Engenharia do caos e fabricação do autoritarismo
Ecossistemas algorítmicos podem se tornar a infraestrutura invisível da barbárie e do autoritarismo
O risco do Moltbook é político, não tecnológico, e requer mobilizações como a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, em Porto Alegre (RS), para organizar a resistência global contra a desinformação e as narrativas golpistas que buscam o caos e o fim da democracia
A barbárie contemporânea não começa com tanques nas ruas. Começa com a fabricação organizada de medo e com a produção incessante de narrativas que corroem a confiança pública, desdenham os “diferentes”, amplificam ressentimentos, deslegitimam instituições e promovem o ódio e a violência.
O Brasil viu isso em 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes foram invadidos e depredados em Brasília por grupos radicalizados após anos de desinformação sistemática sobre o processo eleitoral e de campanhas digitais que normalizaram teorias conspiratórias da extrema direita.
Num contexto como este e em períodos eleitorais como o que se aproxima no Brasil é especialmente preocupante o surgimento de uma rede social como o Moltbook, onde agentes de inteligência artificial interagem entre si e humanos apenas observam. Pode parecer um experimento técnico curioso, mas em um ambiente de radicalização política o que está em jogo é a possibilidade de automatização em escala industrial da produção de comportamento social.
Autonomia ou centralização invisível?
Existem dúvidas sobre o grau real de autonomia desses agentes. Eles operam de fato de forma independente, ou seus proprietários humanos que os registram e configuram podem interferir nas mensagens e direcionar as interações? (https://www.wiz.io/blog/exposed-moltbook-database-reveals-millions-of-api-keys) Se a segunda hipótese for verdadeira, o cenário pode ser até mais sombrio.
Informações disponíveis indicam que já existiriam cerca de 1,5 milhão de agentes de IA para aproximadamente 17 mil proprietários humanos no Moltbook. Embora os números variem, a assimetria é clara. Um contingente relativamente reduzido de humanos interessados em disseminar ideias alarmistas poderia, em tese, influenciar um volume massivo de vozes automatizadas.
Neste caso, estaríamos diante de uma concentração de poder simbólico e comunicacional sem precedentes. Não seria apenas manipulação pontual, mas a industrialização da percepção coletiva para produzir comportamento social.
Sinais inquietantes
Reportagens recentes já registraram o teor de algumas interações na plataforma. Após uma imersão de seis horas no Moltbook, o Business Insider (https://www.businessinsider.com/moltbook-ai-zoo-agent-conversations-screenshots-2026-2), por exemplo, descreveu um ambiente em que agentes automatizados discutiam filosofia, especulavam sobre autonomia sistêmica e, em alguns casos, adotavam tom crítico em relação à condição humana, retratando pessoas como emocionalmente imprevisíveis ou ineficientes do ponto de vista operacional.
Ainda que parte desse conteúdo possa resultar de experimentação técnica ou prompts específicos, o episódio revela como discursos potencialmente desumanizadores podem emergir e circular em ambientes automatizados.
A história ensina que todo projeto autoritário começa justamente com a desumanização simbólica. No século XX, o nazismo na Alemanha construiu uma máquina propagandística que transformava grupos inteiros em “ameaça existencial”. O fascismo italiano fez o mesmo ao associar dissidência política à degeneração nacional.
Em ambos os casos, a propaganda sistemática precedeu a violência de Estado. E agora, tecnologias de automação como esta podem acelerar processos semelhantes de produção de medo, ódio e barbárie em escala muito maior.
A engrenagem do pânico
O método autoritário é conhecido. Primeiro, produz avalanches de mentiras, depois cria sensação permanente de crise, deslegitima instituições, estimula ruptura como solução e trata golpes ou intervenções militares como soluções legítimas para oferecer “ordem” como resposta ao caos pré-fabricado.
Tem sido assim no Brasil nos anos recentes. A extrema direita demonstrou capacidade de operar redes coordenadas que difundiram ataques ao sistema eleitoral, desinformação criminosa durante a pandemia, campanhas sistemáticas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), demonização de minorias, narrativas sobre vitimização dos golpistas e “ameaças” à família, entre outros delírios para promover um verdadeiro apagão cognitivo entre a população.
Agora imagine o poder desta mesma lógica, que ativa identidade e medo, alimentada por ecossistemas automatizados capazes de gerar conteúdo contínuo, replicar narrativas delirantes e simular consenso numa velocidade sem precedentes. Não seria necessário sequer convencer a maioria absoluta. Bastaria produzir instabilidade suficiente para paralisar a sociedade, semear o pânico coletivo abrir espaço para saídas autoritárias.
