Sri Lanka, uma insurreição contra o Fundo Monetário
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Sri Lanka, uma insurreição contra o Fundo Monetário

Alguns comentários sobre o recente levante popular no Sri Lanka.

Israel Dutra 20 jul 2022, 09:33

Temos recebido comentários e perguntas de vários camaradas sobre o que está acontecendo no Sri Lanka.

As cenas são impressionantes. Dezenas de milhares de pessoas tomaram o palácio presidencial. A casa do primeiro-ministro foi tomada pelos manifestantes, que chegaram a se instalar nas luxuosas dependências, incluindo a piscina da família do mandatário. Cenas que não ficam devendo aos grandes momentos históricos, nas insurreições clássicas, quando os núcleos dirigentes das elites fogem à ira popular.

Quero grifar apenas alguns aspectos e indicar leitura acerca do que está passando.

Conhecemos pouco em nosso país acerca do Sri Lanka. Esse país está situado no sul da Ásia, com uma população de 21 milhões e 600 mil, ou seja, com uma população menor do que a Austrália, mas ainda maior que a do Chile. A ilha está ao sul de um gigante como a Índia, no Oceano Pacífico.

A “distância política” e a falta de informação política e histórica podem ser explicadas pela distância geográfica, a barreira linguística- no Sri Lanka se fala Cingalês e Tamil- e pelo fato de não existe migração para o Brasil.

O levante, verdadeira insurreição, se destaca no cenário mundial. Por que é tão importante o que está acontecendo nessa ilha, localizada no golfo de Bengala?  É uma revolta popular que ajuda a entender o que vem pela frente, com o ciclo de ira popular contra os altos preços do custo de vida. Uma revolta contra o círculo de ferro que envolve submissão ao Fundo Monetário, alta inflação como produto da situação internacional, elites corruptas e novos ciclos de endividamento.

Antigamente conhecida como Ceilão, a ilha teve sua independência conquistada em 1948, alterando seu nome para Sri Lanka, em 1972.  Poucos sabem que a Ilha tem um histórico importante de levantes e de presença de posições marxistas revolucionárias com peso de massas. O Trotskismo fez história no antigo Ceilão.

O país viveu uma sangrenta guerra civil – que tomou conta da situação nacional, entre os anos de 1983 e 2009, deixando mais de cem mil mortos. O regime cingalês reprimiu e derrotou a guerrilha insurgente do LTTE (a Frente de Libertação ” Tigres Tamil Eelam”).

Os últimos anos no Sri Lanka evidenciaram as contradições que explodiram com toda força nas últimas semanas. O levante foi impactado pela inflação e pela retração nas condições de vida que se agravam com a guerra.

Em 12 de abril último, o governo do Sri Lanka anunciou a suspensão do reembolso da dívida externa. No dia 2 de abril, o governo já tinha declarado estado de emergência, antecipando a crise geral que levaria ao não pagamento de 51 bilhões de dólares de sua dívida externa.

Assim, o Sri Lanka entra no rol de países não pagadores da dívida, o primeiro caso contundente no século XXI.  Algo lembra às séries de Netflix que tem como temática o retorno no tempo, se recorda aos anos 80, com os países declarando bancarrota, numa relação de constante falência e dependência do Fundo Monetário.

A situação dos últimos anos se agravou, com um Estado altamente militarizado, por conta da guerra civil anterior, uma sociedade civil cada vez mais castigada pela bancarrota econômica. Nos últimos seis meses, após recorrer ao FMI, a falta de medicamentos, o caos na gestão econômica- falta de liquidez e desordem cambial- levou a condição de “beira do precipício”, quando o país ficou sem combustível e com permanentes cortes de eletricidade.

O levante contra o FMI e o governo do presidente Gotabaya Rajapaksa, aliás, “Gota” teve como ponto alto a tomada do palácio presidencial, no sábado, dia 09 de Junho. Gota fugiu às pressas, anunciando sua renúncia, buscando chegar nas Maldivas e depois pedir exílio em Singapura. A palavra-de-ordem “Gota Go Home” se massificou. A esperança se espalhou pelas ruas do país. As notícias da rebelião popular ecoaram no planeta. Novamente, podemos afirmar que uma “insurreição de massas” comoveu o mundo.

Os debates estão colocados:  a saída política para o país, onde o antigo primeiro-ministro busca um governo provisório de unidade nacional (com a recente eleição de Ranil Wickremesinghe) até que se convoquem novas eleições; o segundo, responde à questão econômica, o que fazer com o acordo com o Fundo Monetário Internacional e a dívida pública.

O CADTM- Comité para a Abolição das Dívidas Ilegítimas- tem presença no Sri Lanka e está acompanhando e difundindo as discussões. A necessidade de romper com o FMI e o ciclo das dívidas está colocada em inúmeros países. De alguma forma, num mundo marcado pela guerra da Ucrânia e pela crise multidimensional, o Sri Lanka é um espelho do que virá.

Há esperança na tradição e luta do povo do Sri Lanka. É preciso aprofundar a ruptura com o FMI, com a energia dos centenas de milhares que expulsaram Gota do poder.

 Os trotskystas chegaram a protagonizar o grande levante de 1953, quando uma greve geral de caráter insurrecional, conhecida como “Hartal”, teve lugar na história.  

Coloco abaixo alguns links informativos para conhecer melhor a situação do Sri Lanka.

https://wamehanda.wordpress.com/2020/05/21/the-day-trotskyists-shut-down-an-island/

https://www.cadtm.org/O-Sri-Lanka-nao-deve-assinar-um-acordo-com-o-FMI

https://movimentorevista.com.br/2022/04/sri-lanka-e-um-massacre-economico/

https://movimentorevista.com.br/2022/07/crise-no-sri-lanka-o-desgosto-diario-da-vida-em-um-pais-que-faliu/


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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