Rio de Janeiro. Organizações criminosas cujos membros foram abrigados e ostensivamente agraciados pelo mandato de Flávio Bolsonaro, o filho do ex-capitão hoje presidente.

Portanto, derrotar esse clã passa por fazer justiça à Marielle. Em primeiro lugar, revelando quais foram seus algozes, a mando de quem e por qual motivo. É preciso trazer à tona os responsáveis por sua morte, inclusive para que possamos saber com quem eles mantinham relação. Revelar as entranhas dos esquemas mafiosos do Rio que assassinaram nossa companheira é, portanto, combater a casta que hoje governa o país. Ao mesmo tempo, fazermos jus ao legado de Marielle é sermos consequentes com tudo que ela representava. Parte importante de seu legado cabe ao movimento feminista defender e concretizar.

Que as mulheres derrotem Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil. Neste artigo vamos perseguir essa ideia.

A extrema direita venceu, mas as feministas também

Apesar da eleição de Bolsonaro e seus asseclas, o número de mulheres eleitas para as Câmaras Legislativas mais que dobrou em relação à legislatura anterior. Num cenário tão preocupante, é extraordinário que a luta das mulheres tenha se fortalecido. O PSOL, por exemplo, elegeu uma bancada federal paritária, que conta hoje com Sâmia Bomfim (SP), Luiza Erundina (SP), Fernanda Melchionna (RS), Talíria Petrone (RJ) e Áurea Carolina (MG). E nos estados, inúmeras mulheres ocuparam as Câmaras Legislativas, com destaque para Luciana Genro (RS), Mônica Seixas da Bancada Ativistas (SP) e para as três mulheres negras eleitas para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, ambas colaboradoras do mandato de Marielle Franco. Por isso, em nossa opinião, a possibilidade de derrotar a extrema-direita passa necessariamente pelo fortalecimento da luta das mulheres. Felizmente, podemos afirmar que existirá resistência se depender do movimento feminista no Brasil, ancorado na experiência vigorosa que se espalha pelo mundo. 

Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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