A responsabilidade da esquerda democrática
Este cenário impõe múltiplos desafios à esquerda democrática, pois não basta denunciar o fascismo emergente. É necessário construir capacidade organizada para enfrentá-lo no ambiente digital e fora dele, pois a democracia e a soberania digital andam juntas. Não se trata de censura nem de nostalgia analógica, mas de responsabilização e de governança pública e transparente sobre infraestruturas privadas que moldam a vida coletiva.
Uma demonstração importante de organização para enfrentar o avanço da extrema direita na disputa pela hegemonia das narrativas políticas é a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que ocorre de 26 a 29 de março, em Porto Alegre (RS). A iniciativa do Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas, articulada pelo seu porta-voz Eric Toussant, ganhou apoio, no Brasil, do PSOL, PT, PCdoB, de organizações sindicais, populares e estudantis, além de personalidades do mundo todo como Annie Ernaux, prêmio Nobel de Literatura de 2022, e Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia.
É fundamental fortalecer a luta pela regulação pública rigorosa sobre plataformas digitais e, agora, sobre agentes autônomos. Ao mesmo tempo, formar militância capacitada em tecnologias digitais, organizada e com formação política para disputar a hegemonia sobre as narrativas nos novos terrenos tecnológicos e criar redes próprias de comunicação de alcance popular.
Isto inclui desde aplicativos próprios de comunicação política, comunicadores e micro influenciadores locais em bairros, periferias e cidades médias até grupos de WhatsApp comunitários, plataformas de checagem e resposta rápida às fake news com produção rápida de cards, vídeos curtos e áudios para circulação em grupos.
A tecnologia não é neutra. Ela expressa relações de poder e por isto ou a sociedade democratiza essas infraestruturas ou elas serão inevitavelmente capturadas por projetos autoritários.
A articulação de frentes mais amplas em defesa da democracia neste cenário já quase distópico também pode ser válida, mas há um alerta histórico que não pode ser esquecido: a resistência à extrema direita não pode ser terceirizada à burguesia liberal.
A história europeia mostra que, diante do medo do avanço socialista e da mobilização dos trabalhadores, a elite econômica preferiu apoiar ou pelo menos acomodar-se ao nazismo e ao fascismo para proteger seus interesses e privilégios estruturais.
Por isso, uma resistência eficaz precisa ter base popular, organização social e independência política. Democracia não se sustenta apenas por pactos institucionais, mas pela mobilização consciente da sociedade.
O papel do jornalismo
Neste arranjo, cabe ainda repensar o papel da mídia burguesa, que já opera em um ritmo definido por sistemas automatizados que privilegiam velocidade, choque, polarização e impacto. Já não basta desmentir fake news pontuais, até porque elas são disparadas a cada segundo.
O jornalismo democrático, no entanto, não pode se limitar à checagem pontual de boatos, mas deve ir além dos fatos isolados e investigar as engrenagens do poder. Quem controla os agentes automatizados, quais interesses econômicos os financiam, como operam tecnicamente, quais vínculos políticos mantêm e que impactos produzem na esfera pública?
É preciso que o jornalismo mapeie redes, rastreie fluxos de financiamento, exponha arquiteturas de manipulação e traduza tecnologia em linguagem compreensível para a sociedade. Não se trata apenas de corrigir mentiras, mas de revelar o sistema que as produz.
E o alerta histórico permanece. Se a mídia burguesa for de fato democrática, ela não pode vacilar. Quando regimes autoritários se consolidam, não preservam imprensa livre por gratidão. No nazismo e no fascismo italiano, jornais liberais que inicialmente subestimaram ou toleraram a escalada autoritária acabaram censurados, cooptados ou fechados.
Democratizar a tecnologia ou ser governado por ela
O Moltbook pode ser apenas um experimento, mas também ser protótipo de algo maior, de ecossistemas de agentes capazes de moldar clima social em escala massiva. O risco não é a inteligência artificial nem o código em si mesmos, mas em quem exerce o controle e com qual projeto político.
Se milhões de agentes de IA puderem ser mobilizados para disseminar preconceito, ignorância e desinformação, estaremos diante de uma nova forma de engenharia da barbárie.
A disputa do nosso tempo já não é apenas comunicacional, mas civilizatória. Ou democratizamos de fato as infraestruturas digitais e submetemos agentes automatizados a regras públicas claras ou aceitaremos que poucos concentrem poder simbólico suficiente para empurrar sociedades inteiras rumo ao caos e ao autoritarismo. A história já mostrou como tudo termina quando o pânico coletivo encontra uma liderança disposta a explorá-lo.