Greve histórica da enfermagem nos EUA mobiliza 15 mil profissionais
Os trabalhadores da enfermagem dos hospitais privados de Nova York estão no centro de uma das mais expressivas mobilizações da classe trabalhadora estadunidense nos últimos tempos
Estados Unidos Hoje da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco
15 mil enfermeiras e enfermeiros de hospitais privados de Nova York entraram em greve na última segunda-feira (12). Trata-se da maior greve da história da categoria no país. Diariamente, grandes contingentes de grevistas e apoiadores protestam em frente aos principais hospitais da cidade, controlados por 3 grandes corporações de saúde.
Profissionais da enfermagem denunciam baixos salários, sobrecarga de trabalho e urgência de novas contratações. Por sua vez, a dura realidade da categoria contrasta com lucros milionários dos CEOs das empresas gestoras dos hospitais.
A greve tem pautado a mídia local e nacional e é uma das mais expressivas mobilizações da classe trabalhadora estadunidense nos últimos tempos. Parlamentares ligados ao Democratic Socialists of America (DSA), como Alexandria Ocasio-Cortez e Alexa Avilés, compareceram aos piquetes, assim como o prefeito da cidade, Zohran Mamdani. Outras categorias de trabalhadoras, como a Associação dos Bombeiros de Nova York e o sindicato dos professores, também se solidarizaram.
As enfermeiras brasileiras, Letícia Faria (diretora do SindSaúde Paraná) e Ana Paula Teixeira (Analista em Saúde da Coordenadoria de Vigilância em Saúde da cidade de São Paulo), gravaram vídeos em solidariedade à luta. À nossa coluna, Teixeira ainda destacou que “a luta contra a precarização da enfermagem é internacional. No Brasil, recentemente, lutamos pelo piso salarial e estamos sempre mobilizadas contra a terceirização da saúde no país inteiro. No ano passado, houve uma grande greve da enfermagem no Panamá. E estes são apenas alguns exemplos.”
Na sexta-feira (16), nossa coluna esteve presente no piquete em frente ao hospital Henry & Lucy Moses da rede Montefiore, no bairro do Bronx. Em uma manhã fria com sensação térmica de -10 graus, centenas de grevistas e apoiadores cantavam palavras de ordem e dialogavam com a população. Conversamos, então, com Bianca Maynard, enfermeira da unidade e diretora executiva da Associação das Enfermeiras e Enfermeiros de Nova York (NYSNA). Leia a entrevista a seguir.

FLCMF
Bianca, obrigado pela entrevista e parabéns pela greve! Você poderia começar se apresentando, por favor?
Bianca Maynard
Claro. Meu nome é Bianca Maynard. Sou enfermeira, trabalho no Montefiore há 26 anos e atuo como enfermeira há 17 anos. Trabalho na PCU, que é a Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos. Cuido de pacientes após cirurgias.
Também faço parte do comitê executivo da NYSNA, e desde 18 de setembro temos informado à administração que estamos abertos à negociação. Mas nunca conseguimos chegar a um acordo. Como resultado, emitimos um aviso de greve em 2 de janeiro. Esse aviso previa um prazo de 10 dias e, no dia 12 de janeiro, entramos em greve, porque ainda não havíamos conseguido chegar a um acordo.
FLCMF
Quais são as principais reivindicações da greve?
Bianca Maynard
Nossas principais reivindicações são a garantia de equipes com número seguro de profissionais, o fim da superlotação do pronto-socorro, o fim do atendimento de pacientes nos corredores e medidas mais rigorosas contra a violência nos locais de trabalho.
Muitas enfermeiras estão se machucando, especialmente no pronto-socorro, porque não há um limite para o número de pacientes por profissional. Por exemplo, se eu estou trabalhando no pronto-socorro e minha colega também, e ela tem 20 pacientes e eu tenho 20, quando eu saio para o intervalo, de repente ela passa a cuidar de 40 pacientes. Isso é inseguro. Não há como uma enfermeira prestar um cuidado adequado a tantas pessoas.
Em situações de emergência, as enfermeiras são forçadas a escolher a qual paciente responder primeiro. Além disso, a superlotação faz com que existam três ou quatro fileiras de macas antes mesmo de se conseguir chegar a um paciente. Isso é extremamente perigoso. As enfermeiras tropeçam nas macas, os pacientes tropeçam, as pessoas não conseguem ser examinadas adequadamente e não há privacidade.
É por isso que estamos lutando. Não queremos que uma mãe chegue ao pronto-socorro amanhã e seja submetida a essas condições. Quando as enfermeiras saem para o intervalo, deveria haver uma profissional especificamente designada para cobrir um número seguro de pacientes, sem duplicar as atribuições, para que todos recebam o cuidado que merecem.
