2025: a história se acelera rumo aos limiares que decidirão o futuro
José Corrêa Leite analisa a crise da ordem global, o retorno agressivo de Trump, o avanço do negacionismo climático e os riscos do poder das big techs para a democracia e a saúde mental
Foto: Fotos Públicas
Completa-se um quarto de Século 21 e a humanidade se vê cercada de dilemas. No plano geopolítico, países se ameaçam ou efetivamente agridem, no que parece representar fielmente o fim dos acordos que criaram a ordem global conhecida por todos. A Cúpula do Clima realizada em Belém, neste sentido, foi fiel retrato das câmaras de eco que se tornaram as discussões entre as nações. O interregno prossegue, enquanto os alarmes da terra soam cada vez mais altos. Na entrevista ao Correio, o cientista político José Correa Leite analisa todo este processo histórico, que pareceu se comprimir mais dramaticamente neste ano.
Em sua visão, o retorno de Trump à presidência dos EUA é o fato político que hierarquiza os demais. Sua segunda presidência repete em dimensão ampliada as ofensivas de seu primeiro mandato. De um lado, consegue avançar em interesses nacionais mais evidentes e submete a Europa a uma humilhação existencial. De outro, há uma China e todo um bloco asiático que mostraram estar prontos para seus botes.
“Trump e o setor da burguesia estadunidense que o apoia têm uma avaliação de que a inércia do sistema como montado hoje não beneficia mais os Estados Unidos; beneficia a China. E há um quê de verdade neste diagnóstico conservador. Os Estados Unidos estão em declínio. Daí a agressividade transacional de Trump em arbitrariamente não respeitar ou alterar as regras de relações internacionais que não são imediatamente favoráveis aos EUA”.
Para além das paixões políticas despertadas, José Corrêa Leite analisa em termos materiais a agenda de Trump. E atesta que sua aposta é mais limitada, o que tenderá a se expressar apenas na reta final de seu mandato. A opção por vencer a “Nova Guerra Fria” com uso irrestrito da indústria dos combustíveis fósseis e aliança com as big techs em seu brutal “experimento social tecnológico” tem tudo para fracassar.
“Não temos uma única revolução tecnológica, a do digital (e da IA); temos, ao mesmo tempo, a revolução tecnológica da eletrificação da sociedade, a chamada transição energética e a adoção de toda uma infraestrutura econômica da sociedade baseada em energias renováveis, eólica, solar, baterias, esquemas de armazenamento, com eletrificação dos transportes. Aqui a vantagem da China era colossal e Trump facilitou sua dianteira”.
No entanto, o poder do capital das plataformas digitais já penetrou as sociedades de forma que a tarefa para sua reversão exigirá uma monumental engenharia política e também ideológica. Isso porque já estamos no mundo onde as relações sociais – das produtivas às afetivas – são mediadas por tais empresas e sua lógica reprodutiva. E os danos à humanidade são grandiosos como o poder econômico de tais atores.
“Nós já estamos com gerações que nasceram com o smartphone e isso foi reconfigurando o cérebro dos agora adolescentes, assim como de crianças atuais, e literalmente danificando as capacidades mentais de parcelas importantes da população. Uma parte do dano é irreparável, mas temos que lutar pelo direito das novas gerações à saúde mental”.
Como se não bastasse, há um colapso climático batendo na porta. Como explicado por Leite, o padrão do clima e seus reflexos ecológicos se aceleraram de forma exponencial nos últimos anos. O cenário previsto para 2050 chegou quase 30 anos antes. E as pontes estabelecidas pelos acordos históricos de Paris, em 2015, foram implodidas.
“O negacionismo climático é hoje um componente central da política da extrema-direita e do neofascismo. Está diretamente vinculada a imperialismos mais agressivos e guerras de conquista. Gaza é, nesse sentido, o laboratório do futuro das populações descartáveis”.
Diante de tudo isso, o Brasil ocupa posição rara: exibiu condições de se defender da agressividade imperialista, mas tampouco está imune ao cerco neofascista. No entanto, repete a sina dos governos progressistas e não vai além do trivial na gestão do Estado e sua lógica econômica destruidora.
