Trump testa o mundo ao ameaçar anexar a Groenlândia
Após intervir ilegalmente na Venezuela, presidente dos EUA amplia ofensiva imperialista enquanto ONU e potências ricas assistem em silêncio
Foto: Reprodução
Dias depois de ordenar uma intervenção ilegal contra a Venezuela, Donald Trump voltou a escancarar sua política externa agressiva ao admitir que avalia diferentes caminhos para anexar a Groenlândia – inclusive o uso das Forças Armadas. Segundo a Casa Branca, “adquirir a Groenlândia é uma prioridade para a segurança nacional dos Estados Unidos”, e recorrer ao Exército é “sempre uma opção”. A declaração não apenas afronta a soberania de um território semiautônomo ligado à Dinamarca, como expõe a naturalização do expansionismo militar norte-americano em pleno século XXI.
Em entrevista recente, Trump foi direto ao justificar a ameaça:
“Nós precisamos da Groenlândia, com certeza. Precisamos dela para a defesa”.
O argumento da “segurança nacional” repete o mesmo roteiro usado dias antes na Venezuela, quando tropas dos EUA prenderam Nicolás Maduro e passaram a exigir do país 50 milhões de litros de petróleo. A própria ONU reconheceu que a operação contra Caracas “violou um princípio fundamental do direito internacional”, mas, mais uma vez, a reação ficou restrita a notas diplomáticas sem qualquer consequência prática.
A ofensiva sobre a Groenlândia provocou respostas mais duras de autoridades locais e do governo dinamarquês. A primeira-ministra Mette Frederiksen alertou que uma ação militar norte-americana significaria “o fim da aliança militar da Otan”, afirmando que, se os EUA atacarem outro país do bloco, “tudo para”. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, também foi enfático:
“Nosso país não está à venda e nosso futuro não é decidido por postagens em redes sociais”, disse, ao reagir a uma provocação feita por aliados de Trump nas redes.
Paralisia global
Ainda assim, o coro de críticas não se converte em enfrentamento real. Países europeus reafirmam a soberania da Groenlândia, mas evitam qualquer medida concreta contra Washington. A razão é política e econômica: as potências ricas temem retaliações comerciais, novas tarifas e, sobretudo, o abandono dos EUA em outros tabuleiros estratégicos, como o conflito com a Rússia.
A ONU, por sua vez, foi sistematicamente esvaziada ao longo dos últimos anos e já não dispõe de mecanismos de enforcement capazes de conter violações cometidas pela maior potência militar do planeta.
O silêncio cúmplice diante das ambições desmedidas de Trump revela a seletividade do chamado “direito internacional”. Quando o alvo é um país do Sul Global, como a Venezuela, ou um território estratégico rico em recursos naturais, como a Groenlândia, as regras parecem flexíveis – ou simplesmente ignoradas. Sobra à diplomacia mundial a repetição de repúdios inócuos, enquanto o presidente norte-americano avança, testa limites e debocha das instituições multilaterais.
No fim, como aponta o próprio debate interno nos Estados Unidos, o único freio possível a Trump não vem da ONU nem das potências ricas, mas da pressão social e política dentro do seu próprio país. Até lá, a ameaça de anexações e intervenções segue como instrumento de um imperialismo sem disfarces, que transforma soberania alheia em moeda de troca e reduz a ordem internacional a um jogo de força bruta.