Uma resposta ao Partido Obrero: em defesa da Conferência Antifascista
Um debate reafirmando a necessidade da unidade antifascista
A direção do Partido Obrero da Argentina lançou uma nota em seu site justificando sua ausência na articulação que se organiza para realizar, em março, a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos. No artigo assinado por seu principal dirigente internacional, Pablo Heller, e por Roberto Gelert, além de assinalar porque não vão participar, ainda atacam os setores que estão à frente do processo. Nos orgulhamos, desde o PSOL em Porto Alegre, de ser proponentes e convocantes do processo junto a outros diversos parceiros políticos.
Nesse breve texto queremos responder reafirmando a necessidade da unidade antifascista, a ser materializada nas lutas e no encontro de Porto Alegre, bem como debater com a direção e militância do PO argentino.
Fazemos isso porque o PO não é um partido inexpressivo, sendo parte da FITU e tendo real presença no movimento popular, sobretudo entre os piqueteiros; e agregamos que ao debater com o PO também aproveitamos para debater com todo um setor da esquerda radical que nega as tarefas democráticas e unitárias.
A urgência da luta antifascista
Estamos cruzados pela combinação, fruto da maior crise da história recente do capitalismo, pelo surgimento de um neofascismo com peso de massas, à frente do principal imperialismo no mundo, com uma ofensiva neocolonial, que tem como um dos seus alvos a América Latina.
É nesse cenário, sem precedentes nos últimos tempos, que urge a necessidade de colocar em pé a unidade entre setores antifascistas. A ação de devastação sobre Gaza e a determinação do ICE em perseguir e prender imigrantes são a ponta de lança do projeto neofascista no mundo.
E como trotskystas que somos, temos um grande repertório, ligada a perspectiva da frente única contra o fascismo, tecla que desde 1931 Trotsky insistia como fundamental diante da linha do stalinismo na Alemanha. E como trotskytas brasileiros, ainda somos herdeiros da ação da Liga Comunista Internacionalista, ao encabeçar um frente única que expulsou os fascistas do centro de São Paulo, na memorável “batalha da Praça da Sé”, em 1934.
Assim que, acreditamos que a Conferência Antifascista é um passo para aglutinar forças que combatam, em todos os terrenos, o neofascismo e a escalada neocolonial do imperialismo.
O dogmatismo como justificativa
A principal linha utilizada para defender a abstenção no processo de convergência que amplos setores preparam para Porto Alegre é alegar a ineficácia da articulação “frentepopulista”, nas palavras do PO. Para tanto, usam exemplos do Brasil, da Nova Frente Popular na França e da preparação para o ato do dia da memória na Argentina, que ocorre em 24 de março.
Seu método é caracterizar a algumas das organizações e partidos que são parte da convocatória, a partir da crítica à reunião online, do final de 2025. A reunião contou com mais de 80 participantes, entre partidos, sindicatos, centrais, movimentos sociais, personalidades e intelectuais. Foram dezenas de países dos cinco continentes.
Chama a atenção que o texto do PO não fale da atual situação internacional. Não cita a ofensiva sobre Gaza, a nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump, sequer o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores.
A maior parte do artigo serve para tentar demonstrar a “impotência” da Conferência, ao falar do Brasil, da França e da Argentina.
No caso brasileiro, a análise é rasa e unilateral. Um pequeno amontoado de críticas ao governo Lula, ao PSOL, com informações desconexas e sem critérios. Ao falar da disputa de 2022, não fica nítido ao leitor se a posição do PO no segundo turno era de chamar voto em Lula contra Bolsonaro; como também inexiste qualquer plano de luta e ação alternativos para a defesa da soberania nacional, frontalmente atacada por Trump e as bigtechs.
Ainda pior são os parágrafos dedicados à França. Mélenchon seria, na visão do PO, um sustentáculo do governo de Macron, e o NPA, por consequência, um sócio menor nesse projeto. A miopia confunde o principal processo de mobilização para derrotar Macron e a extrema direita com o seu contrário. Nem os setores mais esquerdistas da esquerda na França pintariam Mélenchon dessa forma.
Seu dogmatismo chega às raias da manipulação da realidade quando afirma que o MST argentino, parceiro na FITU, dividiu o ato do dia da memória em 2025.
Desorientação diante do novo cenário
O mais gritante, além de repudiar a unidade, é a desorientação teórica e política do PO diante do novo cenário, após a vitória de Trump.
