“O movimento estudantil e a classe trabalhadora precisam apoiar e exercer pressão sobre Mamdani”
Uma entrevista com Allan Frasheri, co-coordenador da juventude do Democratic Socialists of America em Nova York
Foto: Prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, em mobilização com a militância do DSA. (CPR/Reprodução)
Via FLCMF
No início de dezembro, nossa coluna conversou com Allan Frasheri, recém-eleito co-coordenador da juventude do Democratic Socialists of America (YDSA) na cidade de Nova York. Allan é ex-estudante da Universidade da Flórida e foi expulso da instituição em decorrência das manifestações em apoio à Palestina. Agora, ele tem papel central na organização do movimento estudantil e da juventude na cidade governada por Zohran Mamdani. Leia a entrevista a seguir.
Fundação Lauro Campos e Marielle Franco (FLCMF): Allan, para começar, você poderia se apresentar, dizendo seu nome, idade e curso?
Allan Frasheri (AF): Meu nome é Allan Frasheri. Tenho 22 anos. Estudo no City College de Nova York, que faz parte do sistema público da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY). Atualmente, curso Jornalismo. Também sou aluno transferido da Universidade da Flórida, onde estudei anteriormente Filosofia e Economia.
Allan, em 2024 você estava estudando na Universidade da Flórida. Lá, você passou por uma experiência difícil: foi expulso após participar do acampamento em apoio à Palestina. Você poderia contar um pouco sobre o que aconteceu?
Para explicar o que aconteceu, acho importante dar um pouco de contexto sobre minha trajetória na Universidade da Flórida e sobre meu envolvimento com o YDSA e o DSA de forma mais ampla. Entrei no DSA no último ano do ensino médio, no condado de Pinellas, perto de St. Petersburg. Na época, o núcleo local estava apoiando a candidatura de Richie Floyd ao Conselho Municipal de St. Petersburg. Ele é membro do DSA e do caucus Bread and Roses, e eu me envolvi na campanha enquanto estava no ensino médio. Cheguei inclusive a convidá-lo para falar na minha escola. Ele acabou vencendo a eleição e se tornou o primeiro socialista negro já eleito no estado da Flórida e o primeiro socialista eleito ali em mais de 100 anos. Foi essa experiência que me levou a entrar na DSA.
Quando comecei na Universidade da Flórida, em 2021, fundei o núcleo da YDSA no campus. Eu cursava Filosofia e Economia e, por três anos, atuei na direção do grupo, inclusive como co-coordenador.
No meu primeiro ano, nossa principal campanha girava em torno da liberdade acadêmica. O governo estadual estava intervindo cada vez mais na universidade: censurando professores, impedindo que eles testemunhassem em tribunais contra o estado e determinando quais disciplinas poderiam ou não ser ministradas. Tudo isso fazia parte do ataque mais amplo da direita à educação promovido pelo governador DeSantis, de sua cruzada contra o que ele chamava de “wokeness”, e de um esforço coordenado para controlar o ensino superior por meio da censura a professores de esquerda, marxistas e estudiosos da teoria racial crítica. O núcleo do YDSA teve um papel central na organização junto ao sindicato dos docentes. Organizamos grandes protestos e mobilizações que ganharam repercussão nacional.
No meu segundo ano, continuamos organizando contra o avanço do autoritarismo estatal no campus. Nesse período, o presidente da universidade deixou o cargo, e o Conselho de Curadores iniciou o processo de nomeação de um novo dirigente. A escolha foi o senador Ben Sasse, um senador republicano de Nebraska, figura nacional da política, amplamente visto como homofóbico, misógino e contrário ao direito ao aborto. Sua nomeação deixou claro o grau de influência que o governador e o estado buscavam exercer sobre a universidade.
Em resposta, o núcleo da YDSA organizou uma grande mobilização. Quando Sasse foi falar no campus, lideramos centenas de estudantes em um protesto que interrompeu seu evento, o forçou a deixar o prédio e resultou na ocupação estudantil do espaço. Novamente, isso ganhou repercussão nacional — CNN, Fox News — e o protesto passou a integrar um debate mais amplo sobre a tomada do ensino superior pela direita.
No meu terceiro ano, o ano letivo de 2023–2024, já estávamos há meses mobilizados em torno da Palestina, desde outubro de 2023. Em abril de 2024, o movimento dos acampamentos pela Palestina se espalhou pelo país depois que o acampamento da Universidade Columbia chamou a atenção nacional. Estudantes em todo o país começaram a ocupar gramados, montar barracas e exigir o desinvestimento de títulos israelenses, de empresas que fornecem armas a Israel e de parcerias com universidades israelenses.
