Fábio Félix pede investigação sobre uso de bens públicos para o BRB
Deputado do PSOL aciona o Ministério Público e alerta para riscos ao patrimônio público após lei que autoriza o GDF a usar imóveis bilionários para reforçar o capital do BRB
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
O deputado distrital Fábio Félix (PSOL) apresentou uma representação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pedindo a investigação da lei que autoriza o Governo do Distrito Federal (GDF) a utilizar imóveis públicos para reforçar o capital do Banco de Brasília (BRB). Para o parlamentar, a medida pode expor o patrimônio público a riscos e transferir prejuízos financeiros para a população do DF em meio às controvérsias envolvendo o banco e o Banco Master.
A iniciativa de Félix busca garantir transparência e controle sobre operações que podem envolver bilhões de reais em ativos públicos. O pedido foi encaminhado à Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e Social (Prodep) e questiona o projeto de lei nº 2.175/2026, aprovado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) na última terça-feira (3/3), que autoriza uma série de operações patrimoniais e financeiras destinadas a reforçar as condições econômico-financeiras do banco público.
De acordo com a representação, o conjunto de bens públicos incluídos no projeto tem valor estimado em R$ 6,58 bilhões. Entre eles estão lotes no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), o Centro Administrativo do Distrito Federal (Centrad), em Taguatinga, e uma grande área na região da Serrinha do Paranoá, conhecida como Gleba A, com cerca de 716 hectares.
O deputado afirma, porém, que a documentação apresentada pelo governo para justificar a inclusão dos imóveis é incompleta. Segundo o texto enviado ao MPDFT, faltariam certidões de matrícula atualizadas, plantas e memoriais georreferenciados, além de laudos de avaliação independentes que indiquem o valor real de mercado de cada propriedade.
Em alguns casos, os imóveis também apresentam restrições legais ou estão ocupados por órgãos públicos em funcionamento, como unidades da Secretaria de Saúde, da Secretaria de Economia e da própria Novacap. No caso da Gleba A, a representação aponta que a estimativa de valor, cerca de R$ 2,3 bilhões, foi citada sem a apresentação do laudo técnico correspondente.
O projeto também autoriza o governo a contratar operações de crédito de até R$ 6,6 bilhões, inclusive com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ou instituições financeiras, para reforçar o capital do BRB.
Na avaliação de Félix, a iniciativa pode entrar em conflito com regras da Lei de Responsabilidade Fiscal, especialmente se recursos públicos forem utilizados para cobrir déficits operacionais do banco.
A representação argumenta que, caso o governo utilize patrimônio público para socorrer financeiramente a instituição sem expectativa clara de retorno, a operação poderia configurar uma forma indireta de crédito vedado pela legislação fiscal.
Outro ponto levantado no documento é a ausência de estimativas detalhadas de impacto orçamentário e financeiro nas peças do ciclo fiscal, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).
O texto também alerta para possíveis efeitos sobre a situação fiscal do DF. Segundo o documento, a autorização legislativa poderia transferir riscos financeiros do banco para o Tesouro local, ampliando a pressão sobre as contas públicas.
Além disso, o parlamentar cita impactos potenciais sobre o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF). As ações do BRB integram o Fundo Solidário Garantidor do instituto, e eventuais perdas de valor ou suspensão de dividendos poderiam afetar o fluxo de recursos do regime previdenciário.
Representação pede transparência e controle
Na representação, Félix solicita que o MPDFT acompanhe a implementação da lei e recomende ao governo que se abstenha de realizar qualquer operação envolvendo os imóveis listados sem o cumprimento de uma série de requisitos.
Entre eles estão a aprovação de leis específicas para cada imóvel, apresentação de laudos de avaliação independentes, documentação registral completa, realização de audiências públicas e demonstração de vantagem econômica para o DF.
O parlamentar também pede que eventuais operações de crédito só sejam contratadas após comprovação de enquadramento nos limites legais de endividamento e de impacto fiscal.
Caso irregularidades sejam confirmadas, o documento solicita a responsabilização dos agentes públicos e privados envolvidos nas esferas civil, administrativa e penal.
A representação foi encaminhada à Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e Social do MPDFT, que deverá analisar o pedido e decidir sobre a abertura de procedimento para apurar possíveis irregularidades.
O tema também já havia sido levado ao Ministério Público pelo Partido dos Trabalhadores (PT). O presidente da sigla no DF, Guilherme Sigmaringa, e o deputado distrital Gabriel Magno se reuniram com o procurador-geral de Justiça do DF, Georges Seigneur, para entregar um documento baseado em estudo da consultoria legislativa da CLDF.
Segundo o parecer técnico, o projeto que autoriza medidas para reforçar o capital do BRB pode contrariar o princípio da prudência fiscal ao permitir operações patrimoniais e financeiras de grande impacto sem estimativas detalhadas de seus efeitos sobre as contas públicas do Distrito Federal. A representação ainda aguarda resposta do MPDFT.