A caminhada de Nikolas não foi protesto, foi marketing político
nikolas ferreira

A caminhada de Nikolas não foi protesto, foi marketing político

Caminhada de 240 km expôs desgaste físico e teatralidade de um líder em busca de projeção, alinhado às estratégias de líderes autoritários no mundo

Tatiana Py Dutra 31 jan 2026, 16:46

Foto: Instagram/Reprodução

A chamada “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, iniciada em 19 de janeiro pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), tornou-se palco de uma política de espetáculo que remete diretamente às estratégias de líderes populistas autoritários em outros países – de Donald Trump nos Estados Unidos a Viktor Orbán na Hungria – para transformar gestos simbólicos em capital político bruto para eleições futuras.

O ato, com percurso oficial de cerca de 240 km entre Paracatu (MG) e Brasília (DF), foi apresentado pelo parlamentar como um protesto contra condenações de apoiadores de Jair Bolsonaro e contra decisões do Supremo Tribunal Federal. Apesar de a Polícia Rodoviária Federal ter apontado riscos à segurança por pedestres na pista, acompanhando o percurso, a iniciativa foi mantida e ganhou grande visibilidade nas redes sociais.

Um dos registros mais reveladores do esmero com a própria imagem foi divulgado em vídeos oficiais do deputado e seus assessores: ao longo do trajeto, Nikolas teria sido filmado tirando os sapatos, colocando os pés no gelo e recebendo pomada – cenas geralmente associadas ao alívio de dores musculares intensas – enquanto assessores e aliados tentavam aliviar o desgaste físico evidente da caminhada prolongada.

A teatralidade dessas cenas lembra estratégias de construção de persona que líderes populistas usam para se aproximar emocionalmente de eleitores: mostrar “sofrimento” e sacrifício pessoal pela causa, ainda que assistido por assessores, segurança e aparato midiático. Em um dos registros internacionais captados pela Reuters, Nikolas chega a ser filmado sentado sobre o dorso de um apoiador carregando-o enquanto acena com a bandeira brasileira, uma imagem simbólica que merece ser lida como performance política — e não simplesmente como solidariedade espontânea de apoiadores.

O início da caminhada foi praticamente solitário, começando com apenas cerca de 20 pessoas ao seu lado em Paracatu, mas, à medida que percorria os primeiros dias, o grupo foi ganhando adesões de apoiadores e parlamentares aliados ao longo da BR-040, numa dinâmica reminiscentes de cenas clássicas do cinema em que um protagonista aparentemente simples é seguido por um número crescente de companheiros – lembrando metaforicamente o efeito narrativo de “Forrest Gump”, no qual um personagem caminha pelo país e inexplicavelmente atrai seguidores ao longo do caminho.

Essa acumulação de apoiadores não foi totalmente orgânica: políticos como o ex-vereador Carlos Bolsonaro e lideranças regionais se juntaram ao ato em diferentes trechos do percurso, reforçando que a caminhada, mais do que um gesto individual, funciona como veículo de projeção política coletiva da direita e da extrema direita no Brasil.

O episódio, além de expor o desgaste físico e a teatralidade calculada, revela uma leitura estratégica de Nikolas do cenário político: ele não apenas reproduz o repertório de confrontos com instituições (como fez ao criticar o STF e o presidente Lula nas redes), mas também transforma a própria fadiga em narrativa de combate – recurso comum em lideranças populistas que convertem desafios físicos ou pessoais em metáforas de resistência. Ao fim, a chegada em Brasília foi marcada por chuva forte e um raio que atingiu participantes, episódio que foi rapidamente incorporado à narrativa midiática do parlamentar como “provação e resistência”.

Nesse movimento, Nikolas demonstra que sua principal estratégia não está nas propostas de políticas públicas, mas na produção de imagens fortes e simples, capazes de viralizar e reforçar um discurso de confrontação permanente com “as elites” e “as instituições”. Esse estilo, lembrando o populismo de extrema direita internacional, busca transformar frustração social em lealdade política, usando rituais coletivos, emoções intensas e símbolos fáceis de replicar nas redes – tudo em função de 2026.

No fim, a caminhada mostra que Nikolas Ferreira não está apenas caminhando por uma causa declarada, mas pela construção de um personagem político em busca de projeção nacional, alinhado a práticas que ampliam o espaço da extrema direita no Brasil em detrimento de debates mais profundos sobre desigualdade, democracia e direitos sociais.

