As lições de Minnesota e os passos a seguir

As lições de Minnesota e os passos a seguir

A batalha, noticiada pela mídia mundial, segue em aberto

Estados Unidos Hoje da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco

            Os Estados Unidos encontram-se em um novo momento político, forjado pela resistência heroica da população de Minneapolis, que gerou solidariedade nacional. A batalha, noticiada pela mídia mundial, segue em aberto. Por um lado, Trump consolida recuos parciais, temendo o colapso no financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS). Ele afastou o antigo chefe de operações do ICE em Minneapolis, Gregory Bovino, e retirou cerca de 1/3 do total de agentes na cidade. Por outro lado, a intervenção continua. Há milhares de pessoas injustamente presas, dezenas de ativistas feridos e nenhum sinal de justiça para as mortes de Renee Good e Alex Pretti. Assim, as mobilizações não cessaram, e seguem expressando uma enorme disposição de luta contra a criminalização dos imigrantes, o racismo e o nefascismo.

Cronologia do novo momento político

            O novo momento político, que é nacional, pode ser definido em torno de três momentos: as manifestações em 23 de janeiro, em 30 de janeiro e as iniciativas ocorridas no final de semana subsequente (31 de janeiro e 1 de fevereiro).

            Em 23 de janeiro, em resposta ao assassinato de Renee Good, cerca de 75 mil pessoas saíram às ruas de Minneapolis. Escolas e museus da cidade fecharam. Cerca de 1000 pequenos comércios fizeram o mesmo. Convocada como o “Dia da Verdade e da Liberdade”, a sexta-feira adquiriu caráter de greve geral municipal, pois, ainda que a maior parte dos setores produtivos não tenha paralisado, a cidade parou. Assim, tratou-se da primeira experiência desse tipo nos Estados Unidos desde 1946, ano da última greve geral no país, em Oakland (Califórnia). A construção da data, iniciada por grupos comunitários de resistência ao ICE, ganhou adesão dos sindicatos da cidade, pressionados pela base. E a resistência em Minneapolis inspirou manifestações em todo o país.

            Em 30 de janeiro, já após o assassinato de Alex Pretti, houve uma nova rodada de manifestações e paralisações. Por um lado, a ideia de “greve geral” em escala nacional não foi além da agitação. Por outro, a comoção ao redor do país cresceu, inundando as redes sociais e, mais uma vez, as ruas, com protestos. De forma individualizada, milhares de trabalhadores faltaram ao trabalho ou requisitaram folga por “razões de saúde”. Em um exemplo simbólico, a produção da série Grey’s Anatomy foi interrompida devido à adesão dos membros da equipe à paralisação.

No final de semana seguinte, 31 de janeiro e 1 de fevereiro, uma multiplicidade de atos pequenos ou médios ocorreram no país, com protagonismo de setores distintos. Ao mesmo tempo, proliferaram as reuniões, presenciais e online, de auto-organização comunitária para responder às ações do ICE. Mesmo cidades que não estão atualmente sob intervenção ostensiva passaram a ter, preventivamente, um alto nível de preparação para o pior cenário.

Em Nova York, 1000 ativistas participaram de um treinamento promovido pelo grupo Hands Off New York City. Plenárias acontecem em estados como Califórnia, Wisconsin e Maine. Em New Jersey, 1000 ativistas participaram da reunião convocada pelo vereador da cidade, Jake Ephros (membro do DSA), após o ICE realizar 3 prisões em Jersey City.

Nesses espaços, grandes contingentes sociais, medidos na escala de dezenas ou centenas de milhares de pessoas, estão sendo treinados para a ação: o que fazer ao ver o ICE no seu bairro, como utilizar os apitos, como apoiar vizinhos, como registrar vídeos e fotos, como se manifestar, quais são os seus direitos. Seja por convencimento ideológico ou por necessidade, estão se fortalecendo os laços comunitários e a rede de associações, grupos, sindicatos e igrejas que lutam contra a repressão à imigração.

Portanto, o novo momento político tem três aspectos qualitativos em relação a outras ondas de manifestações: 1) Ele contém um enorme impulso de auto-organização comunitária, indo além da ida às ruas; 2) Essa auto-organização prepara ações diretas e enfrentamentos físicos, ainda que priorizando a resistência pacífica, como tática correta para demonstrar de que lado está o autoritarismo; 3) Ele engendra estratégias mais amplas, ou pelo menos a vontade de encontrá-las, como a greve geral.