“O Brasil é exceção, mas precisamos zelar para que o caldo não entorne. E ganhar tempo para enfrentar os dois problemas estruturais sem os quais não há reconstrução da esquerda: que seja ecossocialista e batalhe por um modelo econômico coerente e que compreenda a centralidade da soberania e da regulação do digital. Se não tivermos os dois elementos equacionados, dificilmente poderá ocorrer uma nova ofensiva de um projeto de esquerda no mundo”.
Leia a entrevista completa com José Corrêa Leite.
Correio da Cidadania: O ano parece manter uma “estabilidade” da crise geral da civilização, tal qual os últimos, com impasses de todo tipo, trocas de governo de polos opostos sem nenhuma mudança de natureza sistêmica, explosões de revolta social e um sentido de mudança geopolítica, que paulatinamente coloca a Ásia no centro do protagonismo econômico global. Uma síntese de 2025 e seu sentido conjuntural passaria pelas noções aqui descritas?
José Corrêa Leite: Tenho acordo com essa síntese do ano, com uma ponderação. A posse de um segundo governo Trump marca um salto de qualidade na crise da civilização capitalista. Mas é verdade que estamos dentro dos marcos da policrise aberta em 2008, para utilizarmos o termo empregado, entre outros, por Edgar Morin e Adam Tooze. O esgotamento da fase expansiva da globalização neoliberal produz por todas as partes sintomas mórbidos. Esse é o pano de fundo dos acontecimentos que se sucedem na conjuntura.
De um lado, há o acirramento da crise climática, que, depois de 2023, apresenta um forte agravamento. A temperatura que estava em torno de 1,3 grau deu um salto para 1,5 – e há indícios convincentes de que pode se manter nesse patamar. Pode parecer um aumento pequeno, mas é uma mudança de qualidade gravíssima, que produz mais catástrofes por todo o planeta.
Há também uma exacerbação dos processos de inovação das tecnologias digitais, agora centrados na chamada “inteligência artificial” (IA). Ela é o foco de uma ideologia mistificadora e carrega, evidentemente, ameaças, particularmente no modelo estadunidense. Mas a IA é apresentada como um elemento de desestabilização muito maior do que efetivamente é para difundir insegurança e medos que são funcionais para o sistema.
Nós temos as tendências ao agravamento ainda maior das desigualdades, que nunca tinham sido tão grandes na história e ficam maiores a cada ano. Tudo isso continua gerando tendências autoritárias de corrosão dos regimes de democracia liberal e fortalecimento de movimentos políticos e ideologias conservadoras, xenófobas e fascistas.
As tendências sistêmicas, ligadas ao declínio ou desarranjo da forma como o capitalismo dominante se organizava, constituem, então, o pano de fundo dos acontecimentos centrais do ano de 2025 – e do que podemos visualizar adiante, para 2026 e mais além.
Correio da Cidadania: A respeito dessa noção de crise de civilização, quando os Estados Unidos bombardearam as instalações nucleares do Irã o ex-chanceler Celso Amorim falou em um seminário na USP que “a ordem global dos últimos 80 anos estava morta”. Tal ideia tem sido propalada por diversos outros atores importantes. Concorda com tal raciocínio, no âmbito geopolítico?
José Corrêa Leite: O grande acontecimento do ano de 2025 foi, como disse, a volta do Trump ao poder nos Estados Unidos, com um projeto nacionalista de corte neofascista. É o esforço de uma parcela da burguesia estadunidense de tentar conter a ultrapassagem econômica dos Estados Unidos pela China, concentrando-se apenas naquilo que a beneficia de maneira mais imediata.
A ordem saída do final da Segunda Guerra Mundial, a chamada de relações internacionais baseadas em leis e acordos multilaterais, alicerçou-se em um pacto dos EUA com a União Soviética, na formação da ONU e, doutrinariamente, até mesmo na aprovação, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Com o colapso da URSS, os EUA se reposicionaram para tornarem estas instituições ainda mais favoráveis aos seus interesses (por exemplo, com a criação da Organização Mundial de Comércio e seu tratado de propriedade intelectual), mas em um processo de globalização que parecia virtuoso e beneficiava as classes capitalistas em todas as partes do mundo. A visão geral era que o desenvolvimento do mercado mundial de conjunto favoreceria a economia norte-americana. Isso mudou com a crise de 2008. Obama procurou manter os velhos marcos, mas a eleição de Trump em 2016 já expressou um descontentamento com tal orientação. Agora Trump passa a desconstruir de maneira sistemática muito do que vinha sendo construído por Washington desde Franklin Delano Roosevelt: os Estados Unidos como coordenador benevolente do sistema internacional. Hoje, com Trump, os EUA sequer assinariam a DUDH!