Estamos aqui pela comunidade. Estamos aqui pelos nossos pacientes. Isso não é uma questão de dinheiro. Nossos pacientes nem sempre conseguem se defender sozinhos, então nós estamos aqui em defesa deles. Só precisamos que a administração e a mídia nos escutem, porque sabemos o que é melhor. Somos enfermeiras porque nos importamos com nossos pacientes.
Faço parte do comitê executivo da NYSNA, e a administração não tem negociado de forma justa. Eles sequer nos chamaram de volta para continuar as discussões ou tentar chegar a um entendimento. Estamos esperando, prontos para nos reunir. Se nos ligassem agora, iríamos imediatamente. Estamos aqui todos os dias desde o início da greve. Só queremos que eles voltem à mesa de negociação e negociem de forma justa — que façam o que é certo para a comunidade.
O Montefiore é, na prática, um monopólio. Eles compram hospitais e concentram tudo, de modo que os pacientes desta região não têm outra opção a não ser ir ao Montefiore. Por isso, deveriam oferecer o melhor atendimento possível. Deveriam tratar esses pacientes da mesma forma que tratam os pacientes de White Plains — porque os pacientes daqui se parecem comigo: são negros e pardos. O fato de pacientes negros e pardos virem para cá não significa que devam receber um atendimento inferior.
Queremos que nossos pacientes recebam o mesmo tratamento, independentemente de raça, condição financeira ou origem. É por isso que estamos aqui. E a comunidade nos apoia. O corpo de bombeiros veio nos apoiar. Os trabalhadores da limpeza urbana vieram nos apoiar. Os próprios pacientes estão vindo nos apoiar. Eles conhecem as condições e sabem que nós somos a voz deles.
Por isso, o Montefiore precisa voltar à mesa de negociação para que possamos voltar a cuidar dos nossos pacientes. Neste momento, para substituir os grevistas, eles estão contratando enfermeiras temporárias, que não moram nesta comunidade. Elas não precisam voltar a ver esses pacientes. Eu preciso. Sou do Bronx, nascida e criada aqui. Esta é a minha comunidade. Todos nós queremos voltar para dentro e cuidar dos nossos pacientes.
FLCMF
Como você descreveria a energia no local — a energia da greve — e quais são suas expectativas em relação a uma vitória?
Bianca Maynard
A energia é forte. As enfermeiras estão mobilizadas. Estamos presentes todos os dias e ansiosas para voltar ao trabalho. Estamos mostrando à comunidade e ao Montefiore que estamos aqui.
Está congelante aqui fora hoje, mas as enfermeiras continuam comparecendo. Não vamos deixar que isso nos desanime, porque enfermeiras são fortes. Trabalhamos em turnos de 12 horas e, às vezes, nem conseguimos ir ao banheiro. Então, isso não é nada comparado ao que enfrentamos lá dentro.
Nossa esperança é que a administração tenha bom senso e negocie de forma justa. Não estamos pedindo nada absurdo. Nossas reivindicações estão centradas no cuidado aos pacientes, e isso deveria ser a prioridade deles. Trata-se de um hospital — parte da comunidade — e eles deveriam se preocupar com os pacientes tanto quanto nós.
Já estamos aqui há cinco dias, e esperamos que a administração reconheça isso e decida nos chamar de volta, para que possamos sentar, ter uma conversa racional e discutir o que ambos os lados podem fazer para que possamos voltar ao trabalho.
Neste momento, parece que fomos expulsas de nossa própria casa. Há pessoas lá dentro que não conhecem nossa comunidade. Queremos voltar para nossa casa — porque este é o nosso lugar. Muitas de nós passam mais tempo aqui do que com nossas famílias. Queremos voltar a cuidar dos nossos pacientes. Não queremos estar do lado de fora. Fomos obrigadas a sair. Queremos voltar para dentro.

FLCMF
Muito obrigada pela entrevista. Para terminar, você tem alguma mensagem para as enfermeiras brasileiras ou para enfermeiras de outras partes do mundo?
Bianca Maynard
Estamos ouvindo que enfermeiras de todos os lugares estão ao nosso lado, e somos profundamente gratas por esse apoio. A enfermagem é uma profissão, independentemente do que qualquer pessoa diga. Já nos disseram antes que a enfermagem não é uma profissão — mas é. Em todo o mundo, em escala global, as enfermeiras estão unidas.
Portanto, muito obrigada pelo apoio, e pedimos que continuem ao nosso lado.