Trata-se de um enorme estímulo — uma razão para o “otimismo da vontade” — para aqueles que defendem o caminho da luta política e social para derrotar Trump.  

Qual o papel dos socialistas?

            Os socialistas têm por obrigação estar plenamente inseridos nessa luta. Isso, aliás, já tem acontecido, estando o Democratic Socialists of America (DSA) envolvido em múltiplas campanhas e iniciativas contra o ICE.

            É fundamental que os socialistas expressem otimismo e confiança nos passos a serem dados pelo movimento de massas. Ao mesmo tempo, busquem apontar caminhos que evitem a dispersão da energia após o ascenso, tendência comum no país e no mundo. Cabe aos setores organizados mais conscientes conectar ações “no terreno” com ações políticas amplas, orientadas pelos objetivos maiores de acossar o projeto trumpista e ampliar a luta pela abolição do ICE. Fundamentalmente, é preciso seguir defendendo a ideia de que apenas a mobilização de massas pode trazer transformações e derrotar Trump. E ampliar a auto-organização popular é estratégico para conseguir atravessar momentos de fluxo e refluxo nas ações tanto do movimento quanto do governo.

            Podemos sintetizar três tarefas centrais para os socialistas nesse momento:

  1. Entender a centralidade da ampla unidade de ação contra o ICE. Isso significa integrar e respeitar as redes de auto-organização popular que estão sendo criadas ou que já existem. Respeitar e estabelecer relações com demais organizações envolvidas. Criar diretamente essas redes onde haja necessidade. Aprender as lições nesse rico processo, fazendo a experiência junto com os setores sociais mobilizados.
  •  Ser linha de frente nas ações. Para além dos atos de rua, que são muito importantes, o atual processo de luta tem sido marcado por ações exemplares. Isso inclui enfrentamentos de rua e ações focadas de protesto, a exemplo das que visam empresas e serviços conectados ao ICE nas cidades. “Ações de massa” e “ações exemplares”conectam-se dialeticamente e aos socialistas cabe buscar atuar em ambas, sempre respeitando o papel de demais setores envolvidos.
  • Fortalecer uma organização e ações políticas amplas. O horizonte de que uma “greve geral” é necessária para derrotar Trump e o ICE é correto, mas dificilmente será alcançado apenas pela agitação dessa ideia. Entretanto, não se trata também de defender o “etapismo” na construção política. É necessário, a um só tempo, enraizar a mobilização nos setores da classe trabalhadora e estar atento aos fatos políticos que podem desencadear — ou tornar extremamente necessária — uma ação de tipo superior. Para modular o ritmo dessa luta, é necessário ampliar a consciência política, e para isso o protagonismo de organizações socialistas é fundamental.

Nos últimos 10 anos, o DSA tem passado por inúmeros testes e acumulado experiência. Entre acertos e erros, a organização cresce em tamanho e influência. Embora não seja a única no campo da esquerda socialista e revolucionária, é certamente a mais ampla e capaz de desencadear processos massivos. Também é uma organização capaz de atuar dentro e fora do terreno eleitoral com uma política independente, algo fundamental tendo em vista a centralidade que as eleições de meio de mandato podem adquirir. O mesmo vale para o terreno sindical, no momento dinamizado pelas greves da enfermagem em Nova York e dos educadores da Califórnia.

Comumente, diante de enormes processos de luta, o ativismo do DSA olha ao redor e se sente, ainda, insuficiente. Porém, olhando em perspectiva, esse mesmo ativismo encontra-se, agora, em condições muito melhores para intervir do que no passado. E as oportunidades devem ser aproveitadas decididamente.

Por fim, é necessário reafirmar a importância do internacionalismo, mesmo para as lutas mais locais. É cada vez mais claro que o projeto trumpista articula imperialismo e repressão interna. O ICE tem vínculos internacionais e é financiado por empresas transnacionais. O racismo por ele encetado insulta os povos do mundo.

Sob essa perspectiva, a presença de ativistas estadunidenses, de dentro e fora do DSA, na I Conferência Internacional Antifascista (Porto Alegre, Brasil, março de 2026) será estratégica, trazendo uma oportunidade de articulação e aprendizado entre milhares de ativistas antifascistas do mundo.


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