Longe é um lugar que não existe
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Longe é um lugar que não existe

Os desafios de 2026, ano eleitoral no Brasil, devem ser encarados a partir das lições das lutas presentes em 2025

Israel Dutra 24 dez 2025, 12:52

Nosso último editorial do ano faz menção ao título de um grande romance juvenil de Richard Bach para registrar quais os traços fundamentais da intensa situação política que vivemos. A extrema direita – como expressão de um setor da burguesia internacional- está disposta a destruir os pilares das conquistas democráticas, dos direitos da classe, da razão crítica e do meio ambiente erguidos nos últimos anos, fruto da policrise capitalista. A coragem dos que resistem são inspiração para o lugar da luta política que deve combinar ousadia, unidade e independência.

Nesse momento, se jogam importantes batalhas com as dos trabalhadores dos Correios e da Petrobrás que seguem em greve em defesa do serviço público. Toda solidariedade com esses trabalhadores deve ser reforçada e difundida.

Os desafios de 2026, ano eleitoral no Brasil, devem ser encarados a partir das lições das lutas presentes. O primeiro deles é reforçar a preparação para a Conferência Antifascista de Porto Alegre, em Março.

Queremos registrar, de forma sintética e resumida, cinco dos principais eixos que marcaram 2025 e devem seguir marcando a conjuntura. Com isso nos despedimos dos leitores e desejamos um final de ano, retornando na segunda semana de janeiro, a luz da construção do MES, do PSOL, de nossos amigos e simpatizantes.

Em primeiro lugar, denunciar a agressão de Trump a Venezuela

Trump já roubou três navios petroleiros, passando de todos os limites, escalando o sentido de sua intervenção. Não esconde seus motivos: quer roubar e controlar o petroleo e as terras da Venezuela. Derrubar o regime de Maduro e instaurar um governo títere de seus planos. A reunião do Mercosul foi marcada pela pressão dos que sustentam o cerco à Venezuela, à Colombia e ao Caribe. Milei, agora reforçado pela eleição do pinochetista Kast lidera a intervenção política para legitimar a ação golpista do imperialismo, amparado na farsesca premiação de Corina Machado com o Nobel da Paz.

Apesar do período de festas, devemos redobrar a denúncia e exigir dos governos a necessidade de romper o cerco midiático e defender a soberania da Venezuela. A carta de parlamentares1, impulsionada por Fernanda Melchionna, deputados do PSOL e de diversos partidos (já superou as 40 assinaturas), linkar aqui, é um bom exemplo do que pode e deve ser feito. A posição de Gustavo Petro – mantendo sua postura crítica e de diálogo com a esquerda ampla na Venezuela- e sendo vanguarda na denúncia da intervenção imperialista é uma referência.

A grande questão na virada do ano será o que vai acontecer no mapa da política latino-americana. A violação da soberania venezuelana será um gesto de agressão contra todos os povos do continente, superando a ocupação do canal do Panamá, em 1989. Trump precisa ampliar seu controle, consonante com o documento “Nova Estratégia de Segurança Nacional”, pois sofre importante resistência dentro dos próprios Estados Unidos, onde cresce sua impopularidade, as greves e mobilizações e o caso Epstein é uma caixa de pandora que assombra a Casa Branca.

O combate ao imperialismo e a extrema direita atualizam a importância da I Conferência Internacional Antifascist pela Soberania dos Povos que está sendo preparada para o final de março de 2026, em Porto Alegre.

Genocidio, guerras e resistências

A imagem do ano é a destruição da Faixa de Gaza, organizada e ordenada por Netanyahu com apoio de Trump. O plano de paz e a trégua são parte da ofensiva neocolonial que levou ao maior genocidio da história moderna, reconhecido por amplos setores do próprio judaismo como comparável ao holocausto. Segue a ação militar contra o Líbano e as mílicias de colonos na Cisjordânia. Em 2025, tivemos o maior derramamento de sangue e destruição civilizatória desde a II Grande Guerra, transmitido pelo TikTok e sustentado politicamente pela extrema direita no mundo- com o apoio de diferentes governos como os trabalhistas no Reino Unido e a omissão de outros tantos.

