A ocupação da Cargill é um símbolo da resistência
A vitória da luta dos indígenas será um freio contra a devastação do meio ambiente e um sinal para toda as lutas do país
A luta dos indígenas da região do Baixo Tapajós está dando um exemplo para todo país.
Já são 19 dias de ocupação da Cargill. A ocupação é parte da luta contra a privatização dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, incluídos no Programa Nacional de Desestatização (PND) via Decreto nº 12.600/2025. Neste intervalo, há 7 dias, os povos indígenas do Baixo Tapajós – estima-se que 7 mil indígenas de 14 etnias diferentes – também ocuparam a única via de acesso ao Aeroporto Internacional de Santarém. Em que pese o recuo do governo, que suspendeu a dragagem do Rio Tapajós, o espírito de combate do movimento indígena do Oeste do Pará se mantém vivo exigindo a revogação do Decreto nº 12.600.
Uma luta que segue
Os indígenas do estado do Pará estão na vanguarda da luta política do país. No começo de 2025, protagonizaram uma luta importante, junto ao sindicato da educação, com uma ocupação radicalizada na Secretária de Educação do Pará, quebrando a espinha da política de Helder Barbalho, que atacava direitos fundamentais da educação indígena.
Foram os mesmos indígenas – tanto do Baixo Tapajós quanto dos outros povos – que tomaram a cena durante a COP-30 denunciando o caráter excludente e farsesco desse espaço, na ousada ação independente que ocupou a Blue Zone. Fomos parte dessa unidade de ação exemplar que, além de ter internacionalizado a denúncia de fundo da COP-30, também colocou na ordem do dia a luta contra a privatização dos rios, que já estava em curso desde 28 de agosto de 2025 com a publicação oficial do governo.
Naquele momento, já no exercício da função de Ministro-Chefe da Secretária Geral do governo Lula, Guilherme Boulos anunciou no encerramento da Cúpula dos Povos que haveria consulta livre, prévia e informada a todos os povos da região antes de qualquer medida nos rios em questão, conforme prevê a Convenção 169 da OIT. Isso ainda não aconteceu, tampouco revogou-se o decreto. Ao contrário, até a ação radicalizada do movimento indígena, o governo pretendia avançar com a dragagem do Rio Tapajós, indispensável para torná-lo um corredor navegável para as grandes embarcações do agronegócio – como da multinacional Cargill, com sede em Minnesota, do ramo da soja.
Implicações gerais e disputa de projetos
Este novo choque entre o movimento indígena e o agronegócio, principal interessado na privatização dos rios da região, sinaliza a disputa entre projetos de Brasil, isto é, a disputa pela soberania nacional e dos territórios diante de uma situação marcada pela ofensiva imperialista na América Latina. A escolha governamental por fortalecer o modelo agroexportador neste caso, além de violar os direitos dos povos indígenas e os seus territórios, subordina o país aos interesses do capital privado e ao seu projeto “ecocida” de acelerada destruição ambiental.
A ação do imperialismo sob Trump nesta disputa pela ordem mundial envolve não só a Estratégia Nacional de Segurança, com a reabilitação da Doutrina Monroe, mas também a disputa pelo controle estratégico de terras raras e minerais críticos, como revela o “Projeto Vault” que tem na América Latina seu terreno decisivo.
Tudo isto torna fundamental a luta no Baixo Tapajós, cuja primeira vitória parcial se inscreveu na força da prolongada mobilização independente e combativa do movimento indígena. É um exemplo para o Brasil e a sinalização dos projetos em disputa na realidade.
Nossas tarefas
Nossa independência política, sem negar a necessidade da unidade, é o que garante a coerência para colocar toda força no apoio à luta dos povos indígenas. É uma luta que enseja a ilustração do atual quadro político, onde o suposto pragmatismo do governo é na verdade a escolha de um lado: o do agro, o dos poderosos, os que seguem devastando o meio ambiente.
A vitória da luta dos indígenas será um freio contra a devastação do meio ambiente e um sinal para toda as lutas do país. A melhor forma de combater a extrema direita é sendo consequente com as bandeiras de luta.
Precisamos cerca de solidariedade essa luta!