A ruptura da ordem geopolítica estabelecida anteriormente não existe nas análises de Heller e Gelert. Sem entender as novas incursões e agressões do imperialismo, sua dinâmica e sua crise; inclusive na relação com a Argentina e com Milei, não se pode preparar-se para a luta política.
Diante desse fenômeno, de forma incipiente, cresce o antitrumpismo e mais, se abrem possibilidades de um novo anti-imperialismo dentro do movimento de massas. Uma resposta que pode ensejar grandes mudanças no ânimo e na mentalidade do movimento de massas, como respostas às agressões cada vez mais abertas de Trump e dos seus aliados. O PO menospreza todo o fenômeno de solidariedade com a Palestina, vez que reduz a uma prédica meramente “classista” e autorreferenciada à sua orientação.
Não que tenhamos dúvida da necessidade de uma saída classista, porém, justificar sua impotência com essa fórmula passa longe da realidade do que está ocorrendo no mundo. Foi a justa luta em solidariedade ao povo palestino, que impulsionou inclusive a reativação do movimento operário na Itália, com as duas greves gerais de solidariedade que vimos no ano passado.
Uma luta ampla que criou condições para protestos coordenados ao redor do mundo, ocupações como a das universidades americanas, a realização da Global Sumud Flotilha, que teve apoio e participação de muitas das forças políticas criticadas pelo PO. Nos estivemos na Flotilha como MES, saudando a ação que contou com uma diversidade ampla de forças políticas e sociais, não tendo dúvidas que o resultado foi positivo.
Temos que nos preparar para um novo momento, no qual a resistência anti-imperialista recoloca as tarefas democráticas e nacionais na ordem do dia, sem confiar que algum setor da burguesia levará a cabo até o final as mesmas tarefas.
Sem afirmar a unidade antifascista e anti-imperialista, o que resta é a desorientação diante de um mundo novo, recitando fórmulas incapazes de responder à realidade, como o próprio PO atesta em sua linha para a nova manifestação de 24 de março, quando se completam 50 anos do golpe militar na Argentina.
Unidade e defesa da iniciativa antifascista
A principal manifestação do calendário de lutas do povo argentino tem lugar no dia 24 de março, data que se rememora o golpe e os mais de 30 mil desaparecidos da brutal ditadura argentina. O acúmulo dos movimentos de direitos humanos no nosso país vizinho é grande e nesse ano há um sentido especial: são 50 anos do golpe e está no poder Javier Milei, um saudosista da ditadura, com sua vice defendendo indulto aos genocidas. Ou seja, não será mais um ato e, sim, um grande pronunciamento em defesa da memória, da verdade e da justiça.
E há uma polêmica, já citada pelo PO em seu artigo, no seio da esquerda argentina. O MST, combativo partido que faz parte da FITU e estará nas mesas da Conferência de Porto Alegre, tem defendido que se mantenha a unidade lograda no ano passado entre diferentes setores dos direitos humanos, composta por diversos agrupamentos à esquerda – que vão desde a esquerda radical até a centro-esquerda, com setores da igreja progressista e do peronismo. O PO é contra tal unidade, com os mesmos argumentos que levanta contra a Conferência Antifascista.
Nos parece elementar, diante de Milei e da necessidade de responder aos que querem relativizar os crimes da ditadura, que quanto maior e mais amplo for o ato, mais forte será a luta contra Milei. E que o papel que o MST cumpre em articular as diferentes vertentes e setores é muito progressivo e se fortalecerá aos olhos das parcelas mais lúcidas da sociedade.
O Partido Obrero erra na Argentina e erra internacionalmente, fruto de seu dogmatismo e do seu isolamento no debate internacional.
Ainda há tempo para mudanças. A Conferência cresce e incorpora setores combativos, como o manifesto, organizado por Eric Toussaint e o CADTM, que já moveu mais de mil assinaturas de personalidades como como Annie Ernaux, Mireille Fanon, Jeremy Corbyn, João Pedro Stédile, Frei Betto, vários deputados do PSOL e toda a direção do DSA estadunidense. A esquerda argentina está organizada com um comitê e deve vir com uma delegação plural e nutrida.
A Conferência tem condições de ser um grande sucesso, pois é uma necessidade imperiosa da situação política, com toda sua pluralidade e os debates políticos que serão feitos. A impotência da qual fala o PO ficará a cargo dos que estiverem de fora.