Na Universidade da Flórida, o YDSA atuou junto com o Students for Justice in Palestine, o Jewish Voice for Peace e outros grupos do campus para organizar nosso próprio acampamento. Permanecemos acampados por uma semana inteira, dia e noite. O nível de repressão policial que enfrentamos foi diferente de tudo o que eu havia vivenciado em protestos anteriores, embora, ironicamente, essa tenha sido uma das ações mais pacíficas que eu já vi. A polícia universitária nos cercou 24 horas por dia, e o governador DeSantis enviou cerca de cinquenta policiais estaduais ao campus, por ordem diretamente sua. As restrições aumentaram cada vez mais: nada de barracas, nada de cobertores, nada de travesseiros, nada de dormir, nada de comida ou água, nada de microfones.
Apesar da repressão, foi uma das demonstrações de solidariedade mais inspiradoras que já presenciei. Estudantes muçulmanos e judeus rezavam lado a lado. Professores e membros da comunidade se juntaram a nós. À noite, fazíamos chamadas com estudantes de acampamentos em Minnesota, Michigan, Nova York, Califórnia, discutindo estratégia, coordenação e como construir um movimento estudantil de massas, democrático, em favor do desinvestimento.
Após uma semana, decidimos intensificar a ação e evidenciar o quão absurdas eram as restrições impostas pela universidade. Eles alegavam que até sentar em cadeiras de praia configurava “acampar”, o que seria proibido. Isso era especialmente irônico, porque, durante os jogos de futebol americano, o campus inteiro fica cheio de cadeiras de praia e pessoas fazendo tailgate. Então, três manifestantes se sentaram em cadeiras de praia como um ato de desobediência civil. A polícia os prendeu e, em seguida, prendeu mais seis de nós — inclusive eu — simplesmente por estarmos por perto. Fomos levados à prisão do condado por um dia e tivemos que pagar fiança para sair. Companheiros de todo o país, inclusive de Nova York, doaram dinheiro para ajudar a pagar essa fiança.
Depois disso, fomos expulsos da universidade por quatro anos.
Em seguida, tirei quase um ano inteiro de pausa. Voltei para a casa dos meus pais, no condado de Pinellas, trabalhei para economizar dinheiro e iniciei o processo de transferência. Foi um período extremamente difícil, tanto emocional quanto politicamente. Meu estado de espírito estava profundamente ligado ao estado mais amplo do movimento. Após a repressão policial intensa em todo o país, o movimento estudantil entrou em uma espécie de depressão. Isso sempre acontece depois de grandes mobilizações: há repressão, a energia cai, as pessoas se afastam ou ficam com medo. Eu senti esse refluxo coletivo de forma muito pessoal.
Na minha avaliação, isso começou a mudar primeiro com a eleição de Donald Trump, que fez muitos estudantes sentirem uma nova urgência para se organizar, e depois com o entusiasmo gerado pela campanha de Zohran Mamdani, que ajudou a reavivar uma energia que estava ausente em muitos campi.
Em setembro deste ano, me mudei para Nova York e me transferi para o City College de Nova York, onde atualmente curso Jornalismo.
Você acaba de ser eleito para atuar como co-coordenador do YDSA na cidade de Nova York. Quais são suas perspectivas sobre esse novo papel?
É um momento muito empolgante para o YDSA em Nova York. Estamos vindo do impulso gerado pela campanha de Zohran Mamdani, na qual o YDSA esteve envolvido por meio da iniciativa “Estudantes por Zohran”. Em toda a cidade de Nova York, em todos os campi onde temos um núcleo — cerca de dez ao todo, tanto em universidades privadas quanto públicas — crescemos de forma significativa por causa dessa campanha.
O nível de energia entre os estudantes é algo que eu nunca tinha visto antes. Enquanto fazíamos panfletagem e banquinhas no campus, inúmeros estudantes se aproximavam porque se identificavam com a mensagem do Zohran e sua plataforma. Muitos desses estudantes não se consideram pessoas políticas; nunca haviam pensado seriamente em política antes. Mas sentiram, pela primeira vez, que tinham encontrado um político com quem estavam empolgados. E nós nos posicionamos de forma muito clara: somos a organização por trás do Zohran, o núcleo do seu movimento e o braço estudantil do DSA. Por isso, os núcleos do YDSA em toda a cidade viram um grande aumento no número de filiados.
