Após barrar veneno perto de escolas, professora é afastada no Pará
Transferência de Heloise Rocha expõe retaliação política e o peso do agronegócio sobre o Estado
Foto: Arquivo pessoal
Um mês depois de a Justiça suspender a aplicação de agrotóxicos no entorno de escolas e unidades de saúde em Belterra (PA), a professora Heloise Rocha – uma das principais denunciantes de casos de intoxicação no município – foi retirada da escola onde lecionava há dez anos. A decisão, comunicada de forma informal por WhatsApp, é vista por sindicatos e movimentos sociais como perseguição política e tentativa de silenciamento, em um território marcado pela expansão agressiva da soja e pela captura de instâncias do poder público pelo agronegócio.
Heloise atuava na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Vitalina Motta, uma das unidades diretamente afetadas pela decisão judicial de dezembro. Em 10 de janeiro, ela foi informada pela diretora de que não permaneceria mais na escola polo.
“Infelizmente, não foi possível mantê-la na escola polo, pois neste início de ano tivemos uma grande saída de alunos, o que nos levou a unir as turmas que antes eram separadas”, escreveu a gestora. A docente foi transferida para a escola Frei Fabiano, a cerca de dois quilômetros de distância.
A professora contesta a justificativa e afirma que a Secretaria Municipal de Educação (Semed) teria recorrido a uma manobra administrativa para forçar sua saída. Segundo ela, alunos foram “imprensados” em menos turmas para alegar inexistência de carga horária.
“Qual foi a motivação para me tirar, se outros concursados têm a mesma carga horária que eu? Só eu fui transferida”, questiona.
Desde 2016, Heloise Rocha denuncia casos recorrentes de alunos e trabalhadores da educação que passam mal após pulverizações de agrotóxicos nas imediações da escola. Náusea, coceira, irritação nos olhos e dores de cabeça fazem parte dos relatos encaminhados por ela a órgãos públicos e a pesquisadores. Sua atuação a colocou no centro de conflitos com produtores rurais e setores ligados ao agronegócio local, segundo fontes ouvidas pela Repórter Brasil.
Foi justamente uma dessas denúncias que embasou a decisão do juiz Claytoney Passos Ferreira, da Vara da Fazenda Pública de Santarém. Em 6 de dezembro, ele suspendeu “toda e qualquer pulverização, aplicação ou uso de agrotóxicos” no entorno de 16 escolas e quatro unidades de saúde do Planalto Santareno.
“A garantia à saúde é tão primordial que suplanta, por ora, qualquer argumento da parte ré”, afirmou o magistrado, ao determinar que a prática só poderia ser retomada mediante medidas rigorosas de segurança.
A medida atingiu diretamente propriedades vizinhas à escola Vitalina Motta, onde, segundo os autos, o uso irregular de venenos em lavouras de soja provocou intoxicação de dezenas de pessoas.
“Isso irrita muito eles, porque o cara não pode borrifar mais nada”, afirma Heloise. “Agora a gente está organizando uma denúncia formal porque o dono da propriedade não cumpriu a determinação de construir o cinturão verde no entorno da escola.”
Denúnciar é dever ético, diz CNTE
Entidades nacionais e locais veem a transferência como retaliação. Em nota, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) afirmou ver “com preocupação” a decisão e lembrou que “denunciar situações que colocam em risco a saúde coletiva é um dever ético e social dos profissionais da educação, e não pode resultar em retaliação ou silenciamento”. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida classificou o caso como “repressão” e afirmou que ele expressa “o poder que o agronegócio exerce na região e sobre as instâncias do Estado e da prefeitura”.O Sintepp Regional Oeste foi ainda mais direto:
“É inadmissível que, em vez de o município de Belterra garantir a segurança da comunidade escolar e punir os responsáveis pela contaminação, ele utilize a máquina administrativa para punir quem denuncia o crime ambiental”.
A secretária municipal de Educação e vice-prefeita, Dimaima Moura, nega qualquer relação entre a transferência e a decisão judicial. Segundo ela, a mudança ocorreu por causa da redução de turmas após o período de matrículas, e Heloise teria sido a única realocada por ter menor carga horária. Moura também atacou a docente, afirmando que ela “faz isso para ter ibope”.
Os números, porém, ajudam a explicar o conflito. Levantamento da Repórter Brasil e do Tapajós de Fato mostra que, nos últimos dez anos, foram registradas 231 intoxicações por agrotóxicos no Planalto Santareno, sendo 181 ligadas diretamente a pesticidas usados em lavouras — principalmente de soja. Só Belterra concentra 135 casos. Entre 2021 e 2025, as notificações cresceram 545% na região.
Pesquisas da Universidade Federal do Oeste do Pará e do Instituto Evandro Chagas apontam impactos ainda mais graves. A pesquisadora Annelyse Rosenthal Figueiredo identificou aumento de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso em Belterra entre 2011 e 2020. O médico Marcos Mota associa sintomas neurológicos, depressão e alterações reprodutivas ao uso intensivo de glifosato. “Esse é um motivo de grande preocupação, porque os nossos resultados estão de acordo com a literatura mundial”, afirmou.
Nesse contexto, a retirada de uma professora que denunciava o problema não soa como ato administrativo neutro, mas como parte de uma engrenagem maior. Em Belterra, onde a soja avança sobre comunidades, escolas e postos de saúde, a perseguição a Heloise Rocha revela quem paga o preço quando a defesa da vida confronta os interesses do agronegócio.
Com informações do Repórter Brasil