Capitalismo de plataformas, tecnologias digitais e neofascismo
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Capitalismo de plataformas, tecnologias digitais e neofascismo

O tecnofascismo impulsionado pelas big techs do Vale do Silício é hoje o centro do modernismo reacionário contemporâneo e tem um lugar estratégico no capitalismo contemporâneo

José Correa Leite 18 maio 2026, 18:37

Foto: Mark Zuckerberg, CEO da Meta; Lauren Sanchez, Jeff Bezos, fundador da Amazon; Sundar Pichai, CEO da Alphabet; e Elon Musk, CEO da Tesla e X., durante a posse de Donald Trump. (Julia Demaree Nikhinson/GI)

Frederico Henriques publicou no portal Esquerda em Movimento um importante artigo, “O que é Neofascismo?”, que precisa ser lido com atenção. Quero aqui inserir no debate que ele traz uma reflexão sobre o coração global dessa corrente neofascista, sem diluir o que Henriques caracteriza corretamente como o seu pragmatismo. O tecnofascismo impulsionado pelas big techs do Vale do Silício é hoje o centro do modernismo reacionário contemporâneo e tem um lugar estratégico no capitalismo contemporâneo.


Tecnologia é a palavra mágica com a qual o capitalismo promete resolver todos os problemas da sociedade, principalmente aqueles criados por ele próprio; era assim com as propostas de futuro mecânico dos séculos XIX e XX e é assim, hoje, com os discursos sobre o futuro digital e a inteligência artificial. A ideologia do Vale do Silício tornou a tecnologia quase sinônimo do digital e o coloca no centro do projeto tecnofascista que as big techs estadunidenses projetam para o mundo – enquanto ignora que vivemos uma revolução técnica muito mais importante e democrática, a da eletrificação da sociedade por energias renováveis. Mas as tecnologias não são, na sociedade capitalista, a expressão das necessidades imediatas da sociedade, mas sim manifestações diretas dos processos de acumulação e dos interesses e ideologias dominantes.

O mais decisivo, contudo, é que assistimos hoje a uma mutação, associada às tecnologias digitais, na forma como as ideias são trabalhadas na sociedade. As antigas superestruturas produtoras de cultura, os “aparelhos ideológicos de estado”, as instituições de hegemonia, são deslocadas pelas novas infraestruturas de “informação e comunicação” controladas diretamente por umas poucas corporações globais. Sistemas educacionais, universidade, igrejas, imprensa, mercado editorial, entretenimento, quase tudo que antes poderia ser considerado sociedade civil, vida comunitária e esfera pública passa a ser mediado digitalmente e torna-se alvo do projeto privatizador e mercantilizador das big techs que querem controlar tudo, criando uma humanidade dócil aos seus desígnios. A produção de ideias, inclusive as políticas e religiosas, se torna função de exércitos de influencers pregando o inovacionismo e o empreendedorismo e excitando a sociedade com choques audiovisuais, que os interesses estabelecidos buscam amplificar. Eles parecem ecoar a experiência prática superficial da vida de amplos setores precarizados ou plataformizados das populações que, pelo planeta afora, buscam sobreviver no seu dia-a-dia em um mundo de escassez artificial.

Instituições milenares, como as igrejas e as universidades, estão se tornando obsoletas para certas facções das classes dominantes e são tomadas pelas novas lógicas. O neoliberalismo radicalizado pelo tecnofascismo encarna de forma exemplar a metáfora de Marx, desmanchando no ar tudo que parecia sólido, naturalizando a vida cotidiana como a luta de todos contra todos, transformando aquilo que era mais venerável e respeitável em espetáculos, shopping centers e feiras de vaidades e ilusões.

Compreender o processo em curso é essencial para combatê-lo. Grande parte da esquerda incorporou o fetiche burguês da tecnologia – uma manifestação do fenômeno mais amplo do fetichismo da mercadoria – e está perplexa perante as mudanças radicais em curso. Paralisada, ela esquece a dialética da modernidade capitalista, como está, por seu desenvolvimento imanente, passa a negar as promessas que, no passado, promoveu. Recuperar a crítica do imaginário cultural hegemônico e da tecnociência capitalista como desorganização social, controle despótico e destruição da razão é decisivo para barrarmos a regressão civilizacional em curso e voltar a imaginar um futuro emancipado. Precisamos de novas estruturas de ideias para enfrentar o neofascismo e projetarmos saídas para a crise do capitalismo globalizado. E também para entendermos como as ferramentas antropogênicas empregadas pelo capital precisam ser substancialmente reorganizadas – e várias abandonadas – para caminharmos na libertação humana.

