As lutas do povo vão entrar na Avenida
Unidos da Tijuca

As lutas do povo vão entrar na Avenida

Carnaval de 2026 leva à Sapucaí e ao Anhembi enredos sobre reforma agrária, feminismo, negritude e defesa dos povos ancestrais  

Tatiana Py Dutra 13 fev 2026, 12:12

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

No Carnaval de 2026, as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro e de São Paulo transformam a Avenida em palco político e cultural, levando para o centro do maior espetáculo popular do país as lutas históricas de milhões de brasileiros. Em meio ao avanço do conservadorismo e à tentativa de esvaziar o sentido crítico da cultura, os desfiles reafirmam o samba como território de memória, resistência e disputa de narrativas, com enredos que celebram a negritude, o feminismo, o combate à pobreza, a reforma agrária e a defesa do meio ambiente e dos povos ancestrais. Neste texto, citamos alguns exemplos.

No Rio de Janeiro, a Portela aposta na ancestralidade negra com “O Mistério do Príncipe do Bará”, que revisita a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, líder africano do século 19 e referência central da religiosidade afro-gaúcha. A azul e branco de Madureira transforma o desfile em afirmação da força espiritual e histórica do povo preto, conectando o samba às raízes do batuque e às lutas contra o racismo estrutural. Já a Beija-Flor de Nilópolis, campeã do último carnaval, leva à Sapucaí o “Bembé do Mercado”, exaltando a maior celebração pública de candomblé do mundo, em Santo Amaro da Purificação, como símbolo de resistência religiosa e afirmação da liberdade negra frente à perseguição histórica às religiões de matriz africana.

A literatura e a denúncia social ganham destaque com a Unidos da Tijuca, que homenageia Carolina Maria de Jesus. O enredo recupera a potência política de Quarto de Despejo ao apresentar Carolina não apenas como vítima da pobreza, mas como intelectual insurgente, cuja escrita escancarou as desigualdades do país e segue inspirando mulheres negras das periferias. Na mesma linha de valorização dos saberes populares, a Estação Primeira de Mangueira apresenta “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”, celebrando as tradições afro-indígenas do Norte do Brasil por meio da figura de Raimundo dos Santos Souza, curandeiro e defensor dos povos da floresta no Amapá, em um enredo que conecta espiritualidade, território e preservação ambiental.

O feminismo também ocupa lugar central no carnaval carioca com a Mocidade Independente de Padre Miguel, que homenageia Rita Lee em “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”. A escola da Zona Oeste celebra a irreverência, a autonomia feminina e a transgressão como valores políticos, reafirmando o direito das mulheres à liberdade de expressão, de corpo e de pensamento.

Em São Paulo, os enredos seguem a mesma trilha de engajamento social. Estreante no Grupo Especial, a Mocidade Unida da Mooca leva ao Anhembi “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra e ao feminismo negro, destacando a força política das mulheres negras e reverenciando intelectuais e ativistas como Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e Conceição Evaristo. O desfile transforma o samba em manifesto contra o racismo, o sexismo e a exclusão social.

A ancestralidade indígena e a defesa do meio ambiente ganham corpo com a Dragões da Real, que apresenta “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”. Inspirado nas lendas amazônicas, o enredo associa a bravura das mulheres indígenas à urgência da preservação da floresta, afirmando que não há futuro sem respeito à natureza e aos povos originários.

Já a luta pela terra e contra a desigualdade no campo será tema da Acadêmicos do Tatuapé, que aposta em “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”. Inspirado na defesa da reforma agrária e da agricultura familiar, o enredo denuncia a concentração fundiária e ecoa reivindicações históricas dos trabalhadores rurais, conectando o carnaval às batalhas concretas por justiça social e soberania alimentar.

Entre tamborins e alegorias, o Carnaval de 2026 reafirma que o samba não é apenas festa: é linguagem política, memória viva e ferramenta de mobilização popular. No Rio e em São Paulo, as escolas mostram que a Avenida segue sendo espaço onde o povo conta sua própria história — e luta para transformá-la.

Confira a programação dos desfiles: 

São Paulo

Sexta-feira, 13 de fevereiro

  • Mocidade Unida da Mooca
    Enredo: “GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin”
    Resumo: Homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra, exaltando a força do feminismo negro e os saberes das mulheres negras. O desfile reverencia trajetórias como as de Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, Laudelina de Campos Melo e Conceição Evaristo
  • Colorado do Brás
    Enredo: “A Bruxa está solta! Senhoras do saber renascem na Colorado”
    Resumo: Releitura histórica da figura das bruxas, ressignificando mulheres perseguidas por seus conhecimentos. O enredo celebra liberdade, ancestralidade e resistência feminina, retirando a “bruxa” da fogueira para coroá-la rainha
  • Dragões da Real
    Enredo: “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”
    Resumo: Viagem mítica pela Amazônia para contar a história das Icamiabas, guerreiras indígenas que simbolizam coragem, autonomia feminina e a defesa do meio ambiente
  • Acadêmicos do Tatuapé
    Enredo: “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”
    Resumo: Enredo engajado inspirado na luta pela reforma agrária, valorizando a agricultura familiar e a resistência camponesa, com reconhecimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
  • Rosas de Ouro
    Enredo: “Escrito nas Estrelas”
    Resumo: A campeã paulista de 2025 leva ao Anhembi uma viagem pelo universo da astrologia, da criação do cosmos à influência dos astros na vida contemporânea
  • Vai-Vai
    Enredo: “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”
    Resumo: Homenagem à Companhia Cinematográfica Vera Cruz e à cidade de São Bernardo do Campo, celebrando o cinema nacional, a cultura popular e o ABC Paulista
  • Barroca Zona Sul
    Enredo: “Oro Mi Maió Oxum”
    Resumo: Exaltação à orixá Oxum, celebrando as águas doces, o amor, a fertilidade e a proteção, em um desfile marcado pela espiritualidade afro-brasileira

