Aprovado o fim da escala 6×1: vitória da classe trabalhadora

Aprovado o fim da escala 6×1: vitória da classe trabalhadora

É preciso vigilância e mobilização, aproveitando a politização que tomou conta da sociedade para garantir a redução da jornada e a derrota da extrema direita

Israel Dutra 29 maio 2026, 10:31

Foto: Plenário da Câmara dos Deputados. (Reprodução)

O que há alguns anos parecia impossível se tornou inevitável. A Câmara dos Deputados votou o fim da odiosa escala 6×1, refletindo um amplo clamor social. Sem lugar a dúvidas, uma vitória histórica da classe trabalhadora brasileira, que impõe uma dinâmica política às vésperas da eleição de caráter nacional. Se abre um importante cenário ao se reduzir em um dia a semana de trabalho, a partir de 60 dias a contar do aprovação no Senado.

A votação no parlamento foi absoluta. Foram 472 votos favoráveis contra 22 contrários, majoritariamente de partidos da extrema direita como Novo, PL e Missão, em primeiro turno. Na segunda votação, foram 461 a 19. A extrema direita tentou todas suas manobras para obstruir, chegando às raias de propor 10 anos como transição. A confusão dos golpistas foi derrotada com o texto seguindo ao Senado. É preciso vigilância e mobilização, porque os patrões seguem inconformados. E aproveitar a politização que tomou conta das ruas e das redes em cada debate.

Uma ampla maioria popular, expressa nas ruas e nas redes, celebrou essa conquista. Os tão falados grupos de família no WhatsApp dessa vez não estiveram marcados pelo apoio ao conservadorismo. A pauta pela redução da jornada de trabalho conseguiu calar fundo em dezenas de milhões de brasileiros, chegando ao impressionante número de mais de 70% de apoio, dado incomum para uma sociedade politicamente fraturada como a nossa.

A persistência do movimento VAT – Vida Além do Trabalho encontrou espaço para construir uma agenda progressiva diante da crise do capitalismo – que poucas ou nenhuma reforma oferece nessa etapa – dobrando um congresso marcado por interesses patronais e dominado pelo Centrão. Contra a parede, faltando cerca de 120 dias da eleição, poucos estariam dispostos a arriscar ter seu nome listado como inimigo da classe trabalhadora.

O governou captou bem o sentimento popular, sabendo que essa é uma batalha crucial para sua estratégia eleitoral, numa disputa onde cada voto importa, difundindo campanhas publicitária destacando a importância do tempo para o conjunto dos trabalhadores. Lula discursou no mesmo sentido. A sociedade e a maioria dos representantes entraram em discussão sobre um tema central para o mundo do Trabalho: a disputa do tempo e a jornada laboral.

Não tivemos manifestações expressivas sobre a pauta, apesar de tamanha energia. Como explicar? Para além da paralisia das direções majoritárias e da linha do governo de evitar qualquer jornada “a quente”, a nova classe trabalhadora, majoritariamente jovem e concentrada, se expressou pela via da opinião, numa torrente imparável que tomou às redes. Não se expressou tanto nas ruas, justo pela falta de tradição, pela falta de uma estratégia coerente – sequer tivemos apelos a um ato de 1 de Maio unitário – mas houve um deslocamento importante do pêndulo político, senão à esquerda, em direção a um maior sentido de classe e de reinvindicação. Uma porta que se abriu.

Como afirmamos foi uma disputa de ‘caráter político nacional’, como já indicamos em outros textos e editoriais, também pautando já eleição, ainda que existam lutas moleculares de importância fundamental sobretudo para os setores e categorias envolvidas. Tivemos greves de professores municipais em capitais como SP, sendo que a de Belo Horizonte segue combatendo. Ou a greve das universidades estaduais paulistas que realizou o maior ato – cerca de 12 a 15 mil pessoas – de oposição a Tarcísio Freitas.

