Relações perigosas
Conexões entre famílias de Dias Toffoli e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ampliam suspeitas sobre conflitos de interesse em meio ao maior ressarcimento da história do FGC
Foto: Andressa Anholete/STF
Enquanto o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) inicia o pagamento de cerca de R$ 40,6 bilhões a aproximadamente 800 mil credores do Banco Master, o escândalo que envolve a instituição ganha um novo e explosivo capítulo: as supostas relações comerciais entre familiares do presidente do banco, Daniel Vorcaro, e parentes do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, responsável por decisões centrais na condução das investigações. O episódio lança dúvidas sobre a imparcialidade do Judiciário num caso que já mobiliza a Polícia Federal, o Banco Central e atinge em cheio pequenos investidores.
Segundo informações da CNN Brasil, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é o único cotista de um fundo que investiu cerca de R$ 20 milhões no fundo Arleen, que adquiriu participação na Tayayá Administração e Investimento, proprietária de um resort no interior do Paraná. O empreendimento pertencia a um primo e dois irmãos de Dias Toffoli – Mário Umberto Degani, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli -, estabelecendo uma ligação financeira indireta entre os familiares do banqueiro investigado e os parentes do ministro.
A transação ocorreu em 2020 e apenas no ano passado os familiares do ministro teriam vendido sua participação para um único proprietário do resort. O caso ganha ainda mais relevância diante de decisões consideradas atípicas de Toffoli na condução do inquérito, como retirar o processo da primeira instância, decretar sigilo absoluto, determinar acareações com diretor do Banco Central e investigados e escolher pessoalmente os peritos.
A controvérsia se agravou com a revelação de que Toffoli passou o réveillon no resort Tayayá justamente quando conduziu, por telefone, acareação e depoimentos de Daniel Vorcaro e outros envolvidos, em 30 de dezembro. O artigo 145 do Código de Processo Civil prevê a suspeição do magistrado em casos de amizade, ligação ou parentesco em primeiro ou segundo grau.
“Situações que indiquem proximidade ou vínculo econômico são incompatíveis com a exigência de imparcialidade”, avaliou o professor de Direito Processual Lenio Streck, em entrevista a CNN.
A tensão aumentou após Toffoli criticar e ameaçar a Polícia Federal depois de uma operação em que Fabiano Zettel foi preso ao tentar embarcar para Dubai. Para a cientista política Vera Malaguti, “a tentativa de constranger a PF e controlar a narrativa reforça a percepção de que há algo a esconder”.
Ressarcimento às vítimas
No domingo, o FGC informou que já recebeu 369 mil pedidos de ressarcimento e que os pagamentos começam nesta segunda-feira (19), à vista, para investidores que compraram CDBs do Banco Master. O volume e a capilaridade da operação expõem a dimensão social do colapso: milhares de famílias dependem agora do fundo para recuperar economias de uma vida. Para o economista Paulo Kliass, “o episódio revela a face mais perversa da financeirização: quando a engrenagem falha, o custo recai sobre pequenos poupadores, enquanto a elite tenta blindar seus interesses por meio de conexões políticas”.
Entre ressarcimentos bilionários e decisões judiciais contestadas, o caso Banco Master deixa claro que a apuração precisa avançar com independência e luz do dia. As conexões entre as famílias Toffoli e Vorcaro, ainda que indiretas, impõem um teste decisivo à credibilidade das instituições – e à promessa constitucional de que a Justiça não tem dono.