Trump e o setor da burguesia estadunidense que o apoia têm uma avaliação de que a inércia do sistema como montado hoje não beneficia mais os Estados Unidos; beneficia a China. E há um quê de verdade neste diagnóstico conservador. Os Estados Unidos estão em declínio. Daí a agressividade transacional de Trump em arbitrariamente não respeitar ou alterar as regras de relações internacionais que não são imediatamente favoráveis aos EUA.
Trump usou de todos os recursos possíveis para tentar obter vantagens, às vezes as mais triviais, nas negociações econômicas internacionais, na contenção chinesa, no enquadramento dos aliados, na preservação de seus mercados e áreas de influência. Ele tem o objetivo, a meu ver ilusório, de reindustrializar os EUA. Mas tem que se confrontar com a resiliência chinesa. Diferentemente de seu primeiro mandato, quando iniciou guerras comerciais descoordenadas, ele foi agora mais sistemático, obtendo ganhos da Europa, Japão, Coréia e muitos outros países, que aceitaram sobretaxas unilaterais em suas exportações para aos EUA. Mas agora a China estava preparada para a ofensiva, tirou de letra os ataques e o forçou a recuar em relação aos seus objetivos imediatos frente a Pequim.
Vemos uma China muito mais confiante em suas próprias forças, mais preparada e presente no cenário internacional. Mas não é só isso. Há também o colapso geopolítico da Europa, pressionada pela expansão da Rússia na Ucrânia. Os europeus se tornaram muito mais submissos e dóceis ao governo de Washington. O governo Trump está claramente contra a União Europeia, quer estimular os projetos nacionalistas de extrema-direita contra os regimes de democracia liberal na Europa, por achar a União Europeia, a democracia liberal, o welfare state e uma certa abertura aos imigrantes uma excrescência, algo que vai contra os valores cristãos-ocidentais. As declarações do vice-presidente Jack Vance e o que está dito na nova Estratégia de Segurança Nacional colocam os EUA como inimigo estratégico da União Europeia!
A posição europeia no mundo recua para patamares de qualidade diferentes do que estavam evidentes até antes do início da invasão russa da Ucrânia. A polarização política é hoje entre Estados Unidos e China e a Europa perdeu toda a autonomia que tinha para se posicionar com autonomia frente aos Estados Unidos. Alguns pesquisadores chamam de Nova Guerra Fria. Eu acho que, de fato, tem analogias com a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética no pós-Segunda Guerra Mundial, mas onde, diferentemente daquele momento, os Estados Unidos não estão numa posição de supremacia evidente. Os Estados Unidos estão tentando reduzir suas perdas porque a China demonstrou estruturar um capitalismo de Estado mais eficiente no desenvolvimento das forças produtivas do que a economia neoliberal norte-americana.
Correio da Cidadania: De maneira que estamos diante de uma irresistível mudança de era?
José Corrêa Leite: A nova ordem ainda não está visível, porque precisa ou de um agravamento do caos sistêmico ou de uma pactuação que estabilize uma nova estrutura sistêmica. Tal pactuação não está no horizonte. E não é só o problema da China e Estados Unidos. É se a Europa vai aceitar ser uma espécie de colônia dos Estados Unidos; como a Índia vai se colocar no cenário mundial, é a terceira economia do mundo e balança entre os EUA e o bloco China-Rússia; como a Rússia vai se posicionar, pois tenta obter uma negociação que lhe permitiria incorporar uma parte da Ucrânia e neutralizar o restante (o que a União Europeia vê como uma ameaça existencial, já que ela “europeizou” a Ucrânia que resistiu a Putin…).
