A arte contra o fascismo
Bad Bunny

A arte contra o fascismo

Artistas transformam o Grammy em palco de denúncia contra a violência do ICE e a política migratória de Trump, ecoando uma onda global de manifestações contra governos autoritarios

Tatiana Py Dutra 3 fev 2026, 09:47

Foto: Reprodução

Algumas das maiores estrelas da música internacional transformaram a cerimônia do Grammy, no último domingo (1º), em um potente ato político contra a escalada autoritária do governo de Donald Trump e a violência do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Em meio ao glamour de uma das maiores premiações da indústria cultural, artistas denunciaram operações migratórias marcadas por truculência, mortes de civis e separação de famílias, reafirmando o papel histórico da arte como trincheira antifascista.

O momento mais simbólico da noite veio com Bad Bunny, que entrou para a história ao se tornar o primeiro artista a vencer o Grammy de Álbum do Ano com um disco inteiramente em espanhol. Ao subir ao palco, o cantor porto-riquenho foi direto:

“Antes de agradecer a Deus, vou dizer ‘fora, ICE’”, arrancando aplausos da plateia. Em outro discurso, o artista reforçou a mensagem: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.

A fala de Bad Bunny ecoa um sentimento crescente nos Estados Unidos diante das operações federais que têm aterrorizado comunidades imigrantes. Em janeiro, ações do ICE resultaram na morte de dois cidadãos americanos, alimentando protestos nacionais e ampliando críticas à política migratória de Trump, acusada de agir de forma indiscriminada, racista e violenta.

Outra das vozes mais contundentes da noite foi Billie Eilish, uma das maiores cantoras americanas da atualidade, vencedora do Grammy de Canção do Ano. Usando um broche com os dizeres “ICE OUT”, ela afirmou: 

“Ninguém é ilegal em uma terra roubada”, encerrando sua fala com um direto “foda-se o ICE”. A declaração foi recebida como um gesto explícito de solidariedade aos imigrantes e de enfrentamento à normalização da violência estatal.

O protesto não se restringiu aos discursos. Diversos artistas desfilaram pelo tapete vermelho com broches contra o ICE, entre eles Justin e Hailey Bieber, Joni Mitchell, Kehlani e Jordan Tyson, sinalizando que a oposição à política migratória de Trump atravessa gerações e gêneros musicais. A cantora Gloria Estefan, ao receber o Grammy de Melhor Álbum Latino Tropical, denunciou: 

“Há centenas de crianças em centros de detenção. Isso é desumano. Eu não reconheço meu país neste momento”.

A canção de Springsteen

As manifestações dos músicos ressoam com um contexto maior de crítica artistica à violência estatal e ao fascismo explícito. Um exemplo recente veio de Bruce Springsteen, a lenda do rock americano, que gravitou uma nova canção intitulada Streets of Minneapolis em resposta ao que chamou de “terror de Estado que assola a cidade de Minneapolis”, em homenagem às vidas de Alex Pretti e Renee Good, civis mortos por agentes do ICE em janeiro. A música foi composta, gravada e lançada em poucos dias, dedicada “ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good”, disse o artista nas redes sociais.

Trechos da letra deixam claro o tom de urgência e denúncia:

‘Os capangas federais de Trump espancaram

Seu rosto e seu peito

Então ouvimos os disparos

E Alex Pretti jazia na neve, morto

A repercussão foi imediata: a música, além de liderar rankings de tendências, abriu um novo capítulo de engajamento artístico contra as políticas migratórias violentas. A Casa Branca chegou a reagir publicamente, chamando a canção de “irrelevante” em uma tentativa de minimizar a crítica direta ao governo – o que apenas fortaleceu a visibilidade do protesto cultural.

Atores na trincheira

As manifestações de artistas não são um caso isolado de engajamento político. Em premiações cinematográficas recentes, atores também usaram seus momentos de visibilidade para denunciar autoritarismos e crimes de Estado. No Festival de Sundance, por exemplo, figuras como Natalie Portman e Olivia Wilde apareceram com broches “ICE OUT”, alinhando-se à mesma causa denunciada no Grammy — numa clara demonstração de que a cultura não se cala diante das injustiças.

No Oscar, SAG Awards e no Festival de Cannes, artistas como Jane Fonda, Mark Ruffalo, Susan Sarandon e Joaquin Phoenix vêm utilizando seus discursos para denunciar o autoritarismo, o racismo institucional e a criminalização de migrantes. Esses gestos reforçam uma tradição histórica de resistência cultural diante do avanço de projetos políticos fascistas, que buscam transformar medo e ódio em política de Estado.

Outras batalhas

A história da arte como espaço de resistência contra o fascismo é longa. Movimentos como o dos Guerrilla Girls, que questionaram a falta de diversidade e o eurocentrismo na premiação do Oscar com intervenções públicas e outdoors críticos, mostram como artistas historicamente confrontam políticas excludentes que reproduzem desigualdades profundas nas instituições culturais.

Ao mesmo tempo, artistas musicais como Bob Vylan participaram de festivais como Glastonbury exibindo mensagens políticas fortes – no caso deles, em apoio à Palestina e contra estruturas de violência – demonstrando que a música pode ser um instrumento de crítica global a políticas autoritárias e injustas mundo afora.

No contexto brasileiro e latino-americano, essa tradição ressoa em eventos como o festival The Town, em São Paulo, onde bandas como Green Day, Bad Religion, Capital Inicial e CPM 22 transformaram seus palcos em espaços de protesto contra o fascismo e a desigualdade, chamando a atenção para a urgência de resistência cultural e política.

Esses episódios reforçam que a arte, mais do que mero entretenimento, é campo de disputa política e trincheira contra o fascismo, a xenofobia e a violência estatal. Ao usar seus microfones, tapetes vermelhos e telas para denunciar injustiças – seja na música, no cinema ou nas artes visuais -, artistas contribuem para manter acesa a chama da solidariedade, da memória histórica e da resistência democrática.


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