Marwan Barghouti: o ‘Mandela palestino’ que Israel teme libertar
Preso há mais de 20 anos, líder palestino é símbolo da resistência e visto como figura capaz de unificar o povo sob uma agenda de libertação nacional
Foto: Reprodução
Poucos nomes despertam tanto respeito entre os palestinos quanto Marwan Barghouti, 66 anos, o mais proeminente prisioneiro político da Palestina. Ex-líder do Fatah na Cisjordânia, ele cumpre cinco penas de prisão perpétua impostas por tribunais israelenses que o acusam de envolvimento em ataques durante a Segunda Intifada, em 2002. À época, Barghouti negou todas as acusações e rejeitou a legitimidade da corte ocupante, declarando-se “um prisioneiro político sob ocupação ilegal”.
Duas décadas depois, sua figura transcende o cárcere. Entre os palestinos – inclusive entre jovens que nasceram após sua prisão – Barghouti é visto como o símbolo vivo da luta por autodeterminação. Sua popularidade atravessa fronteiras políticas e ideológicas, unindo militantes de todas as facções da resistência sob a convicção de que ele seria o único capaz de reconstruir um projeto nacional palestino.
“Ele é o Nelson Mandela palestino”, afirmam militantes e estudiosos, comparando sua trajetória à do líder sul-africano que passou 27 anos preso antes de conduzir seu povo ao fim do apartheid.
Uma vida dedicada à resistência
Barghouti iniciou sua militância ainda adolescente, aos 15 anos, quando se juntou ao Fatah, então proibido por Israel. Foi preso por quatro anos e, após a libertação, cursou História e Ciência Política. Nos anos 1990, com a assinatura dos Acordos de Oslo, voltou a Ramallah e se tornou secretário-geral do partido na Cisjordânia e membro do Conselho Legislativo Palestino.
Sua popularidade cresceu rapidamente por representar uma liderança de base, próxima da população e disposta a dialogar com todas as correntes do movimento nacional palestino. Enquanto Mahmoud Abbas, atual presidente da Autoridade Palestina (AP), é criticado por seu imobilismo e falta de legitimidade democrática, Barghouti é percebido como a alternativa mais viável para unir a Palestina dividida. Pesquisas recentes citadas pela Al Jazeera e pelo Middle East Eye indicam que ele venceria facilmente uma eleição presidencial, caso fosse autorizado a concorrer.
A prisão e o medo de Israel
Em 2002, em meio à Segunda Intifada – período de levante popular contra a ocupação -, o exército israelense capturou Barghouti em Ramallah. Ele foi julgado em tribunal israelense e condenado à prisão perpétua por supostamente “planejar ataques contra civis”. O próprio Barghouti se recusou a reconhecer o processo, classificando-o como “julgamento político sob ocupação colonial”.
Desde então, Israel o mantém isolado. Organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional e a Sociedade dos Prisioneiros Palestinos denunciam que Barghouti é submetido a confinamento solitário prolongado, sem acesso regular à família e advogados. Em 2024, um vídeo divulgado pelo ministro de extrema direita Itamar Ben-Gvir mostrou Barghouti visivelmente debilitado. Sua esposa, Fadwa Barghouti, declarou:
“Talvez parte de mim não queira reconhecer tudo o que seu rosto e corpo expressam.”
A recusa em libertá-lo
Nas últimas semanas, o nome de Barghouti voltou ao centro das negociações do cessar-fogo na Faixa de Gaza. Segundo a Al Jazeera, o Egito e o Catar pressionaram pela libertação de presos políticos de longa data, incluindo Barghouti, como parte de um acordo de troca de reféns entre Israel e o Hamas. Contudo, o governo de Benjamin Netanyahu removeu unilateralmente o nome de Barghouti da lista de libertações, frustrando os mediadores internacionais.
“O que posso dizer neste momento é que ele não será parte dessa libertação”, afirmou o porta-voz israelense Shosh Bedrosian.
De acordo com fontes diplomáticas ouvidas pelo Middle East Eye, a exclusão se deu por pressão direta de Netanyahu e de setores da Autoridade Palestina que temem o potencial político de Barghouti. Um dirigente palestino admitiu ao portal que “alguns na liderança atual veem Barghouti como uma ameaça real à continuidade de Abbas no poder”.
O filho do prisioneiro, Arab Barghouti, foi ainda mais direto em entrevista à CNN: “Israel não quer libertar meu pai porque Netanyahu não quer um parceiro para a paz.”
Um símbolo incômodo
A prisão de Marwan Barghouti é mais do que uma questão judicial – é uma decisão política. Libertá-lo significaria reconhecer que há, entre os palestinos, lideranças legítimas capazes de dialogar com o mundo e de exigir, com autoridade, o fim da ocupação. Por isso, tanto Israel quanto parte da elite da AP têm interesse em mantê-lo calado.
Enquanto isso, nas ruas da Cisjordânia e de Gaza, sua imagem continua viva – estampada em bandeiras, murais e cânticos que ecoam o mesmo sonho interrompido desde 1948: liberdade, dignidade e soberania para o povo palestino.