A ideologia do Vale do Silício se transmuta no tecnofascismo

Uma nova ideologia cresceu no século XXI, associada ao avanço das tecnologias digitais. Richard Barbrook e Andy Cameron a chamaram, em seu nascimento, em 1995, de “ideologia californiana”, mas, com a clareza de hoje, podemos chamá-la, com mais precisão, de ideologia do Vale do Silício. Ela combinava ideias de Marshall McLuhan, individualismo e libertarismo radicais, neoliberalismo, empreendedorismo, inovacionismo, anti-estatismo, aceleracionismo e tecno-utopismo, propagandeando que adentrávamos em uma sociedade pós-industrial, uma nova economia da informação que criaria riquezas jamais vistas e diluiria as relações de poder. Seus animadores eram os proprietários das startups de tecnologia digital, que estavam retirando a economia estadunidense do seu declive dos anos 1970 e 1980.

No início de 2026, os magnatas das chamadas “big techs”, controlavam 9 das 10 maiores empresas do mundo em termos de capitalização de mercado: Nvidia, Apple, Alphabet (Google), Microsoft, Amazon, Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Broadcom, TSMC (a fabricante taiwanesa de chips) e a Testa (vinculada ao grupo X). Apenas a empresa de petróleo saudita Aramco, posicionada em sétimo lugar, não integra a economia digital. É o poder desse setor hegemônico no capitalismo estadunidense – aliado, sob Trump, à burguesia fossilista – que destila hoje uma visão do mundo onde magnatas do digital são apresentados como portadores da “salvação” para a humanidade.

Esta ideologia sustenta que a aposta nas tecnologias digitais produzirá uma “super-inteligência artificial”, que, atingindo a “singularidade”, propiciará a fusão do corpo com a máquina e equacionará os problemas da nossa espécie, nos remetendo a uma condição trans ou pós-humana e, na visão de gente como Elon Musk ou Jeff Bezos, nos tornando uma civilização interplanetária. Esse solucionismo ou salvacionismo tecnológico autoriza, na visão messiânica dos traficantes de dados, a pretensão das big techs de impor à sociedade a mediação digital de tudo e, por extensão, o poder dessas empresas sobre toda a humanidade. Ele estrutura uma narrativa mítica, que se apropria de uma pretensa autoridade da “ciência” para legitimar seu projeto político totalitário. Com Trump, as big techs também passaram a mobilizar diretamente o poder do estado norte-americano para bancar seus interesses! Musk – dono do grupo X -, Peter Thiel e Alexander Karp – os donos da Palantir, que sintetiza a modernidade reacionária contemporânea – pregam abertamente valores fascistas, supremacistas evangélicos brancos e militaristas, para fundir o movimento MAGA com o aceleracionismo e o salvacionismo tecnológico. A “República Tecnológica” que anuncia a “salvação da América” é uma tecnocracia fascista para muito poucos, destinada a gerir, pelo poder bruto, o destino do mundo escravizado.

A deriva autoritária é acompanhada por grande parte dos “novos senhores do universo”: Bill Gates, Eric Schmidt, Jeff Bezos, Sam Altman, Mark Zuckerberg, Tim Cook, Sundar Pichai, Satya Nadella, Palmer Luckey… Esses fundadores de empresas e executivos fabricam, segundo Evgeny Morozov, “ideias com a eficiência de uma linha de montagem: seus posts em blogs, podcasts e Substack avançam com a sutileza de um trem de carga (…) Seu arsenal combina três ferramentas letais: gravidade plutocrática (fortunas tão enormes que distorcem a física básica da realidade), autoridade oracular (suas visões tecnológicas tratadas como profecias inevitáveis) e soberania de plataformas (a propriedade das interseções digitais onde se desenvolve a conversa da sociedade). A tomada do Twitter (agora X) por Musk, os investimentos estratégicos de Andreessen no Substack, o cortejo de Peter Thiel no Rumble, o YouTube conservador: colonizaram tanto o meio quanto a mensagem, o sistema e o mundo vital” (Os novos profetas da distopia, Outras palavras, 14/8/25).