Há vários elementos que não estão ainda definidos, inclusive sobre o Brasil, porque o Trump está tentando normalizar a América Latina como quintal dos Estados Unidos. Mas vimos, através das posições de Lula, que o Brasil está tendo força para resistir. Lula conseguiu, pelo menos por enquanto, segurar o tranco das ameaças norte-americanas e obter recursos de Trump na Guerra Tarifária, no apoio de Washington à Bolsonaro, na suspensão da aplicação da lei Magnitsky ao Alexandre de Moraes etc. Trump tentou enquadrar o Brasil e não conseguiu. E não conseguindo, ele reconfigura a iniciativa, buscando obter o que for possível ao que enxerga como interesses dos EUA, ao mesmo tempo que escala a pressão sobre a Venezuela.
É, contudo, importante ressaltar que quando falamos de crise de civilização, não estamos apenas falando de processos políticos, geopolíticos ou econômicos. Isso abarca o conjunto das formas de existência humana e de seu metabolismo com a natureza, que podem se tornar mais dolorosos ou penosos pelo crescimento dos problemas ligados à reprodução social ou pela destruição do meio-ambiente, mas também ao aumento do estresse da vida cotidiana, à expansão da violência social difusa, ao crescimento dos padecimentos mentais, à difusão da desesperança e do vazio existencial etc. Uma civilização em crise deixa de oferecer um propósito coletivo para a existência de seus membros e se fratura. É por isso que vemos o retorno ao tradicionalismo, a polarização política e ideológica e a difusão de fundamentalismos religiosos.
Correio da Cidadania: Como avalia mais especificamente o primeiro ano de governo Trump nos EUA? A despeito dos discursos hiperbólicos de fazer rivais ajoelhar, anexar países, expulsar milhões de imigrantes, suas práticas reforçaram uma ideia de decadência da hegemonia dos EUA?
José Corrêa Leite: Sim e não. Trump se colocou uma tarefa muito difícil e a sociedade norte-americana está estruturalmente dividida. Seu projeto tem apelo popular, mas limitado. E o que é o projeto Trump? É um projeto de fortalecer os EUA enquadrando seus aliados, fazê-los arcarem com despesas que hoje são de Washington e pagar pela proteção militar. Com isso, teríamos uma drenagem de recursos da Europa, do Japão, dos países com os quais os Estados Unidos negociam para dentro de suas fronteiras geopolíticas. Ele quer tirar dinheiro do resto do mundo e botar nos Estados Unidos com um projeto de reindustrialização que permita fazer frente à expansão chinesa. É, ao mesmo tempo, a criação interna de uma mentalidade de cerco, de modo a bloquear o fluxo de imigrantes e o declínio da base étnica, vinculado ao supremacismo branco, do movimento MAGA.
Este elemento expressa também, de forma enviesada, uma consciência de que a crise ambiental vai provocar gigantescos movimentos de população já nas próximas décadas. É um movimento preventivo, que obviamente tem contraindicações. Não usar a mão de obra imigrante em populações que estão envelhecendo é contraproducente para o capitalismo. Mas na mentalidade do Trump é necessário, assim como é necessário reindustrializar os Estados Unidos.
Ele conseguiu algumas dessas coisas, alguma drenagem de recursos através das tarifas, ou seja, se paga mais para negociar com os Estados Unidos e estar sob o seu guarda-chuva nuclear. Internamente, sua política é factível enquanto não afetar o poder de compra de sua base eleitoral ou a mobilização da oposição a ele não escalar. Mas a inflação está crescendo e algumas negociações, em especial com a China, já estão produzindo danos. O caso da soja é o mais evidente. Os chineses não comprarem a soja norte-americana destrói uma parcela da agricultura do meio-oeste do país. Assim, Trump teve de recuar, principalmente em relação à China, mas também em relação ao Brasil. Foram os dois países do mundo que forçaram Trump a recuar devido às contradições da sua política – começam a produzir, por exemplo, inflação, falta de terras raras etc.