Neste momento, estamos vivendo um período histórico de engajamento amplo estudantil, e de jovens trabalhadores comuns. É fundamental que o YDSA saiba canalizar essa energia, em vez de deixá-la se dissipar. Existe uma mentalidade comum que diz: “O Zohran venceu, então nosso trabalho acabou; agora ele assume e vai garantir ônibus gratuitos, creche universal, aluguéis mais baratos”. Mas essa é uma visão equivocada. O Zohran não pode conquistar essas reivindicações sozinho, a partir de um cargo eletivo. É preciso que exista, por trás dele, um movimento de massas contínuo. Portanto, nossa tarefa é seguir construindo esse movimento.
Esse momento nos oferece uma grande oportunidade de construir um movimento estudantil de massas que vá além dos socialistas já convencidos. O socialismo é hoje mais popular entre os estudantes do que em qualquer outro momento das últimas décadas — talvez desde os anos 1960 —, mas os socialistas ainda são uma minoria. Ao mesmo tempo, um enorme número de estudantes está empolgado com Zohran, mesmo sem ainda se identificar enquanto socialista. Esses estudantes podem ser incorporados à ação coletiva em torno de campanhas que respondam às suas necessidades e interesses e, por meio desse processo de organização, podem se politizar e até se tornar socialistas também.
Minha perspectiva é que todos os núcleos da YDSA em Nova York precisam se unir e se organizar coletivamente em torno da agenda do Zohran. Há diferentes ideias circulando sobre qual deve ser nossa próxima grande campanha. Alguns defendem focar em mobilizações contra o ICE e no trabalho pró-migrantes nos campi; outros sugerem solidariedade aos trabalhadores da Starbucks ou a continuidade da priorização da solidariedade com a Palestina.
Na minha visão, deveríamos nos concentrar em trabalhar com o Zohran para aumentar o financiamento da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY) — nosso sistema público de ensino superior, que educa algo entre 100 mil e 200 mil nova-iorquinos da classe trabalhadora. Devemos exigir mensalidades mais baratas e um reinvestimento significativo na CUNY, que vem sofrendo cortes de recursos há décadas. Essas demandas se conectam diretamente aos interesses cotidianos dos estudantes comuns, inclusive daqueles que não se veem como ativistas políticos.
Mais importante ainda, acredito que há um consenso dentro do YDSA de Nova York de que precisamos atuar de forma mais coesa como uma organização em escala municipal, em vez de cada núcleo funcionar de maneira isolada em seu próprio campus. Precisamos de campanhas unificadas e de ações coordenadas. Também estou focado não apenas em fortalecer nossos núcleos já existentes, mas em construir novos núcleos em faculdades comunitárias da cidade, frequentadas majoritariamente por estudantes da classe trabalhadora.
É um momento único para construir um movimento estudantil, principalmente com um prefeito socialista prestes a assumir o cargo.
Que papel a juventude e o movimento estudantil podem desempenhar durante a gestão de Zohran?
Acho que os movimentos de massa são essenciais neste momento, tanto para conquistar o programa do Zohran quanto para proteger a cidade. Zohran se elegeu com uma agenda centrada no custo de vida, fazendo da acessibilidade econômica o eixo central de sua campanha. Essa mensagem teve forte ressonância entre a classe trabalhadora, inclusive entre estudantes de origem popular. Portanto, o primeiro papel do movimento estudantil — e dos movimentos de massa em geral, incluindo sindicatos, movimentos de inquilinos e trabalhadores comuns — é se organizar para, de fato, conquistar essa agenda de acessibilidade.
O segundo grande papel é proteger o Zohran, a cidade de Nova York e nossas comunidades mais vulneráveis de Trump e do ICE. Trump já ameaçou enviar a Guarda Nacional para Nova York. Ele já enviou forças federais para cidades como Chicago e Portland, e vimos confrontos entre o ICE, manifestantes e o Estado em cidades como Los Angeles. À medida que o país avança ainda mais em direção ao autoritarismo, Trump deixou claro que pretende fazer o mesmo em Nova York assim que o Zohran assumir o cargo, em janeiro. Assim, outra tarefa central da mobilização de massas é enfrentar possíveis ataques de Trump e defender nossas comunidades.
O terceiro papel, na minha avaliação, é cobrar do Zohran fidelidade às demandas que o elegeram e exercer uma pressão em contrapeso. Este é um momento singular para a esquerda nos Estados Unidos. Somos um movimento relativamente jovem — com cerca de dez anos de existência em sua forma atual — e esta é a primeira vez que o DSA tem alguém ocupando um cargo executivo no governo. Zohran enfrentará enorme pressão do governo estadual, do governo federal, do Conselho Municipal e da burguesia, isto é, dos interesses empresariais e capitalistas de Nova York, para moderar suas posições e governar de acordo com as expectativas desses setores. E, até certo ponto, essa pressão faz sentido: estruturalmente, ele terá de operar dentro do sistema para governar.
