Tecnologias de massacre: o uso de Inteligência Artificial no ataque imperialista ao Irã
Como a aliança entre o governo Trump, Netanyahu e as Big Techs está transformando a tecnologia em uma ferramenta de extermínio global
L.U.C.A.S. é a sigla que dá nome aos drones americanos que invadiram os céus do Irã no último sábado. Esses equipamentos abriram caminho para o ataque de mísseis que assassinou o aiatolá iraniano Ali Khamenei, em uma operação orquestrada entre Estados Unidos e Israel contra o país do Oriente Médio. A ofensiva destruiu, também, uma escola de meninas iranianas, o que levou a mais de 160 mortes. Os drones L.U.C.A.S. ou “Sistema Não Tripulado de Baixo Custo de Ataque e Combate”, significado do acrônimo em português, utilizaram inteligência artificial e sistemas tecnológicos de ponta para mapear a localização dos radares antimísseis iranianos. Após destruí-los, limparam o espaço aéreo para a entrada de caças e mísseis americanos e israelenses. Estamos assistindo a uma potência imperialista experimentar o uso de inteligência artificial em larga escala em contexto de guerra. Isso traz desdobramentos sem precedentes para um mundo que vê genocídios e massacres eclodirem por todo o globo.
O uso de inteligência artificial pelas forças estadunidenses e israelenses no ataque ao Irã não nasce de um dia para o outro. Trata-se da concretização de um processo de reconfiguração do poder bélico das potências armamentistas mundiais, como Estados Unidos, Israel, Rússia e China. Nesses países, o uso da própria IA, de drones autônomos, de ciberataques e de vigilância em massa passa a ser central para a expansão da tecnologia de guerra. A integração dessas tecnologias em mobilizações para o massacre de povos e para a derrubada de regimes só é possível pelo fortalecimento do chamado “complexo militar-industrial-dataficado”. O termo dá nome ao último livro de Sérgio Amadeu1, professor da Universidade Federal do ABC.
O complexo militar-industrial ganha uma nova configuração dataficada ao passo que o Estado utiliza o poder de captação e processamento de dados das Big Techs para monitorar populações inteiras, definir estratégias de ataque e delimitar alvos. Google, Amazon, Microsoft e Meta, bem como empresas de inteligência artificial como OpenAI, Oracle e Anthropic, deixam de ser meras prestadoras de serviços comerciais. Elas passam a ser parte fundamental da estrutura do Estado imperialista contemporâneo.
Donald Trump, desde que foi eleito em 2024, incorporou diversos diretores de Big Techs para coordenar áreas estratégicas do agora chamado Departamento de Guerra dos Estados Unidos2. Essa movimentação revela a imbricação dessas empresas com o aparato bélico, oferecendo dados, softwares e infraestrutura de tecnologia à ânsia trumpista de dominação. Além disso, o mercado financeiro assiste à movimentação de bilhões de dólares em contratos entre o Estado americano, o Estado israelense e as Big Techs, no que já configura uma nova frente de acumulação do rentismo neoliberal.
Infelizmente, as tecnologias utilizadas contra o Irã já haviam sido testadas em outro território do Oriente Médio: a Faixa de Gaza. Israel utilizou tecnologia de ponta e inteligência artificial durante todo o período dos massacres iniciados em outubro de 2023, e segue fazendo-o. Um dos casos mais emblemáticos, mobilizados por Sergio em seu livro, é a relação entre o Google e as forças militares israelenses. Dados pessoais, captados de nós ininterruptamente pelas Big Techs, são ativos de alto valor agregado. Eles foram a oferta do Google a Israel para que Netanyahu pudesse desenvolver mecanismos refinados de mapeamento de alvos e classificações de supostos terroristas ou membros do Hamas. O Google possibilitou, assim, o treinamento de padrões biométricos de identificação de palestinos. Esse recurso, aliado ao mapeamento permanente feito por drones, transformou Gaza na região mais vigiada do planeta. Entretanto, essa tecnologia de altíssima precisão não poupou a vida de palestinos; pelo contrário, foi parte integrante de uma tática de massacre e bombardeios generalizados que destruiu toda a infraestrutura civil da região.
As contradições, por sua vez, existem e devem ser vistas de perto. No contexto do atual ataque ao Irã, o governo Trump enfrenta a recusa da empresa Anthropic em permitir que sua IA, denominada Claude, seja utilizada para a automatização de drones. A ferramenta foi contratada pelo Departamento de Defesa estadunidense por meio de um contrato bilionário, mas a empresa resiste ao uso da tecnologia para automatização de equipamentos de guerra. Contudo, já é tarde demais: o governo americano emitiu um comunicado afirmando que a IA Claude foi utilizada na coordenação dos ataques ao Irã no último dia 28. A posição da Anthropic, que se reivindica como uma gestora de “IA Responsável”, expõe uma realidade amarga: enquanto a IA servir como moeda de troca com governos autoritários, não haverá perspectiva de avanço para o povo. Por outro lado, 28 trabalhadores do Google foram expulsos pelo CEO da empresa em 2024 após protestarem contra o Projeto Nimbus3, denunciando o contrato de 1,2 bilhão entre a empresa e Israel para o aprimoramento de tecnologias de massacre na Faixa de Gaza.
Para fortalecer nossas ações de solidariedade aos povos oprimidos do mundo e aprofundar a política de enfrentamento ao imperialismo, é necessário compreender que estamos em uma nova fase do neoliberalismo. Ela se organiza a partir da centralidade das empresas de tecnologia e da plataformização de toda a sociedade. A inteligência artificial, envolta pela ideologia do Vale do Silício, segue sendo apresentada como solução para os problemas do mundo, mas é parte fundamental da agudização da crise multidimensional que vivemos. O diagnóstico de que estamos sob um complexo militar-industrial-dataficado precisa nos alertar para a urgência de elaborar um programa de enfrentamento profundo a essa face nefasta do capitalismo. É preciso buscar uma ruptura com suas principais representantes: as Big Techs.
Notas
- SILVEIRA, Sergio Amadeu da. As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-dataficado. São Paulo. Editora Hedra. 2025.
↩︎ - The Authoritarian Stack ↩︎
- Google demite 28 funcionários que protestaram contra contrato entre a empresa e Israel | G1 ↩︎