O discurso pós-humano do Vale do Silício não trata do que acontece com a maioria da sociedade enquanto avançam a “inteligência artificial”, os datacenters, a demanda infinita por energias, as criptomoedas, as tecnologias adictivas e as armas autônomas. Mark Zuckerberg há alguns anos defendia abertamente o “pão e circo”, uma combinação de renda básica e uma vida vivida através de avatares no metaverso – como no filme de Spielberg, Ready Player One (Jogador Nº 1) -, mas mesmo esta “saída” desapareceu ou foi reduzida a condição securitária nas últimas narrativas tecnofascistas. Não é necessário muito esforço para perceber que a maioria da humanidade não tem lugar nessa utopia tecnocrática e que se a ilusória “singularidade” realmente se realizasse, isso significaria o holocausto da nossa espécie.

Mesmo que essa hecatombe não ocorra, esse é um projeto de redefinição antropológica da humanidade, que já está sendo implementado no cotidiano pelo avanço da mediação digital de tudo, a adicção a ela e a consequente regressão cognitiva e pelo fortalecimento de ideologias retrógradas – racistas, misóginas, autoritárias. Como afirma a Comissão Teológica Internacional, “os desafios decorrentes do progresso da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial, mas também da imaginação cultural generalizada, põem em causa a experiência elementar que os seres humanos têm de si mesmos em termos concretos, isto é, a experiência na qual moldam a sua identidade.” (Quo vadis, humanitas?, 4/3/26). É exatamente esta “imaginação cultural generalizada” que a ideologia do Vale do Silício disputa para o neofascismo. Frente a isso, nenhuma força social e política que sustente valores humanista e progressistas, para não dizer de esquerda, pode ficar indiferente!

A paisagem mental passa a ser conformada por um novo meio

A ideologia do Vale do Silício avança em uma paisagem mental congestionada e caótica, que perdeu os eixos que estruturaram o universo mental nos séculos XIX e XX. De uma parte, no final do século XX a volta a um liberalismo radicalizado, o neoliberalismo, promoveu a celebração do individualismo, do consumismo, da artificialidade técnica e da pluralidade de identidades com o pensamento pós-moderno. O neoliberalismo se impôs como fundamentalismo de um mercado se amarras e como “pensamento único”, integrando a esquerda moderada como sua “terceira via” e exaltando as políticas dos estilos de vida e as subjetividades narcísicas. Isso se perdeu credibilidade depois da crise de 2008, mas a reiteração do neoliberalismo ganhou sinais trocados, apresentando horizontes cada vez mais pessimistas de futuro: declínio econômico e demográfico, colapso ambiental, escalada das desigualdades, pandemias e deslocamento de povos. Essa reafirmação torna-se um simulacro hipócrita, promovendo a expansão do cinismo no discurso público. É expressão de uma narrativa que todos sabem falsa, mas que continuam repetindo mecanicamente. Uma simulação distingue a realidade da reconstrução, a cópia do original, mas o simulacro quer eliminar a distinção entre verdade e mentira. É o “realismo capitalista”, diagnosticado por Mark Fisher, que desmobiliza as oposições, mas não legitima o sistema nem dilui a ira difusa que cresce no tecido social. Isso joga água no moinho das promessas delirantes do Vale do Silício.

Tivemos, de outra parte, o ressentimento contra as promessas não cumpridas do neoliberalismo alimentando a retomada do conservadorismo, a valorização da religiosidade tradicional e uma crescente deriva para fundamentalismos que recusam a modernidade e qualquer forma de universalismo humanista – não só correntes dos islamismos, do cristianismo evangélico (associado, no caso dos EUA, ao supremacismo branco e ao nacionalismo cristão), mas também processos análogos no hinduísmo, judaísmo, cristianismo ortodoxo e até no budismo. O messianismo religioso se mistura com a misoginia, o reavivamento do patriarcalismo e a defesa cada vez mais violenta dos privilégios masculinos frente às mulheres, bem como da defesa dos interesses de grupos de “eleitos” contra os “outros”. Isso se condensa no que Frederico Henriques caracteriza corretamente como neofascismo – pragmático, racista e produzindo sentido, mobilizando afetos e buscando garantir tanto a estabilidade política em formas cada vez mais autoritárias como a acumulação econômica.

