Banco Master: quando o escândalo chega ao topo do poder
Escândalo do Banco Master aprofunda fissuras entre governo e Judiciário, expõe disputas internas no Supremo e mantém Dias Toffoli no epicentro de uma crise política e institucional sem precedentes
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central, sob a acusação de um rombo de ao menos R$ 12 bilhões no sistema financeiro, deixou de ser apenas mais um grande escândalo bancário brasileiro. À medida que as investigações avançam, surgem indícios de que a teia de relações do banqueiro Daniel Vorcaro se estendia profundamente pelo alto escalão da política institucional e do Judiciário, revelando a promiscuidade histórica entre capital financeiro, poder de Estado e elites jurídicas no país.
A liquidação do Banco Master, acusado de provocar um rombo bilionário no sistema financeiro, hoje preocupa figuras importantes das elites brasileiras. As investigações revelam uma rede de relações que conecta o banqueiro Vorcaro a figuras centrais da política e do Judiciário, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Palácio do Planalto entram em uma disputa silenciosa sobre quem deve arcar com o desgaste público do caso.
O que está em jogo já não é apenas a responsabilização de um banco médio acusado de fraude, mas a exposição do modo como o capital financeiro constrói zonas de proteção para a corrupção dentro do Estado, inclusive nos tribunais superiores.
Toffoli no centro do furacão
No epicentro da crise está o ministro do STF Dias Toffoli, relator do inquérito que apura as irregularidades envolvendo o Banco Master. Reportagens mostram que dois irmãos do magistrado foram sócios do resort de luxo Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), empreendimento que recebeu investimentos de um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e personagem central da teia financeira investigada pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
Em 2021, um desses fundos comprou parte da participação dos irmãos de Toffoli no resort por cerca de R$ 6,6 milhões, tornando-se sócio majoritário da empresa familiar. Um dos irmãos do ministro, inclusive, administrava o empreendimento à época da transação.
Embora Toffoli não figure formalmente como sócio, as revelações levantaram suspeitas sobre conflitos de interesse e colocaram sua imparcialidade sob questionamento.
Jatinhos, seguranças públicos e relações perigosas
A crise se agravou com a revelação de que a mesma aeronave particular que levou Toffoli à final da Libertadores de 2025, em Lima, também realizou voos coincidentes com períodos em que seguranças do Judiciário, pagos com recursos públicos, estavam em Ribeirão Claro, onde fica o resort Tayayá.
Registros analisados indicam ao menos 128 dias de pagamento de diárias a seguranças na região desde 2022. O jatinho pertence ao empresário Luiz Osvaldo Pastore, apontado por Toffoli como “amigo pessoal”. Imagens divulgadas recentemente mostram Pastore no resort ao lado do ministro e do banqueiro André Esteves.
Além disso, Toffoli viajou nessa mesma aeronave acompanhado de Augusto de Arruda Botelho, advogado de um dos investigados no caso Master. Para críticos, o conjunto desses fatos compromete, no mínimo, a aparência de imparcialidade exigida de um ministro da Suprema Corte.
STF fecha fileiras para evitar “explosão”
Nos bastidores do Supremo, a reação foi de fechamento de fileiras. Ministros da ala que defende Toffoli relatam forte irritação com o presidente Lula (PT) e avaliam que o Planalto estaria “lavando as mãos”, permitindo que o desgaste político recaia exclusivamente sobre o STF.
Segundo esse grupo, o governo se apoia no tribunal em momentos decisivos da governabilidade, mas se afasta quando o custo político aumenta. Esse sentimento tem impulsionado uma estratégia de autopreservação institucional: proteger Toffoli não apenas por afinidade pessoal, mas para evitar que um ministro “exploda” e arraste a credibilidade da Corte como um todo.
A avaliação corrente é que uma queda descontrolada abriria um precedente perigoso. Por isso, ministros discutem saídas que mantenham o caso sob o guarda-chuva do STF, ainda que com eventual deslocamento de parte da apuração à primeira instância.
O cálculo político e o fantasma da sucessão
Entre as hipóteses mais ousadas levantadas nos bastidores está a possibilidade de afastamento de Toffoli e abertura de caminho para a nomeação de um novo ministro, com apoio do Centrão no Senado. A proposta, no entanto, encontra resistência.
Ministros lembram que Lula sequer conseguiu aprovar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga já existente no tribunal. “Se não aprova o Messias, vai aprovar outro nome em meio a uma crise dessas?”, questionou um magistrado. A avaliação é que abrir mais uma frente de negociação política poderia aprofundar o desgaste institucional.
Lula endurece o discurso, mas evita o confronto direto
Do lado do Planalto, a postura de Lula tem sido marcada por irritação e ambiguidade. O presidente acompanha de perto o inquérito e, segundo relatos de auxiliares, fez comentários duros sobre Toffoli, chegando a dizer que o ministro deveria renunciar ou se aposentar.
Apesar disso, aliados do presidente duvidam que Lula vá formalmente pedir o afastamento do magistrado ou sua saída da relatoria. O temor é ser acusado de interferência no Judiciário, justamente num momento em que o governo tenta sustentar o discurso de respeito às instituições.
O incômodo aumentou após Toffoli impor sigilo elevado a pedidos da defesa de Vorcaro para levar o caso ao STF. Para pessoas próximas ao presidente, há receio de que a investigação seja abafada e termine em uma “grande pizza”.
Discurso contra fraudes e contradições do governo
Publicamente, Lula tem adotado um tom crítico contra o Banco Master.
“Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, afirmou recentemente.
A fala, no entanto, contrasta com a relação estreita que o banco manteve até pouco tempo atrás com figuras centrais do governo, como Guido Mantega, Jaques Wagner e Rui Costa, além de contratos milionários com escritórios de advocacia ligados a ex-ministros do STF. A contradição reforça a percepção de que o escândalo ultrapassa fronteiras partidárias e expõe um padrão estrutural de promiscuidade entre poder econômico e Estado.
Uma crise que vai além de Toffoli
Responsável pela indicação de Dias Toffoli ao Supremo em 2009, Lula acumula frustrações com o ex-advogado do PT, incluindo o episódio em que o ministro impediu o então ex-presidente de comparecer ao velório do irmão, Vavá, em 2019 – fato pelo qual Toffoli só se desculpou anos depois.
Para setores críticos da esquerda, o caso Master revela mais uma vez como o capitalismo financeiro opera no Brasil: bancos e fundos constroem redes de influência que atravessam governos, partidos e tribunais. Quando o esquema vem à tona, a disputa deixa de ser sobre justiça e passa a ser sobre quem absorverá o desgaste político.
No embate entre STF e Planalto, o risco é que a crise termine administrada nos bastidores, enquanto a promessa de responsabilização dos poderosos – sempre adiada – fique, mais uma vez, pelo caminho.