Mas é exatamente por isso que o movimento estudantil e a base mais ampla da classe trabalhadora também precisam exercer pressão. Essa é a única forma de proteger politicamente o Zohran e garantir que sua agenda tenha chance real de avançar. Precisamos comunicar com clareza o que estudantes e trabalhadores querem. Se os estudantes não se mobilizarem exigindo campi-santuário, mais financiamento para a CUNY ou mensalidades mais baratas, ele pode concluir que os estudantes simplesmente não se importam. E as únicas vozes que ele ouvirá serão as dos ricos, dos bem conectados e do establishment político.
Zohran já demonstrou que escuta o movimento quando o movimento se manifesta. Mas ele não pode agir se nós não apresentarmos demandas antes e não demonstrarmos força coletiva. Por isso, do meu ponto de vista, o movimento estudantil tem essas três responsabilidades centrais que mencionei acima.
Allan, para terminar, nós gostaríamos de ouvir sua opinião sobre uma questão mais ampla. Quando você pensa no seu país hoje, o que te faz sentir otimista e o que te faz sentir pessimista? E, na sua visão, como seria o socialismo nos Estados Unidos?
Quero começar pelo pessimismo e terminar com o otimismo, porque sou otimista por natureza e é melhor falar por último sobre o que me dá esperança. O que mais me deixa pessimista em relação aos Estados Unidos hoje é a ascensão do fascismo e do autoritarismo. O Partido Republicano foi completamente tomado pelo trumpismo e pela política do MAGA; tornou-se um partido pós-liberal, que já não está comprometido com normas democráticas, e é movido por um nacionalismo extremo, pelo nativismo branco, pela hostilidade aos imigrantes, especialmente aos imigrantes não brancos, e pela ideia de preservar o que eles veem como a “alma branca” da América. Tanto as lideranças republicanas quanto grande parte da liderança do Partido Democrata estão unidas em torno de uma nova Guerra Fria com a China, que eles enxergam como a principal ameaça ao domínio global dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, Trump conseguiu conquistar amplos setores do mundo corporativo. Durante seu primeiro governo, muitas empresas de tecnologia se opuseram a ele, mas, ao longo do tempo, ele as trouxe para o seu campo por meio de concessões, cortes de impostos, subsídios e parcerias, especialmente com figuras como Elon Musk. Hoje, alguns dos setores mais poderosos da economia dos EUA — os gigantes da tecnologia — estão alinhados com ele. Isso, combinado com a disposição de Trump em corroer normas democráticas, rejeitar resultados eleitorais, enviar forças federais contra manifestantes e ameaçar usar o ICE e a Guarda Nacional contra adversários políticos, torna este momento extremamente perigoso — mais perigoso para a democracia norte-americana do que qualquer outro na história recente.
Do outro lado, o Partido Democrata demonstrou ser incapaz de enfrentar essa ameaça. Kamala Harris perdeu para Trump em 2024 e, diferentemente de 2016, Trump venceu também no voto popular. Isso é um grande rechaço à incapacidade do Partido Democrata de oferecer uma alternativa significativa para dialogar com a classe trabalhadora. Em vez de construir uma coalizão multirracial da classe trabalhadora, o partido concentrou seus esforços em atrair eleitores suburbanos escolarizados e acabou cedendo espaço a Trump, que fala ao ressentimento econômico, mas o redireciona — como os fascistas sempre fizeram — não contra o sistema capitalista que realmente produz o sofrimento das pessoas, mas contra imigrantes, pessoas trans e outros grupos vulneráveis. E, na última eleição, não houve uma alternativa socialista ou classista para oferecer um caminho distinto. Tudo isso me deixa pessimista.
Mas, apesar de tudo isso, sou sinceramente otimista. Sou otimista com o crescimento da esquerda socialista e do movimento sindical. A esquerda moderna nos EUA surgiu com o Occupy Wall Street e depois explodiu com Bernie Sanders em 2016 e 2020, com a eleição de AOC em 2018 e com a rápida expansão da DSA. E agora Zohran Mamdani se tornou uma figura nacional, com um apelo real junto à classe trabalhadora e aos jovens em todo o país. Eu vi isso de perto — até mesmo na Flórida — entre colegas de trabalho no Starbucks, ex-colegas de escola, pessoas que eu jamais esperaria ver politizadas. Muitos estão percebendo que a liderança do Partido Democrata não é capaz de deter o fascismo e que o socialismo democrático talvez seja a única alternativa real. A filiação ao DSA disparou desde a vitória de Trump; estamos nos aproximando de 90 mil membros, e pessoas que nunca se imaginaram no DSA estão entrando porque não veem outro caminho possível.
