Faria Lima e o monopólio do crime
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Faria Lima e o monopólio do crime

Relação do crime organizado com mercado financeiro e bancos digitais expõe dinâmica inerente ao modelo capitalista

Theo Louzada Lobato 28 ago 2025, 15:34

As recentes descobertas pelo Ministério Público de São Paulo sobre as relações financeiras entre o Primeiro Comando da Capital e a Faria Lima, são mais um desenvolvimento de uma relação, cada vez mais explicita, entre o crime organizado e o capital financeiro. As revelações da operação, de fato, são destacáveis: 40 fundos de investimento com patrimônio de mais de 30 bilhões controlados pela facção, além da descoberta de que o grupo teria bens como um terminal portuário, 4 usinas de álcool, 1600 caminhões de combustível e mais de 100 imóveis, incluindo fazendas, pelo país.

O PCC, segundo a investigação, estaria dominando a produção de cana-de-açúcar e controlando milhares de postos de combustíveis pelo país, se utilizando em especial de bancos digitais (fintechs), que até então possuíam menor grau de fiscalização, para lavar o dinheiro do crime organizado e expandir seu modelo de negócios. Essas revelações, mesmo sendo impactantes, não são as primeiras que ligam o monopólio do crime com o setor financeiro brasileiro.

Uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, ainda esse ano, revelou um esquema do Comando Vermelho de lavagem de 6 bilhões de reais por meio da fintech 4TBank. Esse banco, ainda em 2024, tinha sido investigado por ser fundando pelo próprio PCC e ser um dos principais meios para lavagem de dinheiro e compra de políticos nas eleições daquele ano pela organização. O valor movimentado que estava sendo investigado nessa operação realizada pela Polícia Civil de Mogi das Cruzes era em torno de 8 bilhões.

A financeirização do crime organizado, portanto, é uma realidade já consolidada no Brasil, mesmo que só agora recebendo maior destaque pela amplitude que já alcançou. É reflexo de um processo de monopolização do próprio crime organizado, que se fortaleceu ainda mais partir de 2016, em especial com um salto de qualidade do PCC e do CV no mercado internacional do narcotráfico. O maior exemplo desse salto é o relativamente recente controle do Primeiro Comando da Capital da Rota Caipira (entre Brasil e Paraguai) e do Comando Vermelho da Rota Solimões (entre Peru e Brasil).

A monopolização do crime se expressa nas mais diversas formas. A entrada de ambas facções em novos ramos legais e ilegais, como o garimpo e extração de madeira na Amazônia, o contrabando de cigarro ou até mesmo a venda de produtos como gás e TV a cabo nas comunidades, replicando características das milícias no Rio de Janeiro, é um exemplo. Mas também a expansão do domínio territorial, como se pode perceber com a ampliação das ações do Comando Vermelho por todo o Norte do país.

Essa dinâmica de consolidação de monopólios, é característica do capitalismo em si – os maiores capitais (ou seja, as maiores organizações criminosas), conseguem melhores condições de acumular e ampliar seu capital, criando assim melhores condições de se reproduzir: contratar mais pessoas, comprar mais produtos, melhorar sua distribuição, etc. A essa dinâmica, se soma, nas palavras de Marx, a centralização do capital, ou seja, a incorporação de capitais menores aos maiores, no caso das organizações criminosas esse processo pode se dar pela entrada de uma facção em outra ou pela guerra e eliminação física da outra facção, tomando seu território e mercado consumidor.

Com a necessidade de mais espaço para crescer, os monopólios do crime ampliam em território, em áreas de atuação e também encontram uma necessidade de se fundir com o capital bancário. Lenin dizia que o imperialismo, como fase superior do capitalismo, era marcada exatamente pela fusão do capital industrial com o bancário, se tornando o capital financeiro. A necessidade por lavagem de dinheiro do capital ilegalizado e de expansão além da sua capacidade produtiva se soma com a necessidade dos bancos de crescimento infinito e novos recursos para sua disputa entre capitais, custe o que custar.

Ou seja, com o peso econômico do crime organizado no Brasil, sua financeirização é um processo natural. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que ao menos 146 bilhões de reais são movimentados ao ano pelo crime organizado brasileiro, uma quantia impossível de ser manuseada sem apoio direto do capital financeiro e dos grandes bancos. As fintechs, bancos digitais que até 2024 tinham praticamente nenhum tipo de fiscalização, eram forma de facilitar esse processo, por isso sua inclusão no monitoramento governamental em 2025 foi muito importante. Mas de forma nenhuma podem ser vistas como o problema causador desse processo de financeirização do crime no Brasil.

A realidade brasileira é reflexo das necessidades do próprio capitalismo de expandir seu mercado e não são exclusividade no país. Os esquemas bilionários entre grandes bancos norte-americanos como o TDBank e o HSBC e os cartéis mexicanos demonstram a normalidade desse processo no desenvolvimento de um capitalismo cada vez mais dominado por grandes monopólios bancários.

No caso do HSBC, em 2012, os documentos internos do banco demonstraram diretamente como a lavagem de dinheiro feita pelo crime organizado era sabida e incentivada pelos executivos do banco. Isso não se trata de uma questão moral, mas é parte da própria necessidade de acumulação do capitalismo e as condições objetivas de uma dominação do sistema financeiro sobre o todo da economia. A construção de bancos “grandes demais para falir” baseados na atividade especulativa e com fiscalização limitada pelo domínio político desse setor sobre a grande maior parte dos governos, permite com que operações necessariamente aconteçam.

Essa reflexão precisa, portanto, ser levada para o Brasil. Segundo estivas de 2011 do Escritório de Drogas e Crime da ONU, o montante de dinheiro lavado pelo varejo da cocaína no Brasil era de um pouco mais de 20%, enquanto no atacado era de mais de 90%. Ou seja, a maior parte do lucro do traficante local ainda era gasto em dinheiro físico, muitas vezes na própria comunidade, mas aquele que leva a cocaína à comunidade, tem um esquema muito mais complexo de lavagem de dinheiro, muitas vezes também envolvendo bancos estrangeiros offshores, onde a fiscalização é ainda menor.

Isso explicita ainda mais como a atual política racista de guerra as drogas é inútil no combate ao crime organizado. O enfrentamento hoje aos monopólios do crime só pode ser feito a partir de uma agenda de enfrentamento também ao monopólio dos grandes bancos e do sistema financeiro. Se já não era explícito, essa operação é mais uma demonstração que aqueles que mais lucram com o crime organizado no Brasil estão na Faria Lima e outros centros financeiros, há anos lucrando, sem grandes riscos ou exposição.

É preciso construir um debate anticapitalista sobre o enfrentamento ao crime organizado, reafirmando a política de legalização das drogas, mas indo além, debatendo que o enfrentamento à “bancocracia” também precisa estar no centro. Aqueles que lucram com o sangue jovem e negro e seguem impunes estão nos grandes espaços de poder, também é nosso desafio desmascará-los.


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