Como a disputa foi mais política que qualquer outra coisa, ela condiciona e está condicionada pela disputa eleitoral. O cenário eleitoral obedece a uma primeira etapa que deve durar até o mini recesso da Copa, segundo alguns analistas comentam, como Vinicius Torres Freire na Folha. A derrubada da 6×1 incide nessa conjuntura.

O caso Bolsomaster mudou a dinâmica eleitoral. Avariado diretamente, Flávio alterou a curva ascendente, perdeu respaldo, deixando a extrema direita num impasse. A confiança dos aliados em Flávio caiu, assim como suas intenções de voto. O que parecia o início de um favoritismo estancou e retrocedeu. Alguns colocaram em questão até sua candidatura. Como a eleição tem a marca do nosso tempo, a da imprevisibilidade, nada está resolvido e Flávio luta para retomar a iniciativa.

Flávio logrou uma foto com Trump, que significa muito, em meio à crise. Busca um salvo conduto para concorrer com as mesmas prioridades de antes, mas com oposição à direita mais desconfiada, onde Renan Santos quer capitalizar na juventude e Caiado e Zema buscam um armado para criar um polo que dispute caso Flávio se enfraqueça.

Foi grave o resultado de incluir PCC e CV na lista de organizações criminosas, retomando a sombra de uma interferência mais direta na eleição brasileira.

Há lógica na foto com Trump, pois o debate internacional está no centro e deve ganhar mais força. O pântano do imperialismo no Irã, o acosso sobre Cuba e atual rebelião popular boliviana disputam o imaginário e sentido comum meses antes da eleição brasileira. A extrema direita joga seu futuro nas eleições brasileiras e colombianas, além da estratégica disputa de Trump nas eleições intermediárias de novembro.

Como expressão política, não se pode contornar o fortalecimento da simpatia pelo PSOL e por suas figuras, com o tema da 6×1, um verdadeiro fenômeno de redes que vai se expressar na política e eleitoralmente. Cabe a ala esquerda do PSOL organizar essa simpatia em força militante. As redes sociais foram inacreditáveis, com Sâmia e Fernanda, por exemplo, destacadas, além de Erika e Rick Azevedo. Vralizou a ironia de Samia contra Nikolas. Haja óleo de peroba para tamanha cara de pau do líder da extrema direita.

É preciso mobilizar, caso o Senado ameace desidratar as propostas aprovadas na noite de ontem, portanto caberia as Centrais Sindicais, a UNE e a UBES, convocar um plano de lutas e paralisações.

Embora a classe trabalhadora ainda não esteja num nível de mobilização que coloque a greve geral como tarefa imediata e para ação, não se pode descartar essa perspectiva caso o Senado busque desconstruir a vitória. Nesse caso, a maioria social favorável ao fim da 6×1 pode criar as condições para uma ação nacional mais decidida, com grandes passeatas e atos. A ideia de parar o país serve como apresentação da necessidade de se ir até as últimas consequências por essa conquista, como como vem propondo a campanha do STILASP, sindicato que esteve a frente da vitoriosa greve da Pepsico.

Não se pode parar por aí. Os milhões que discutiram nas escolas, bairros, shoppings, universidades, fábricas e locais de trabalho sobre os rumos do país e do trabalho, revigorando – de forma incipiente – são um ativo fundamental para a construção de uma ferramenta real da nova classe trabalhadora, que votará por Lula como tática de contenção, mas que necessita ir muito além em seu programa e métodos de luta. A ação de Trump, no dia seguinte a expressiva vitória indica que a polarização vai seguir.

A campanha eleitoral terá a marca da polarização, e devemos nos jogar, aproveitando o enorme apoio que o PSOL vem tendo para construir um movimento que garanta a vitória de Lula e a eleição de uma bancada parlamentar comprometida com as lutas do presente e do futuro.

A rebelião boliviana ensina que a extrema direita e os capitalistas precisam ser derrotados pela força da classe e de todo povo, pela força do programa.


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