A crise do capitalismo – cujo filho bastardo é o neofascismo redivivo – gera a uma corrida bélica também sem precedentes. Ao contrário do que se orgulha Trump, que proclama que acabou com 8 guerras, o mundo está mais militarizado. A invasão russa da Ucrânia prossegue apesar das negociações. A Europa e a OTAN estão se rearmando, retirando orçamento das áreas sociais, ampliando portanto o ajuste, para investir diretamente em gastos militares. O aumento exponencial dos gastos militares europeus ultrapassaram € 130 bilhões em 2025, um salto de 42% em 2024.

As resistências acompanham, de forma heróica, a barbárie vista. O maior exemplo é a luta do povo palestino, sua solidariedade internacional, que teve momentos altos como foi a Global Sumud Flotilla, as enormes passeatas em todo mundo, a greve geral na Itália e Espanha. As revoltas populares também derrubaram governos, motorizados pelo que chamam de “Geração Z”, que nada mais é do que a juventude e classe trabalhadora indignada e degradada pelas condições de vida, muitas vezes disputada pela extrema direita com seu falso discurso. Novas greves gerais foram exitosas na Itália, Bélgica e Portugal, além de novos fenômenos políticos. Greta Thunberg é uma expressão, mas também a eleição de Mandami em Nova York e o crescimento do DSA.

No Brasil, cenário aberto e polarização

O ano terminou com muitos escandalos de corrupção – como o dos Banco Master e do Refit, os que levaram a prisão do presidente da Alerj, Bacellar e do líder do PL, Sóstenes Cavalcante. Isso ilustra o tamanho da crise – que tende a se aprofundar e aparecer com muita força na campanha eleitoral que já começa a se avizinhar.

A força das ruas – que se fez notar em 21 de setembro nos grandes atos contra a PEC da Blindagem- e também nos atos (ainda que menores) como o do 14 de dezembro contra a anistia – é a chave para encarar as incertezas da situação política. Os atos como a Marcha das Mulheres Negras em Brasília e as manifestações convocadas pelo Levante das Mulheres Vivas mostram a disposição de setores de confrontar não só o bolsonarismo, mas seus desdobramentos como a violência contra as mulheres e a politica de genocídio da juventude negra na periferia.

O cenário eleitoral está aberto. Flávio pode ser o candidato do núcleo duro do bolsonarismo, mas a confusão no campo da extrema direita vai perdurar durante todo o primeiro semestre. No campo democrático, o voto em Lula atua como cordão sanitário para impedir a volta de um projeto autoritário e ultraliberal- que pode vir dos Bolsonaro mas também de Tarcísio ou outra variante- é um imperativo, ainda insuficiente. Deve vir combinado a construção de um polo crítico, capaz de soldar a unidade antifascista, mas crítico para se enfrentar as medidas de ajuste do governo, ser um ponto de apoio às lutas em curso e em defesa de um programa concreto: que defenda a taxação dos ricos, a redução da jornada de trabalho, o direito dos trabalhadores e o serviço público, o fim da guerra aos pobres e a defesa do meio ambiente, contrariando os interesses extrativistas como o da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Nossas batalhas políticas

Em 2025, a militância do MES, suas lideranças e suas figuras públicas enfrentaram e participaram de todas as lutas. Estivemos com ativistas nos piquetes, greves e manifestações, bem como nossos porta-vozes lutaram nas câmaras e assembleias para fazer ressoar as necessidades populares.

Tivemos um encontro nacional que precisou nossa tática geral e anunciou importantes tarefas como a Conferência Antifascista de Porto Alegre e uma nova Revista impulsionada pelo MES e Vladimir Safatle, com a colaboração de diversos intelectuais a serviço de um polo crítico anticapitalista e ecossocialista. A nova revista será lançada no primeiro trimestre de 2026.

Essa ano ingressamos de forma plena na IV Internacional, ampliando ainda mais nossas campanhas e tarefas de solidariedade internacional, com centro na solidariedade à Palestina. Foi um passo estratégico, nosso ingresso aprovado por ampla maioria no XVIII Congresso Mundial da IV Internacional, em fevereiro no litoral belga. O congresso aprovou documentos importantes de orientação política, o Manifesto Ecossocialista (publicado pela Revista Movimento e pela Boitempo, em suas edições brasileiras), além de posições de princípios quanto à luta de classes, o apoio à resistência ucraniana e a delimitação com governos de conciliação de classe.