Frente a isso temos, um terceiro vetor, a metamorfose das ideias socialistas em progressismo. Avanços sociais progressistas estão presentes em todas as partes do mundo, embora agora sob intenso ataque conservador – a grande explosão de lutas articuladas pelos trabalhos de reprodução social e cuidado, com as transformações nas condições de vida das mulheres e a proliferação de reconhecimentos de identidades de gênero, raça, etnia e orientação sexual. Esses progressismos frequentemente abandonaram a defesa e a (re)organização do mundo do trabalho que o capitalismo considera produtivo e se contentam com os avanços em lutas específicas nos marcos do mercado, abandonando perspectivas universalistas e alimentando uma grande fragmentação das lutas sociais, que perdem, assim, seu potencial antissistêmico.

Mas o elemento mais perturbador do atual panorama da circulação de ideias é a conformação do meio no qual se espraiam. Elas circularam, ao longo da história, principalmente por palavras, textos e músicas; as imagens ainda eram rústicas e difíceis de serem produzidas. A reprodutibilidade técnica da imagem criou as bases para que, no século XX, a indústria cultural passasse a formatar comercialmente o imaginário das sociedades modernas, produzindo imagens cada vez mais sofisticadas. Guy Debord, partindo da análise marxista do fetichismo da mercadoria, já percebia o papel decisivo do uso de imagens na legitimação do sistema e caracterizava o capitalismo contemporâneo como uma sociedade do espetáculo – as mercadorias precisam de imagens mobilizadoras para se realizarem no mercado.

Com o digital, a internet, o smartphone e as redes sociais, o espetáculo se torna interativo, molecular e cada vez mais acelerado, com as big techs modulando e congestionando, através de tecnologias adictivas e saturação de estímulos, a psique de bilhões de pessoas – uma manifestação do que David Courtwright chamou de capitalismo límbico. Há uma “reprimarização” do imaginário popular, no sentido que ele volta a se tornar cada vez mais primal; o cérebro, imerso desde a infância no oceano das imagens sedutoras, é impulsionado mais pelos impulsos e paixões do que pelo raciocínio. Crianças criadas na frente de telas não apenas têm muito mais enfermidades psíquicas; elas têm menos capacidade de introspecção, mais dificuldades de foco e reflexão e de uso autônomo da imaginação criativa. O homo videns desaprende como usar todo um conjunto de capacidades intelectuais historicamente aprendidas e resumidas no termo “razão” e conhece uma regressão cognitiva, registrada pelas séries históricas de testes lógicos. A política modulada por imagens mobilizadoras que circulam pelas redes sociais fragmenta a sociedade em manadas e bolhas de auto-identificação, hordas de zumbis hiperativos geridas pelos algoritmos das plataformas, que recusam toda alteridade. O Vale do Silício está produzindo uma humanidade dependente de seus estímulos e dócil à sua dominação.

A disputa pela imaginação cultural se dá, pois, em um terreno não só mais denso, acelerado e caótico, mas também em estruturas muito mais adversas às ideias progressivas do que no século XX. A esquerda modernista que celebrava o mundo onde “tudo que é sólido desmancha no ar” tem dificuldade de realizar um aggiornamento para as condições da atualidade. Ela teme rejeitar o progresso tecnológico e aceita os mecanismos postos em marcha pela ideologia dos magnatas do digital e sua ambição globalização, ignorando que está reproduzindo o principal vetor de subordinação e colonialidade do presente. Mas não pode existir um universo simbólico emancipado sem soberania digital, sem que esse meio seja profundamente redefinido, desprivatizado e transformado em esfera pública. A contradição é ainda mais profunda, porque frequentemente o progressismo ignora ou subestima a outra revolução tecnológica em curso, muito mais decisiva para a humanidade e a vida no planeta, a das energias renováveis, naturalizando o caráter regressivo dos agenciamentos que estão conformando a subjetividade contemporânea. Ela parece cega ao projeto de mundo que está em jogo na formatação do digital pelo ciberfascismo.