Resultados práticos

A ascensão de Nikolas Ferreira  como principal liderança emergente da extrema direita brasileira não é um fenômeno isolado nem original. Seu estilo político, ancorado em retórica agressiva, apelos morais simplificados, uso sistemático da desinformação e construção de inimigos internos, dialoga diretamente com o manual do populismo autoritário que impulsionou figuras como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán e Santiago Abascal no cenário internacional.

Com mais de 40 milhões de seguidores nas redes sociais, Nikolas transformou o ambiente digital em seu principal campo de batalha política. Assim como Trump nos Estados Unidos, o deputado mineiro aposta em mensagens curtas, emocionalmente carregadas e frequentemente falsas, capazes de mobilizar ressentimentos sociais e deslegitimar instituições democráticas. O vídeo em que acusou, sem provas, o governo Lula de tentar taxar o Pix – informação desmentida por órgãos oficiais e por agências independentes de checagem – ultrapassou 350 milhões de visualizações e produziu desgaste político real ao Executivo.

A estratégia é conhecida. Especialistas em extremismo apontam que a repetição de mentiras simples, mesmo após desmentidos públicos, é central para o populismo de extrema direita. O objetivo não é convencer pela verdade, mas criar uma narrativa permanente de conflito entre “o povo” e “as elites”, conceito vago que engloba imprensa, Judiciário, universidades e adversários políticos. Em Brasília, durante o discurso que encerrou sua caminhada entre Minas Gerais e o Distrito Federal, Nikolas seguiu esse roteiro ao atacar diretamente o Supremo Tribunal Federal e o presidente da República. “Alexandre de Moraes, o Brasil não tem medo de você. Lula, o Brasil não tem medo de você”, gritou, ecoando a retórica de confronto típica de líderes autoritários.

A marcha, organizada em defesa de Jair Bolsonaro e dos condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro, não produziu qualquer efeito institucional. Ainda assim, cumpriu uma função política essencial: reforçar o culto à liderança, mobilizar uma base radicalizada e reposicionar Nikolas como sucessor natural do bolsonarismo. O gesto lembra as encenações políticas promovidas por Viktor Orbán na Hungria ou por Matteo Salvini na Itália, nas quais manifestações de rua funcionam menos como pressão democrática e mais como demonstrações simbólicas de força.

Segundo levantamento da consultoria Bites, a caminhada gerou 107 milhões de interações nas redes sociais em apenas uma semana, superando a repercussão digital do presidente Lula e memso da indicação do filme O Agente Secreto ao Oscar. À Veja, o diretor da Bites,  André Eler, disse que Nikolas mostrou que “é capaz de produzir fatos novos” e ativar uma militância que permanece órfã de Bolsonaro. Trata-se de um capital político construído não a partir de propostas concretas, mas da exploração contínua do conflito e da indignação.

Outro elemento central do discurso de Nikolas é a instrumentalização da religião, prática recorrente em movimentos fascistas históricos e contemporâneos. Ao se apresentar como alguém “escolhido” para “acordar o Brasil”, o deputado reforça uma lógica messiânica que dispensa mediações institucionais e transforma adversários em inimigos morais. Essa retórica, comum entre líderes da extrema direita evangélica nos Estados Unidos e na América Latina, contribui para naturalizar ataques à democracia em nome de uma suposta missão divina.

No campo político, Nikolas já é tratado como peça-chave para 2026. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que pretende utilizá-lo como cabo eleitoral em disputas nacionais e chegou a projetá-lo como futuro presidente da República. Governadores e dirigentes conservadores veem no deputado um comunicador capaz de “oxigenar” a direita, especialmente entre jovens – um público historicamente disputado por movimentos autoritários em momentos de crise social.

A consolidação de Nikolas Ferreira como liderança nacional da extrema direita sinaliza que o bolsonarismo não apenas sobreviveu à derrota eleitoral de 2022, como busca se reorganizar a partir de novos rostos, mas com velhas práticas. O deputado mineiro encarna uma versão atualizada do populismo autoritário global: jovem, hiperconectado, hostil às instituições democráticas e disposto a transformar desinformação em projeto de poder. O desafio colocado para 2026 não é apenas eleitoral, mas democrático.


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