De outro lado, isso também tem efeitos internos de mobilização da população imigrante e dos setores progressistas, ao perfilar setores do Partido Democrata mais à esquerda. Veja-se a eleição de Zohran Mamdani como prefeito de New York. Assim, há uma maior polarização. Nós vamos ter uma síntese política na eleição de meio de mandato, em novembro de 2026. Até agora, os democratas ganharam todas as eleições importantes. Ou seja, Trump não parece ter vida fácil no processo institucional interno, embora tenha a maioria do Congresso e da Suprema Corte.
O outro ponto é que a China se armou para essa guerra. Ela desenvolveu iniciativas muito sagazes. O que vimos sobre a questão das terras raras não foi feito de improviso. Isso é um processo que vem sendo construído há 10 anos, porque as terras raras não são raras, mas exigem estruturas de mineração muito complexas e tem impactos importantes do ponto de vista ambiental. Os chineses colocaram muita energia para desenvolveram processos de mineração desses elementos.
A mesma coisa na questão dos chips. Os chineses estão desenvolvendo uma indústria nacional de chips desde o plano Made in China iniciado em 2015, obviamente, muito reforçado pelas disputas com o governo Trump I, Biden etc. A China já vinha se armando para enfrentar uma possível tentativa dos Estados Unidos de desconectar o país das cadeias produtivas globais de chips. Mas o grau de integração sistêmica segue muito forte e vemos muito mais uma guerrilha do que uma guerra aberta (veja-se como a China forçou a Holanda a recuar no caso da Nexperia).
Correio da Cidadania: Aqui a corrida tecnológica entra em cena nesta “Nova Guerra Fria”?
José Corrêa Leite: Sim, é estratégico. É uma guerra fria diferente da época soviética, não estão mais no centro as armas nucleares ou os mísseis balísticos. Estão em jogo no momento os chips utilizados para treinamento de inteligência artificial, que são concebidos pela NVIDIA, na Califórnia, feitos pela TSMC de Taiwan e com máquinas da ASML, da Holanda. Os EUA, em tese, controlam a cadeia produtiva dos chips de ponta. E pensavam que seria suficiente para conter o avanço da China na área.
Mas embora a China precise de chips de ponta, está conseguindo contornar o problema e busca desenvolver sua própria cadeia produtiva de chips avançados (como a série Ascend de aceleradores de IA, produzida pelo Huawei). O mais decisivo, contudo, é que os chineses desenvolveram uma estratégia alternativa de abordagem das inteligências artificiais. Enquanto os norte-americanos estão buscando a inteligência artificial geral – isto é, OpenAI, Google, Meta estão buscando uma inteligência artificial capaz de, em última instância, mimetizar a mente humana -, os chineses desenvolveram, ao investir mais em matemática, inteligências artificiais peritas. Trata-se de sistemas específicos, muito mais funcionais, com mais impacto e racionalidade econômica: IAs para dirigir drones, carros autônomos, analisar imagens médicas, fazer diagnóstico… Os chineses estão em outra estratégia de IA, que está dando certo e não necessita dos mesmos chips da Nvidia. É evidente que eles também estão desenvolvendo as pesquisas de inteligência artificial geral a partir dos grandes modelos de linguagem (LLM), como vimos no caso do DeepSeek. Mas não estamos vendo, e talvez nunca vejamos, o impacto econômico desses modelos que as empresas norte-americanas imaginam que obterão.
Acho muito importante destacar outro ponto. Não temos uma única revolução tecnológica, a do digital (e da IA); temos, ao mesmo tempo, a revolução tecnológica da eletrificação da sociedade, a chamada transição energética e a adoção de toda uma infraestrutura econômica da sociedade baseada em energias renováveis, eólica, solar, baterias, esquemas de armazenamento, com eletrificação dos transportes. Aqui a vantagem da China era colossal e Trump facilitou sua dianteira.
Os chineses estavam na frente, mas o Biden percebeu o problema e organizou os Estados Unidos para entrar nessa disputa com a Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act – IRA), que representou o maior investimento em energias renováveis da história dos EUA. Quando Trump assumiu, começou a desmontar uma por uma todas as iniciativas do Biden dizendo: “nós vamos ganhar dos chineses com as tarifas, a IA e os combustíveis fósseis”. É uma aposta temerária, porque os chineses mexem com muito mais elementos. O movimento da economia chinesa, desse ponto de vista, me parece muito mais orgânico do que o da economia norte-americana. Na foto da posse de Trump, estavam perfilados os magnatas das big techs que agora estão amiguinhos dos magnatas do petróleo, do fracking, dos combustíveis fósseis.
