Nossos rios não estão à venda: revogação do decreto 12.600/25 já!
A mobilização indígena já mostrou sua força ao conquistar a suspensão do edital de dragagem do Tapajós. Essa vitória é fruto direto da resistência, da ocupação, da pressão organizada
Via Juntos!
Não, não senhor, ouça nossa voz não queremos barreira no Tapajós”
(Movimento de Carimbó do Oeste do Pará, Mestre Chico Malta e Grupo Cobra Grande)
A ocupação do terminal da Cargill em Santarém pelos povos indígenas do Baixo e Médio Tapajós não é apenas um ato simbólico ou localizado. É um grito coletivo que ecoa por toda a Amazônia e o mundo. É a denúncia concreta de que nossos territórios seguem sendo tratados como mercadoria, como corredor logístico para o agronegócio e como zona de sacrifício em nome de um falso desenvolvimento que apenas explora quem vive da floresta e do rio.
Ao ocupar a Cargill, uma das maiores representantes do capital internacional na região, os povos indígenas escancaram a engrenagem que liga o saque da natureza à violência contra os corpos, territórios e modos de vida ancestrais. Não se trata apenas de um porto ou de uma empresa: trata-se de um modelo econômico que transforma os rios em hidrovias privadas, as comunidades e as aldeias em obstáculos e a natureza em mercadoria.
É nesse contexto que o Decreto 12.600/25 aparece como mais uma ofensiva. Ao abrir caminho para concessões, dragagens e privatizações das bacias amazônicas, o decreto institucionaliza o avanço do capital sobre os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Ignora a consulta prévia, livre e informada, ignora a Convenção 169 da OIT, ignora séculos de presença indígena. É o Estado colocando a caneta a serviço do lucro.
E é preciso dizer com todas as letras: o governo federal, sob a presidência de Lula, está operando contra os povos da floresta e as comunidades tradicionais quando mantém esse decreto. Não basta discurso bonito sobre meio ambiente enquanto, na prática, se libera dragagem, concessão e infraestrutura para acelerar o escoamento de soja. Não existe justiça climática nem democracia real quando os rios viram rota de exportação e os povos que dependem deles são empurrados para a margem.
Nossos rios não são mercadorias. Nossos rios são território, alimento, memória e espiritualidade. Nossos rios são nossos ancestrais e extensão de quem somos. A ocupação é, portanto, um ato legítimo de autodefesa, de defesa da vida. Quando o Estado falha, quando o diálogo não vem, quando os direitos são atropelados, o povo se levanta. E levanta com razão.
Nesse cenário, também não cabe neutralidade. Guilherme Boulos precisa fazer uma opção política clara: ou está ao lado dos movimentos sociais, como sempre afirmou, ou ficará calado diante de mais esse ataque. Pior ainda seria tentar frear ou moderar a luta e colocar barreiras burocráticas e políticas nas mobilizações, como se já não bastassem as barreiras que querem colocar nos nossos rios. Quem veio da luta popular não pode virar obstáculo para ela. A história cobra coerência.
A mobilização indígena já mostrou sua força ao conquistar a suspensão do edital de dragagem do Tapajós. Essa vitória é fruto direto da resistência, da ocupação, da pressão organizada. Nada foi concessão do governo, foi conquista da luta radicalizada. Mas sabemos: suspensão não é revogação.
A luta segue pela revogação completa do Decreto 12.600/25. Seguimos porque nossos territórios não estão à venda. Seguimos porque não aceitaremos a privatização da vida. Seguimos porque queremos nossos rios livres, correndo como sempre correram, alimentando os povos e não os lucros dos bilionários. Se tocam nos rios, mexem com todos nós.
E a resposta seguirá sendo ocupação, resistência e luta. Surara! Sawê!