Também sou otimista por causa do renascimento do movimento sindical. Vemos trabalhadores da Amazon se organizando em todo o país, os Teamsters enfrentando centros da Amazon, milhares de trabalhadores da Starbucks entrando em greve e uma UAW recém-radicalizada, diferente de sua antiga direção. A aprovação dos sindicatos está no nível mais alto desde os anos 1960, especialmente entre os jovens. A esquerda e o movimento sindical estão crescendo juntos, e isso me dá esperança. Por mais poderosos que sejam nossos inimigos — os bilionários, as empresas de tecnologia, a direita reacionária —, não consigo deixar de me sentir inspirado quando converso com estudantes entusiasmados com o Zohran, com trabalhadores construindo novos sindicatos ou quando vejo as multidões que participaram da “Fighting Oligarchy Tour” depois da primeira vitória de Trump. Milhões de pessoas comuns estão cansadas do establishment bipartidário e da classe dominante. Acredito que estamos à beira de algo transformador e acredito que a esquerda pode vencer neste país, derrotar o fascismo e construir um apís para todos.
Quanto ao que seria o socialismo nos Estados Unidos, essa é uma pergunta enorme, mas vou tentar explicar como eu enxergo. Em primeiro lugar, precisaríamos reconstruir o movimento sindical e alcançar níveis de combatividade que não vemos desde os anos 1930 — organizando a Amazon, o Walmart, a Tesla, todas as empresas que dominam nossa economia. Precisaríamos continuar ampliando o DSA, eleger mais representantes socialistas democráticos em todo o país, fortalecer o movimento estudantil e o movimento anti-guerra e, eventualmente, romper com o Partido Democrata para formar um partido de massas da classe trabalhadora, enraizado no movimento sindical e nas comunidades populares. Isso é algo que os EUA nunca tiveram, ao contrário de quase todos os outros países industrializados.
Do ponto de vista político, acredito que a velha ordem constitucional já está ruindo sob a pressão do trumpismo, e nesse colapso existe uma oportunidade de defender uma nova república democrática e social. No plano econômico, o primeiro passo seria construir um Estado de bem-estar universal — saúde gratuita, educação gratuita, creche universal — coisas básicas que todo país desenvolvido já tem. Isso daria segurança real aos trabalhadores e é essencial se quisermos sobreviver às crises que virão com a inteligência artificial e as mudanças climáticas.
Também precisaríamos de um Green New Deal em escala massiva: investimento público em energia limpa, habitação social, trens de alta velocidade, infraestrutura moderna, sistemas de internet e comunicação de propriedade pública e empresas estatais para reconstruir o país. Isso enfrentaria a crise climática, geraria empregos, reduziria a desigualdade e democratizaria a economia. Para financiar tudo isso, precisaríamos de bancos públicos e de um sistema financeiro parcialmente socializado, para que o capital fosse alocado democraticamente, e não por bancos privados.
Penso também na garantia de emprego, semelhante aos programas de obras públicas do New Deal, para que todos possam contribuir para a reconstrução da economia e para a transição a um sistema energético sustentável. E não acho que um Estados Unidos socialista poderia existir de forma isolada. Seria necessária uma cooperação profunda com a América Latina, o Canadá e o Sul Global, especialmente com países que sofrerão mais com as mudanças climáticas, apesar de terem contribuído menos para elas. Imagino algo como uma União dos Estados Americanos, um projeto regional integrado baseado em desenvolvimento compartilhado, infraestrutura e solidariedade.
No plano global, acredito que uma América socialista deveria se opor tanto à unipolaridade norte-americana quanto a uma visão simplista de multipolaridade dominada por potências regionais. Em vez disso, precisaríamos de instituições internacionais democráticas mais fortes, de uma Organização das Nações Unidas mais poderosa e mais democrática e de uma cooperação real com países como a China em temas como clima, pobreza e inteligência artificial. Uma América socialista poderia dar um exemplo de como seria uma sociedade socialista democrática no cenário mundial.
Então, sim, é muita coisa. E, apesar de tudo, continuo otimista. Acho que podemos construir algo realmente melhor neste país.