Estivemos a frente de inúmeros debates, manifestações, lançando pela Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, uma cartilha que se tornou referência para toda a esquerda acerca da agitação e informação sobre a luta do povo palestino. Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, alias, que sob a direção do MES e aliados, se fortaleceu como referência para um setor crítico da esquerda. Ainda sobre a Palestina, tivemos o orgulho de ter três quadros do MES envolvidos na maior atividade internacionalista de solidarierdade ativa, como já dito, a Global Summud Flotilla; junto à Greta e Thiago Ávila, Mariana Conti, Gabi Tolloti e Nicolas Calabrese representaram o MES PSOL nessa épica jornada.

Estivemos presesentes nas lutas sindicais e da juventude, fortalecendo as batalhas do Juntos e da TLS; o Emancipa se reorganizou como ferramenta da educação popular; o Juntas cumpriu papel central na convocatória de atos feministas; tivemos o lançamento da nossa colateral de negritude, a Maré Negra, já de largada tomando partido e denunciando a chacina de Claudio Castro.

Na COP-30, participamos de inumeras atividades com a FLCMF, nossa setorial ecossocialista do MES e lideranças da juventude, dos povos indígenas e quilombolas. Além de estarmos na organização do Encontro Ecossocialista Latino Americanoe Caribenho, apoiamos e nos somamos, junto às lideranças indígenas do Baixo Tapajós, da ocupação simbólica da Blue Zone, momento de inflexão dentro do processo que aumentou o tom dos movimentos que denunciavam a hipocrisia da COP-30, lutando contra a exploração do petróleo, a privatização dos Rios e a falsa saída apontada pelo TFFF.

Além disso seguimos nossa batalha no PSOL – que completou 20 anos de legalização e votou um programa de compromisso em sua recente conferência que, ao nosso ver, preserva parte importante das características que o destacam como alternativa política, apesar da indicação de Boulos para o ministério. Essa indicação, que não foi discutida dentro do PSOL, foi um alerta perigoso para a já crescente institucionalização e adaptação ao governismo que envolve ao Partido.

Do que é feito o futuro?

Diante de tamanha polarização e incerteza, como ter expectativas quanto ao futuro? Como se postular, para superar as dificuldades – num período onde a luta dos trabalhadores no Brasil está em “baixa rotação”, além da cooptação por parte do governo da ampla maioria das direções dos movimentos sociais e populares?

Como encarar a extrema direita quando ela parece muito forte e ainda por cima controla as redes sociais? Como evitar que o desenvolvimento da Inteligência Artificial e das tecnologias militares nos levem a uma regressão secular quanto aos direitos?

É preciso se apoiar o senso de urgência, diante da catástrofe ambiental, social e política que o capitalismo leva ao Planeta. É esse senso de urgência que deve servir para dialogar de forma aberta com nosso entorno sobre os problemas concretos- o aumento da temperatura, a falta de luz e agua, os baixos salários, a corrupção dos políticos e banqueiros- e buscar saídas com maioria social, tanto no terreno da luta política quanto no terreno da luta eleitoral.

No ano que chega teremos inúmeros desafios: construir a Conferência Antifascista- que já arranca com mobilização em Porto Alegre, onde foram colados milhares de cartazes e com reuniões on line com participantes de 30 países para preparar o evento; preparar o MES e o PSOL para a luta eleitoral, sendo referência na primeira fileira para derrotar a extrema direita, reelegendo nossos mandatos,conquistando novos postos e formando diversas lideranças, sem deixar de apresentar uma alternativa e um programa.

Formar as novas gerações à luz do marxismo revolucionário. A difusão e estudo do Manifesto Ecossocialista é parte desse esforço.

Terminamos o ano lembrando a famosa “trégua de natal”, em plena I Guerra, em dezembro de 1914, quando a confraternização voluntária de soldados desafiou a máquina de guerra das potências imperialistas. Seria uma antecipação do processo de anos mais tarde, quando a Revolução de 17 mudou o mundo e selou o fim da carnificina. Da barbárie nasceria à resistência.

É preciso reafirmar que o capitalismo não é invencível e que as lutas- como marca a ferro e fogo a incansável luta do povo palestino- são capazes de produzir novas sínteses e novas coordenadas. Disso é feito o futuro. Para tanto recuperar nossa capacidade de pensar grande e longe- sem perder os pés das necessidades imediatas, unitárias e concretas – é uma condição e uma estratégia.

Nota

  1. Confira a carta abaixo. ↩︎

TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

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