Pela jornada de trabalho de 180 horas no Clínicas
O HCPA tem a obrigação de ser modelo não apenas na assistência, no ensino e na pesquisa, mas também nas relações de trabalho
Foto: HCPA/Divulgação
O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) é um gigante da saúde pública, referência universitária e principal centro de alta complexidade do Rio Grande do Sul. Essa excelência, no entanto, convive com um problema grave e persistente: a falta de valorização adequada de seus trabalhadores e trabalhadoras. A reivindicação pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial é urgente, legítima e exige resposta concreta do Poder Público e da gestão do hospital.
Vinculado ao Ministério da Educação (MEC) e à UFRGS, o HCPA tem a obrigação de ser modelo não apenas na assistência, no ensino e na pesquisa, mas também nas relações de trabalho. O atual modelo de jornadas extensas tem gerado desgaste crônico, adoecimento, aumento do absenteísmo e prejuízos à saúde física e mental dos profissionais. Não se trata apenas de cansaço, mas de um problema estrutural que compromete a sustentabilidade do atendimento prestado à população.
A redução da jornada não é um privilégio, mas uma medida estratégica amplamente respaldada por experiências nacionais e internacionais. Profissionais mais descansados trabalham melhor, com mais foco, segurança e qualidade, beneficiando diretamente os usuários do sistema público de saúde. Em um hospital que atende pacientes de todo o Estado e de regiões vizinhas, cuidar de quem cuida é condição essencial para manter a excelência.
Essa pauta ganha ainda mais relevância quando observamos a realidade de gênero no setor da saúde. As mulheres compõem a maioria da força de trabalho do HCPA e são as mais impactadas pelas jornadas prolongadas, que se somam à sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados. A redução da jornada é uma política concreta de equidade, que contribui para enfrentar a tripla jornada, reduzir desigualdades e ampliar as condições para que as mulheres possam desenvolver plenamente suas carreiras.
O debate sobre a redução da jornada de trabalho está colocado no Brasil e no mundo, com projetos em tramitação no Congresso Nacional e respaldo das diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Avançar em direitos trabalhistas é também investir em um país mais saudável, justo e produtivo. Por isso, a inércia diante dessa demanda é inaceitável.
A reivindicação dos trabalhadores do HCPA foi formalizada pelo Sindisaúde-RS, aprovada em assembleia geral em fevereiro de 2024, e apresentada oficialmente à direção do hospital. Houve, inclusive, manifestação inicial de interesse da gestão em estudar alternativas e a indicação de representantes para uma comissão de negociação. A discussão deve abranger todas as carreiras com jornada contratual de 200 horas mensais, reforçando o caráter amplo e sistêmico da pauta. O que falta agora é compromisso político e celeridade.
É impossível ignorar o contraste entre os inúmeros prêmios e reconhecimentos recebidos pelo HCPA — como o título de melhor hospital público da América Latina e a acreditação internacional da JCI — e a realidade de adoecimento e exaustão vivida pelos trabalhadores da linha de frente. Não pode haver verdadeira excelência construída sobre o sacrifício permanente de quem sustenta o funcionamento do hospital.
A proposta de redução da jornada de 200 para 180 horas mensais, sem redução salarial, é a resposta mais imediata e necessária para enfrentar esse quadro. Valorizar o trabalho humano precisa deixar de ser apenas discurso e se tornar prática efetiva. Não há como ser referência em saúde pública se a força de trabalho está à beira do esgotamento.
Como patrimônio do Rio Grande do Sul e do Brasil, o HCPA deve liderar pelo exemplo. É responsabilidade do MEC e da gestão do hospital dar encaminhamento imediato a essa pauta, demonstrando coerência com a missão pública da instituição. A saúde do trabalhador é parte indissociável da qualidade do serviço prestado à população. Profissionais valorizados e com condições dignas de trabalho são condição para que o HCPA siga cumprindo seu papel estratégico para o SUS e para a sociedade. A hora de agir é agora.
*Texto publicado originalmente no Sul 21