Zohran Mamdani e a inversão do discurso da austeridade
A abordagem inicial de Zohran Mamdani contra a austeridade oferece um horizonte diferente do habitual
Estados Unidos Hoje da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco
Semanas após ser empossado, um governante recém-eleito dirige-se para uma coletiva de imprensa e declara: “Quero falar diretamente com a população: nossa cidade está enfrentando uma crise fiscal séria. Temos um déficit fiscal de 12 bilhões.”
O discurso é familiar e nos leva a pensar na repetição da história. Um político elege-se com promessas eleitorais ousadas, mas, tomando o poder, sucumbe ao realismo fiscal e à miséria do possível. Em outras palavras, ele chega ao poder pela esquerda, mas governa pela direita ou, pelo menos, constrangido pelos limites da lógica neoliberal. O resultado também é conhecido: frustração popular e descredibilização das alternativas de esquerda.
As aspas acima são de Zohran Mamdani, novo prefeito de Nova York. Mas a afirmação se inseriu em um contexto diferente. Ela foi a abertura de um pronunciamento mais amplo no qual Mandani se declarou contrário a penalizar os trabalhadores em decorrência da crise fiscal. Pelo contrário, propôs taxar os muito ricos. Ele afirmou:
“No meu discurso de posse, fiz uma promessa: eu disse que superaríamos juntos cada momento de adversidade. Essa promessa continua valendo. Não vamos nos intimidar diante deste momento, não vamos sucumbir a uma mentalidade restrita. Enfrentaremos esta crise com as soluções ousadas que ela exige. Isso significa corrigir a relação fiscal entre o estado e a cidade de Nova York. E significa que chegou a hora de taxar os mais ricos e as corporações mais lucrativas. Esta é a cidade mais rica do país mais rico da história do mundo. Mas até aqui se permitiu que um em cada quatro nova-iorquinos vivesse na pobreza. Não precisa ser assim.”
Forma e conteúdo devem ser notados no discurso. Quanto à forma, predominaram a transparência e a comunicação direta com a classe trabalhadora. Mamdani afirmou: “Seremos honestos e transparentes, e comunicaremos as decisões que estamos tomando e as razões pelas quais as estamos tomando. Herdamos uma crise do passado. Mas ela não define o nosso futuro”. E, na coletiva de imprensa, buscou explicar de forma aberta e pedagógica a situação fiscal da cidade, responsabilizando principalmente o ex-prefeito, Eric Adams, e o ex-governador, Andrew Cuomo.
Quanto ao conteúdo, o central foi a inversão do discurso da austeridade. “Os trabalhadores não causaram esta crise. E não podem ser transformados em vítimas da sua solução”, declarou o prefeito. Ou ainda: “Nossa prioridade será evitar que os trabalhadores precisem pagar o preço”. Mamdani indicou, então, três ações para enfrentar o momento: eficiência nos gastos públicos; taxação dos muitos ricos; e redefinição da relação orçamentária entre estado e município.
Com elas, fica implícito algum grau de enfrentamento com a governadora de Nova York, que é parte do establishment do Partido Democrata e já se declarou contrária à taxação dos muito ricos. O movimento Our Time [“É a nossa hora”], fundado por apoiadores de Mamdani após sua vitória eleitoral, tem conduzido uma campanha em torno da palavra de ordem “Taxar os ricos”. Realmente será necessário combinar ação governamental e mobilização popular para atingir o objetivo.
Pode-se discutir se Mamdani deveria ter ido além e questionado a própria lógica do “equilíbrio fiscal” como um todo — tarefa difícil para um prefeito. Mas é inegável que sua abordagem inicial do tema ofereceu, ao menos, um horizonte diferente do habitual. O prefeito pode, assim, pavimentar um caminho para a implosão da ideia de austeridade contra os trabalhadores como um fato incontornável.
Logo no primeiro mês, Mamdani tem lidado com diferentes desafios. Nova York enfrentou a maior nevasca dos últimos dez anos; os Estados Unidos estão comovidos com a situação brutal de Minneapolis; e a greve da enfermagem paralisa hospitais privados da cidade há três semanas. Em linhas gerais, ele tem enfrentado esses temas segundo os princípios de um socialista no poder, como discutimos no artigo “Um socialista prefeito. E agora?” (https://flcmf.org.br/um-socialista-prefeito-e-agora/) — embora, no caso da greve da enfermagem, haja críticas de que poderia fazer mais, especialmente no sentido de pressionar pela abertura de negociações (https://jacobin.com/2026/01/nurses-strike-mamdani-nyc-labor).
A experiência de um socialista democrático à frente da cidade mais rica do mundo está apenas começando, mas já há exemplos que podem servir de referência para o mundo todo.