O cerco a Ciro
Operação da PF aprofunda crise do senador do PP, expõe relações com o Banco Master e ameaça implodir os planos eleitorais de um dos principais operadores do Centrão e aliado histórico dos Bolsonaro
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O avanço da Polícia Federal (PF) sobre o senador Ciro Nogueira pode representar o início da mais grave crise política da carreira de um dos homens mais poderosos do Centrão nas últimas décadas. Alvo da nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de fraudes e corrupção envolvendo o Banco Master, o ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro vê desmoronar não apenas sua influência institucional, mas também o projeto de se consolidar como peça-chave da extrema direita nas eleições presidenciais de 2026.
Homem de confiança da família Bolsonaro, presidente nacional do PP e articulador histórico da aproximação entre o bolsonarismo e o Centrão, Ciro vinha sendo tratado nos bastidores como possível vice em uma eventual chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. Embora publicamente relativizasse a hipótese, aliados relatavam que o senador piauiense trabalhava para manter vivo o sonho de ocupar um posto central na sucessão presidencial da extrema direita.
A operação da PF, porém, transformou esse cálculo político em um passivo tóxico.
Autorizada pelo ministro André Mendonça, a ação cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Ciro em Brasília e no Piauí. A investigação aponta que o senador teria recebido cerca de R$ 18 milhões em vantagens indevidas para atuar em favor dos interesses do Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
As suspeitas surgiram após a análise de celulares apreendidos em fases anteriores da operação, incluindo o aparelho do próprio Vorcaro. Segundo a PF, mensagens, documentos e registros financeiros revelam uma relação de extrema proximidade entre o banqueiro e o senador, envolvendo repasses mensais, benefícios patrimoniais, viagens internacionais e articulação legislativa em favor do banco.
“No plano patrimonial, aponta-se a percepção de vantagens reiteradas, materializadas por pagamentos mensais, aquisição societária com expressivo deságio, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de elevado valor”, afirma trecho da decisão judicial que autorizou as buscas.
Rede de propinas
Entre os principais elementos da investigação está a compra, pela empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários – formalmente administrada por Raimundo Neto, irmão de Ciro -, de 30% da Green Investimentos. O negócio foi fechado por R$ 1 milhão, embora a PF estime que a participação valesse cerca de R$ 13 milhões. Para os investigadores, o deságio bilionário teria funcionado, na prática, como pagamento de propina disfarçada.
Outro eixo da apuração envolve pagamentos mensais que começaram em R$ 300 mil e depois subiram para R$ 500 mil, por meio de uma suposta “parceria” empresarial. Em mensagens obtidas pela PF, Daniel Vorcaro cobra do primo, Felipe Vorcaro — preso nesta nova fase da operação —, a regularização de atrasos nos repasses destinados ao “Ciro”.
A investigação também aponta que o senador teria usufruído de um imóvel pertencente ao banqueiro como se fosse seu, além de receber custeio de hospedagens de luxo, restaurantes, voos privados e viagens internacionais. Em uma das mensagens citadas pela PF, um intermediário pergunta se “os meninos” deveriam continuar pagando despesas de restaurantes “do Ciro/Flávia”. Vorcaro responde: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.
O nome de Flávia citado nas conversas reforçou, entre investigadores, a suspeita de que a relação entre o senador e o grupo financeiro extrapolava interesses institucionais e avançava para vínculos pessoais profundos.
Emenda ‘comprada’
Mas talvez o ponto mais explosivo da investigação seja a suspeita de captura direta da atividade parlamentar pelo banco. Segundo a PF, uma emenda apresentada por Ciro Nogueira para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante teria sido redigida pela própria assessoria do Banco Master. O texto, afirmam os investigadores, foi enviado por um executivo do banco a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em envelope diretamente na residência do senador. A Polícia Federal afirma que a proposta foi reproduzida “integralmente” por Ciro no Senado.
A mudança beneficiaria diretamente o Banco Master, que dependia fortemente da venda de CDBs protegidos pelo FGC. Em mensagens interceptadas, Vorcaro celebrou a medida como uma “bomba atômica no mercado financeiro” e afirmou que o projeto “saiu exatamente como mandei”.
A PF sustenta ainda que o episódio não foi isolado. Outras minutas de projetos de interesse do banco – incluindo propostas ligadas à transição energética e mercado de carbono – também teriam sido entregues clandestinamente na residência do senador.
Desgaste extra para Flávio
Para críticos do sistema político brasileiro, o caso escancara a promiscuidade estrutural entre o capital financeiro e setores do Congresso Nacional, especialmente o Centrão, cuja lógica de funcionamento historicamente se baseia em trocas de favores, fisiologismo e influência empresarial sobre o Estado.
A crise também atinge em cheio a narrativa moralista construída pelo bolsonarismo. Embora Flávio Bolsonaro carregue o desgaste político do escândalo das rachadinhas, sua possível candidatura presidencial em 2026 buscava recuperar o discurso anticorrupção mobilizado pela extrema direita desde a Operação Lava Jato. A permanência de Ciro Nogueira no núcleo duro do projeto eleitoral bolsonarista tornou-se, agora, um problema político de grandes proporções.
Nos bastidores de Brasília, aliados avaliam que o senador pode se transformar rapidamente em um “estorvo eleitoral” para a família Bolsonaro, sobretudo se a investigação avançar para denúncias formais do Ministério Público Federal ou atingir outros parlamentares ligados ao Banco Master.
Ciro Nogueira já atravessou diferentes tempestades políticas – do Mensalão à Lava Jato, passando pelas crises do bolsonarismo. Sobreviveu graças à habilidade de adaptação típica dos caciques do Centrão, sempre próximos do poder independentemente do governo da vez. Mas interlocutores do próprio Congresso admitem reservadamente que a investigação da PF possui um potencial destrutivo inédito: ela reúne suspeitas de corrupção, lobby financeiro, enriquecimento privado e interferência direta do mercado sobre a produção legislativa.
Em um momento de crescente desgaste social com privilégios das elites políticas e financeiras, a imagem do senador associado a banqueiros, jatinhos, hotéis de luxo e projetos moldados sob encomenda pode representar mais do que um episódio criminal. Pode simbolizar o esgotamento de uma forma de fazer política baseada na fusão entre interesses privados e estruturas do Estado – justamente a engrenagem que transformou o Centrão em um dos grupos mais poderosos da República.