Os estudos de ciência e tecnologia desenvolvidos no último meio século mostram que elas não são neutras, meras ferramentas, mas expressam as estruturas de poder em dado período. Paul Forman demonstrou como a emergência da crítica à causalidade clássica pela mecânica quântica foi profundamente influenciada pelo ambiente caótico da República de Weimar. David Graeber mostrou como o desenvolvimento das tecnologias digitais depois dos anos 1970 respondeu em grande medida às necessidades das corporações estadunidenses ampliarem seus mecanismos de controle econômico e social. Lawrence Lessing lembra-nos que o código é a lei. Grande parte da esquerda tem uma visão de ciência e tecnologia do século XIX e não é capaz de compreender, por exemplo, as afinidades eletivas entre o neoliberalismo e as tecnologias digitais.

Um agenciamento poderoso da subjetividade

Os seres humanos não são essências ahistóricas com uma alma imutável, mas criaturas cuja psique e identidades individuais e coletivas são constituídas por processos sociais de subjetivação, agenciados por diferentes ideologias, instituições e dispositivos a cada momento histórico. Não existem seres humanos fora da humanidade; aquilo que nos humaniza, nossa cultura e nossa subjetividade, é sempre formado socialmente! A origem dessa visão construtivista está na formulação de Marx, “o ser social é o conjunto das relações sociais” (que não são apenas as relações de produção, embora essas tendam a ser estruturantes da totalidade social). Os seres humanos devem inserir seu conhecimento do mundo em narrativas que lhes permitam dotar suas vidas de significado e propósito, compartilhando valores qualitativos – verdadeiro e falso, bom e mau, justo e injusto, bonito e feio… – pelos quais conduzem sua vida.

Cosmovisões míticas ou religiosas povoaram a psique humana desde a origem e, nas sociedades tradicionais, ofereciam as referências necessárias para entender o funcionamento fenomênico do mundo, garantir respeito às hierarquias sociais e dar sentido a suas vidas. Essas cosmovisões eram reproduzidas em processos agenciados pelas comunidades, famílias ampliadas e pelos cleros. Rituais, magia, momentos de êxtase e de transcendência pontuavam a vida nessas sociedades. A partir de um certo momento, alguns segmentos das populações, produtores de ideias, passaram a recorrer às formas de pensamento crítico, filosofias construídas através da argumentação e do contraditório permanente, que também eram produtoras de valores. Mas eram setores normalmente marginais e elas tendiam a ser integradas pelas estruturas religiosas dominantes.

Isso mudou na modernidade. O capitalismo nascente tanto difundiu no tecido social uma forma de conhecimento radicalmente nova, a ciência experimental, que se pretende isenta de valores, como potencializou a formulação de novas filosofias, em processos de socialização e subjetivação que passavam a ser agenciados não apenas pelas famílias e igrejas, mas também por escolas e sistemas universitários, empresas e órgãos cooperativos, mídias e organizações do mundo do trabalho. Essas instituições espraiaram o secularismo e difundiram os projetos políticos modernos – mais precisamente, as ambiciosas filosofias políticas liberais e socialistas; os projetos conservadores tendiam a ser particularistas. Embora o mito e a religião não desapareçam como formas de conhecimento do mundo e fontes de valores, as visões de mundo modernas se apoiaram centralmente na ciência como a produtora das percepções básicas sobre o mundo objetivo; e nas filosofias e seus projetos políticos que fornecem a interpretação dessas informações e sua valoração.

Uma estrutura filosófica forte, portadora de valores de vocação universalizante, emergiu no Renascimento e se consolidou no Iluminismo, o humanismo. Foi ela que permitiu aos seres humanos conviver com os avanços desnorteantes dos conhecimentos científicos, que subverteram suas crenças tradicionais. Mas apesar de seu alcance, o humanismo nunca teve aceitação geral: é combatido por todos os fundamentalismos religiosos, que privilegiam suas comunidades de crenças, e pelas políticas nacionalistas racistas e xenófobas, que privilegiam suas comunidades de sangue. Além disso, na filosofia moderna, a constatação de que não existem fontes transcendentais de valores (a condição niilista) foi usada para solapar o humanismo (a apropriação pelo fascismo da obra de Nietzsche). Mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançada em 1948 pelos vitoriosos da II GM, e a desautorização do evolucionismo como ciência (e, portanto, a ilegitimidade de todas as formas de racismo científico) consolidaram e deram enorme tração social a estrutura de valores humanistas. A própria ideia de humanidade, que só emergiu plenamente no final do século XVIII, com o Iluminismo, passou a se destacar como conceito integrador – todo ser humano é portador de uma dignidade intrínseca, não condicionada. Da mesma forma, as ideias de emancipação e de democracia conheceram gigantescas transformações do século XIX para o XX.