Sábado, 14 de fevereiro 

  • Império de Casa Verde
    Enredo: “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”
    Resumo: Homenagem às escravas de ganho, mulheres negras que trabalharam nas ruas para conquistar autonomia e liberdade, simbolizadas na figura de Dona Fulô.
  • Águia de Ouro
    Enredo: “Mokum Amsterdã: o voo da Águia à cidade libertária”
    Resumo: Viagem cultural pela história e pelos valores de Amsterdã, relacionando Brasil e Holanda, com destaque para liberdade, sustentabilidade e heranças históricas.
  • Mocidade Alegre
    Enredo: “Malunga Léa – A Rapsódia de uma Deusa Negra”
    Resumo: Tributo à atriz Léa Garcia, exaltando sua luta por representatividade negra no teatro, cinema e televisão brasileiros
  • Gaviões da Fiel
    Enredo: “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã”
    Resumo: Celebração da memória, da resistência e do futuro dos povos indígenas, unindo espiritualidade, defesa da floresta e crítica à violência histórica sofrida por esses povos
  • Estrela do Terceiro Milênio
    Enredo: “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”
    Resumo: Homenagem ao compositor Paulo César Pinheiro, celebrando sua obra e, por extensão, todos os poetas do samba e da MPB
  • Tom Maior
    Enredo: “Chico Xavier. Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”
    Resumo: A trajetória espiritual do médium Chico Xavier é contada a partir da cidade de Uberaba, unindo fé, espiritualidade e cultura mineira
  • Camisa Verde e Branco
    Enredo: “Abre Caminhos”
    Resumo: Celebração das múltiplas manifestações de Exu, orixá das encruzilhadas e da comunicação, desmistificando preconceitos e valorizando as religiões de matriz africana

Rio de Janeiro

Domingo, 15 de fevereiro

  • Acadêmicos de Niterói
    Enredo: “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”
    Resumo: A escola estreia no Grupo Especial contando a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, do agreste pernambucano à Presidência da República, exaltando o combate à fome, a ascensão do povo trabalhador e a defesa da soberania nacional
  • Imperatriz Leopoldinense
    Enredo: “Camaleônico”
    Resumo: Homenagem à vida e à carreira de Ney Matogrosso, celebrando sua versatilidade artística, a transgressão estética e a luta pela liberdade de expressão na música brasileira
  • Portela
    Enredo: “O Mistério do Príncipe do Bará”
    Resumo: Resgate da história de Custódio Joaquim de Almeida, líder africano do século 19 e símbolo da ancestralidade afro-gaúcha, destacando a religiosidade de matriz africana e a resistência do povo preto
  • Estação Primeira de Mangueira
    Enredo: “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”
    Resumo: Celebração das tradições afro-indígenas do Norte do Brasil por meio da figura de Mestre Sacaca, curandeiro e defensor dos povos da floresta no Amapá, unindo espiritualidade e preservação ambiental

Segunda, 16 de fevereiro

  • Mocidade Independente de Padre Miguel
    Enredo: “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”
    Resumo: Tributo à Rita Lee, exaltando a liberdade, a irreverência e o feminismo que marcaram sua obra e sua trajetória artística
  • Beija-Flor de Nilópolis
    Enredo: “Bembé do Mercado”
    Resumo: Exaltação da maior celebração pública de candomblé do mundo, em Santo Amaro da Purificação (BA), como símbolo da resistência negra e da luta pela liberdade religiosa
  • Unidos do Viradouro
    Enredo: “Pra cima, Ciça”
    Resumo: Homenagem a Mestre Ciça, referência histórica do samba e da bateria da escola, celebrando sua trajetória, dedicação e importância para a cultura carnavalesca
  • Unidos da Tijuca
    Enredo: “Carolina Maria de Jesus”
    Resumo: A vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, destacando sua escrita como denúncia social e inspiração para mulheres negras das periferias

Terça-feira, 17 de fevereiro

  • Paraíso do Tuiuti
    Enredo: “Lonã Ifá Lukumi”
    Resumo: Viagem espiritual pelos caminhos do oráculo de Ifá, conectando as tradições iorubás do Brasil e de Cuba e exaltando a ancestralidade afro-diaspórica
  • Unidos de Vila Isabel
    Enredo: “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”
    Resumo: Inspirado na trajetória de Heitor dos Prazeres, o desfile celebra a Pequena África carioca, o samba e as memórias negras no Rio de Janeiro
  • Acadêmicos do Grande Rio
    Enredo: “A Nação do Mangue”
    Resumo: Homenagem ao movimento Manguebeat, ligando as periferias do Recife às da Baixada Fluminense e exaltando cultura popular, educação crítica e resistência social, com referências a Paulo Freire e Chico Science
  • Acadêmicos do Salgueiro
    Enredo: “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”
    Resumo: Encerrando o Grupo Especial, o Salgueiro homenageia Rosa Magalhães, referência máxima do carnaval, celebrando sua criatividade, legado artístico e paixão pela festa popular

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