Alerta ignorado na Foz do Amazonas
Vazamento de fluido expõe riscos da exploração de petróleo que o governo insiste em empurrar, apesar dos alertas de ambientalistas e povos tradicionais
Foto: Agência Petrobras
O vazamento registrado no último domingo (4) durante a perfuração do poço Morpho, na Foz do Amazonas, reacendeu críticas à insistência do governo federal em avançar com a exploração de petróleo em uma das regiões mais sensíveis do planeta. Embora a Petrobras e o Ibama afirmem que não houve derramamento de petróleo, apenas a liberação de fluido de perfuração, o episódio reforça, para ambientalistas, que o risco ambiental não é hipotético – ele já está em curso.
Segundo a Petrobras, houve “perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares” que ligam a sonda ao poço, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. A estatal sustenta que o material vazado é biodegradável e “atende aos limites de toxicidade permitidos”, assegurando que “não há dano ao meio ambiente ou às pessoas”. O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, corroborou a versão ao afirmar que “não há petróleo no vazamento” e que o problema decorreu de uma despressurização de fluido hidráulico, também classificado como biodegradável.
Ainda assim, o próprio Ibama confirmou que houve “descarga do fluido para o mar” e que as causas do incidente seguem em apuração. Para organizações socioambientais, o fato de o primeiro poço exploratório da região já apresentar falhas técnicas expõe a fragilidade do discurso oficial de controle absoluto dos riscos.
“Se antes mesmo de alcançar o petróleo já há vazamento, imaginar um cenário de produção em larga escala é temerário”, alertam pesquisadores ouvidos por entidades como o Observatório do Clima e o Instituto Arayara.
A exploração na Foz do Amazonas sempre foi alvo de forte resistência. Em pareceres técnicos anteriores, o próprio Ibama havia negado a licença à Petrobras, citando a dificuldade de resposta rápida a acidentes em águas profundas, a distância da costa e o risco direto a manguezais, recifes, além de povos indígenas e comunidades ribeirinhas. A autorização concedida em outubro de 2025 só veio após intensa pressão política, inclusive do presidente Lula e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Para ambientalistas, a insistência do governo contradiz compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.
“Não faz sentido o país querer liderar a agenda ambiental global e, ao mesmo tempo, abrir uma nova fronteira petrolífera na Amazônia”, afirma Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
A entidade defende a estratégia do “petróleo no chão”, argumentando que explorar novas reservas é incompatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme o Acordo de Paris.
Além do impacto climático, especialistas alertam para danos irreversíveis à biodiversidade marinha. Estudos citados por organizações como o Greenpeace Brasil apontam que correntes marítimas na região poderiam espalhar rapidamente um eventual vazamento de óleo, atingindo não apenas o Amapá, mas também o Pará, a Guiana Francesa e até o Caribe.
“É uma área de altíssima complexidade ambiental, onde um acidente teria consequências transfronteiriças”, destacam os pesquisadores.
Mesmo diante desses alertas, o governo e a Petrobras seguem apostando no potencial econômico da Margem Equatorial, estimado em bilhões de barris de petróleo. Para os críticos, trata-se de uma visão de curto prazo, que sacrifica o meio ambiente e os modos de vida locais em nome de receitas futuras incertas. O vazamento de fluido no poço Morpho, ainda que minimizado pelas autoridades, surge como um sinal claro de que os riscos não são abstratos – e de que insistir nessa rota pode custar caro demais ao país.