As inovações técnicas da revolução industrial não dependeram, inicialmente, das pesquisas científicas, mas seus avanços posteriores sim. No final do século XIX ganhou corpo uma tecnociência capitalista, sintonizada com os fluxos da acumulação e simbolizada pela figura de Thomas Edison. Mesmo movimentos hiper-reacionários da modernidade, como o fascismo e o nazismo, tiveram que se apoiar na tecnociência capitalista e na modernização industrial, apesar de rejeitarem os valores iluministas compartilhados pelo liberalismo democrático que emergiu no século XX e pelos socialistas.

A ciência e a técnica industriais foram disputadas aos liberais pelos socialistas, talvez com menos criticidade do que a necessária – veja-se sua cegueira para as resistências comunitárias ao avanço do capital e seus preconceitos para as formas de vida pré-capitalistas; os povos dito “primitivos” seriam proletarizados e assim contribuiriam para o avanço do socialismo! Contudo, um letramento científico da sociedade – associado a uma visão antropológica humanista – fazia parte do programa das duas correntes ideológicas e favoreceu sua aliança contra o fascismo na II GM. Isso estava alicerçado no que Gramsci diagnosticou como combinação do fordismo com o americanismo – um novo arranjo das forças produtivas industriais e novos modos de vida, individualistas e consumistas. O resultado foi, depois de 1945, um mundo onde liberais, socialistas e progressistas (e mesmo alguns conservadores) valorizavam a ciência, suas aplicações técnicas e seu corpo comum de conhecimentos; utilizavam e mesmo cultuavam os avanços de seus conhecimentos na economia, nas infraestruturas técnicas, na medicina, no consumo e na vida cotidiana… e na produção de armas (a Guerra Fria, a corrida espacial…). E aceitavam, ao menos formalmente, que o bem-estar de todos era o objetivo comum que deveria conduzir a sociedade adiante.

Contudo, vivemos nas últimas décadas uma ruptura crítica desse entendimento comum pela humanidade. De uma parte, com o neoliberalismo, formas de negação da ciência e da democracia voltaram a ganhar tração no pensamento burguês. Grupos de capitalistas – da indústria do tabaco ao combustíveis fósseis – burlam e combatem a ciência e estigmatizam o princípio da precaução. Grupos conservadores de base religiosa, antes marginais, passaram a ganhar tração por todo o mundo frente a segmentos sociais frustrados com o crescimento das desigualdades em um sistema organizado de modo que apenas os detentores de títulos financeiros têm ganhos expressivos. De outro lado, nos últimos anos, o neofascismo opera e difunde uma concepção antropológica abertamente anti-humanistas, racistas e xenófobas, combinando hipocritamente setores da tecnologia digital (que resgatam, sob a etiqueta da “República Tecnológica”, os mesmos argumentos do darwinismo social destruído na Grande Guerra), e movimentos anti-iluministas e anti-ciência (como os movimentos anti-vacinas e o combate às ciências sociais como “marxismo cultural”, que se apoiam em mitos e filosofias delirantes e religiosidades arcaicas). Eles vêm trabalhando para desqualificar os corpos de conhecimentos científicos acumulados pelas instituições de pesquisa e pelo sistema universitário.

O letramento técnico e científico geral reflui há quatro décadas nas sociedades industrializadas – a grande exceção sendo a China. A faculdade da reflexão recua para uma precária “razão instrumental”, que não consegue articular os meios técnicos existentes, cada vez mais poderosos e de difícil compreensão, com fins éticos substantivos. O neofascismo reorganiza e escala a natureza autoritária do estado, enquanto privatiza para as big techs o controle do que antes era a esfera pública e a sociedade civil. O que está em jogo não é apenas a “comunicação”, é o conjunto das instituições de socialização humana: escolas, igrejas, imprensa, família… Há uma reorganização, reposicionamento e refuncionalização institucional ampla em curso em torno do novo motor digital. Daí a enorme ameaça representada pelo tecnofascismo.

