MBL agride calouros da Unicamp no primeiro dia de aula
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MBL agride calouros da Unicamp no primeiro dia de aula

Grupo de extrema direita entrou em confronto com estudantes; reitoria fala em invasão e vereadora Mariana Conti aponta ofensiva contra a universidade pública e a diversidade

Tatiana Py Dutra 26 fev 2026, 12:07

Foto: Thomaz Marostegan/Unicamp

Um grupo ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) protagonizou atos de intimidação e agressão contra estudantes da Unicamp na manhã da última segunda-feira (23), primeiro dia de aula da instituição, no campus de Barão Geraldo, em Campinas. O episódio ocorreu durante atividades tradicionais de recepção aos calouros e terminou em confronto físico, com estudantes feridos e registro policial.

Em nota oficial, a Reitoria da Unicamp classificou o episódio como uma “invasão” e um “ato de intimidação e agressão”, afirmando que a universidade não aceitará ações baseadas em violência ou coerção. A administração anunciou a adoção de medidas administrativas e jurídicas para identificar e responsabilizar os envolvidos.

De acordo com Ronaldo Almeida, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o conflito começou quando cerca de oito pessoas de fora da universidade, ligadas ao MBL, tentaram pintar com tinta branca o muro da biblioteca do instituto. O local abriga grafites produzidos por artistas da própria comunidade acadêmica.

“Foi um grupo de mais ou menos oito pessoas de fora da universidade e ligadas ao MBL, numa atitude vândala”, afirmou o diretor à EPTV. 

Segundo ele, estudantes tentaram impedir a ação e acionar a segurança do campus, como já ocorre em situações semelhantes. Desta vez, porém, houve escalada da violência. Imagens gravadas por testemunhas mostram uma aglomeração em torno do mural da biblioteca, com disputa por uma lata de tinta branca. Em um dos vídeos, um dos integrantes do grupo aparece agredindo uma pessoa com um pincel, antes de o confronto se generalizar.

Segundo Almeida, ao menos três estudantes foram agredidos fisicamente. “Eles começaram a agredir os nossos alunos. Jogaram tinta pra cá. Teve um [aluno] que foi chutado no chão. A boca foi ferida, o rosto [também], e foi parar no hospital. Pelo menos dois ou três foram fisicamente atingidos”, relatou. Um boletim de ocorrência foi registrado por um dos estudantes agredidos.

O diretor do IFCH afirmou ainda que episódios desse tipo vêm se repetindo. 

“Já é o segundo registro de 2026. No segundo semestre de 2025, ocorreram outros incidentes. Agora, o que aconteceu dessa vez, diferente do ano passado, é que eles partiram para a agressão, o que demonstra uma escalada”, alertou.

O MBL, por sua vez, divulgou nota alegando que entrou na universidade para “fazer a restauração de paredes pichadas”, afirmando estar amparado pelo artigo 65 da Lei de Crimes Ambientais. No comunicado, o movimento diz ter sido alvo de agressões por parte dos estudantes. “Ao perceberem nossa presença, grupos de alunos se organizaram para nos agredir e expulsar da universidade. Fomos alvo de socos, chutes e empurrões”, afirmou um porta-voz.

A Reitoria da Unicamp rebateu essa narrativa ao reafirmar que “episódios de invasão de qualquer natureza, filmagens não autorizadas e agressões são intoleráveis” e que tais ações representam “grave afronta à democracia, à autonomia universitária e à segurança da comunidade acadêmica”.

Repercussões

A agressão também gerou reação de parlamentares e lideranças políticas da cidade. Para a vereadora Mariana Conti, do PSOL, o ataque não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia recorrente da extrema direita contra universidades públicas. 

“Não é a primeira vez que acontece um ataque assim na Unicamp. A Unicamp já foi alvo antes, assim como outras universidades públicas espalhadas pelo Brasil”, afirmou, acrescentando que essas ações têm motivações claras. “É um ataque oportunista de figuras da extrema direita fascista que veem nesse tipo de ação uma forma de ganhar prestígio nas redes”, disse. 

A parlamentar destacou ainda o caráter ideológico da ofensiva.

 “Existe um forte caráter negacionista e obscurantista de atacar o conhecimento, a pesquisa. Não é à toa que os centros de excelência de produção de teoria e de conhecimento são constantemente atacados.”

A vereadora também relacionou os episódios a interesses econômicos e políticos mais amplos. 

“A extrema direita fascista está a serviço de interesses privatizadores. A privatização da educação é uma política da extrema direita, e a privatização da universidade também”, afirmou, apontando que a deslegitimação das instituições públicas abre caminho para projetos de mercantilização do ensino.

Outro elemento central, segundo Mariana Conti, é a mudança no perfil do corpo discente das universidades.

“Não é à toa também que esses ataques acontecem exatamente no momento em que a gente tem uma diversificação do universo dos estudantes que estão adentrando a universidade pública com o resultado das cotas raciais, do vestibular indígena, das cotas PCDs, das cotas trans”, explicou. 

Para ela, trata-se de uma reação ao fim do elitismo histórico desses espaços.

 “É uma ação reacionária, elitista, contra a diversificação, a popularização e a entrada de setores que historicamente foram excluídos da universidade.”

Entidades estudantis reforçaram que a resposta ao ataque passa pela mobilização coletiva em defesa da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada. Enquanto a Unicamp avança na apuração dos fatos, o episódio reacende o alerta sobre a escalada de ações violentas da extrema direita em campi universitários e a necessidade de enfrentá-las politicamente, com defesa intransigente da democracia, da ciência e da inclusão.


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