O imaginário cultural, colonizado pelos universos ficcionais das indústrias culturais, distancia-se do humanismo, do Iluminismo, da ciência e do racionalismo. Parcelas significativas da população voltam-se para religiões portadoras de certezas absolutas ou mergulham em fantasias irracionais e futuros apocalípticos – os zumbis substituem a ficção científica como o mito arquetípico a expressar não mais as esperanças, mas os medos de nossa época! A “ciência” se irradia no senso comum através de fórmulas simplificadas e memes, misturados a crenças religiosas, mitos e pseudo-ciências. A “tecnologia” é identificada com o digital e as pessoas lidam com ela como com dispositivos mágicos, que funcionam por invocações – a sedução dos comandos de voz. O entendimento do mundo se fragmenta e volta mesmo a ganhar conotações místicas, que parecem escapar às agências políticas visíveis da sociedade.

Disputas

Há uma disputa de projetos de civilização em jogo, provavelmente a mais decisiva da história da humanidade. O que aparece, para a episteme iluminista, como caos e irracionalismo é, de fato, a expressão orgânica do novo agenciamento dos processos de subjetivação e socialização pelas big techs e pelo tecnofascismo: destruição de vínculos comunitários, individualismo radical, plataformização, guerra de todos contra todos, darwinismo social, racismo e xenofobia, fragmentação do mundo, corrosão do horizonte de futuro, estigmatização do outro, regressão da cognição, destruição do saber e de referências comuns… É a produção da humanidade reduzida à condição de hordas bárbaras, sua gestão com punho de ferro pela “República Tecnológica” ancorada na inteligência artificial e nas promessas da singularidade pós-humanas para uns poucos.

O capitalismo de estado chinês encaminha outro projeto global, mais coerente com uma visão multilateral das relações internacionais. É um estado organizado por um regime político ditatorial e um imperialismo econômico poderoso, que quer manter e ampliar a centralidade chinesa nas cadeias globais de valor. Contudo, até agora ele tem se revelado avesso a intervenções militares no exterior. Sua tecnologia digital é menos eletrointensiva e mais permeável a uma apropriação soberana por países que assim o desejarem. A China ainda é a maior emissora de gases de efeito estufa, mas também viabilizou a tecnologia para alavancar a transição energética, com o complexo de geração solar e eólica, baterias e transportes elétricos. Isso pode servir de ponto de apoio para projetos que restabeleçam espaços políticos democráticos em diferentes países da periferia, em especial as potências intermediárias capazes de manter parques industriais próprios. Mas qualquer projeto de reindustrialização terá que se dar hoje em concorrência mais com a China do que com os EUA. E a China também é hoje o principal motor do neoextrativismo que acorrenta boa parte da periferia do sistema ao mercado global. É, porém, um ponto de apoio incontornável para países que buscarem romper com as big techs estadunidenses e constituírem seu próprio ecossistema digital.

Embora alianças internacionais pela regulação das big techs sejam importantes, as disputas fundamentais se dão no terreno nacional, na constituição de blocos de forças sociais com coerência, organização e peso político para disputar propostas soberanas. A soberania digital é a condição para escalarmos esse processo, ganharmos condições de reconstrução de uma nova esfera pública e nos alçarmos à condição de portadores de alternativas credíveis. Poderemos, assim, generalizar a disputa pelas condições de agenciamento de conjunto dos processos sociais, culturais e até espirituais que subjetivam a humanidade de nosso tempo.

O socialismo tem hoje que ser um (eco)socialismo que apresente alternativas para as diferentes facetas da crise da civilização capitalista e as necessidades existenciais das populações – exigindo, no caso do Brasil, a ruptura do atual bloco de poder financeiro-ruralista-extrativista e seu vínculo dígital com o imperialismo estadunidense. A revolução da eletrificação é um pressuposto necessário mas não suficiente para que os avanços nas tecnologias digitais não sejam profundamente destrutivos da biosfera da Terra. A outra condição é que os avanços no desenvolvimento e difusão das inteligências artificiais se deem em condições de desplataformização e soberania digital. Aferrarmo-nos, na luta por isso, nas referências institucionais liberais da forma como vem fazendo o progressismo é naufragarmos junto com o Titanic que já bateu no iceberg!


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