É claro que eles sabem que não podem se basear em combustíveis fósseis para mover todos os data centers que consideram ser necessários para o salto tecnológico da IA geral. O Bill Gates, por exemplo, está defendendo a volta das usinas nucleares. Mas é um movimento caótico por parte da economia norte-americana e o Trump não dá nenhuma previsibilidade, não dá nenhuma racionalidade estratégica para além de garantir que não vai depreciar as estruturas da economia fóssil e dará apoio incondicional às big techs em tudo que elas quiserem.
Entendo que a aposta de Trump é limitada. Sua orientação geral está causando mais prejuízo do que ajudando os Estados Unidos. Mas nós só vamos ver o resultado final disso em três, cinco anos.
Correio da Cidadania: Impossível falar da arquitetura do sistema global sem colocar o Capital em sua esfera digital e financista no centro do debate, dado que parte dos proprietários de algumas grandes empresas ou fundos financeiros acumulam mais poder que dezenas de Estados nacionais ou blocos regionais e incidem nos rumos de sociedades de maneira que chega a parecer irresistível. Que importância você confere a estas instâncias na luta política do nosso tempo, considerando ainda todas as sociabilidades mediadas pelas plataformas digitais e seus algoritmos?
José Corrêa Leite: São várias dimensões. Uma é que as big techs estão dobrando suas apostas com a IA geral. Significa que estão fazendo investimentos colossais em data centers. Uma pergunta com o ChatGPT consome dez vezes mais energia do que uma pergunta que você faria ao Google. Ou que o DeepSeek chinês demandou para o seu treinamento. Os Estados Unidos estão investindo uma quantidade colossal de dinheiro nessa aposta da IA geral. E há quase um consenso entre os especialistas de que isso é uma bolha. Por outro lado, o grau de simbiose entre o capital financeiro e o capital das big techs é tal que não há outra saída para os Estados Unidos se não dobrar a aposta, a fim de evitar a percepção de bolha. Se não o fizer, se não dobrar a aposta sistematicamente, o processo afunda em uma dinâmica de pirâmide. Mas uma bolha só é bolha quando estoura. Algumas vezes consegue-se geri-la para que não estoure e é isso que o capitalismo estadunidense está tentando fazer. Com que resultado, veremos. Este é um aspecto.
Mas não gosto muito de falar das big techs vinculadas principalmente à IA. Eu acho que o fenômeno de fundo é a datificação, porque as big techs cresceram na medida em que, com os smartphones e as redes sociais, realizaram uma captura geral de dados pessoais. Todo tipo de informação foi transformada em dados, que podem ser processados matematicamente e geridos algoritmicamente. Daí que as big techs cresceram com a datificação geral das relações econômicas e da sociabilidade e com a mediação digital de tudo pelas redes sociais e plataformas. O Facebook foi aberto para uso geral em 2006 e Iphone lançado em 2007. Em vinte anos a paisagem econômica e social do mundo se alterou radicalmente. As IAs são apenas as cerejas do bolo da sociedade datificada e mediada digitalmente.
O poder das big techs norte-americanas não é só econômico, é antes de mais nada uma ferramenta de dominação ideológica. Tanto que Trump tem, frente às ameaças decorrentes da regulação das big techs por outros países (como a União Europeia e a Austrália), reagido como se fossem ataques à soberania ou aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. E para os fascistas norte-americanos, isso é verdade. Os norte-americanos estão tratando praticamente todo o resto do mundo que não consegue impor limites às plataformas como o seu quintal, à exceção da China e da Rússia.
Mas as resistências existem. A Austrália, por exemplo, aprovou um processo de desplataformização das crianças até 16 anos. É lei, já entrou em vigor e é um processo indispensável. O Parlamento Europeu também aprovou uma regulação semelhante, para que menores de 16 anos não acessem as redes sociais. Bernie Sanders acaba de propor que menores de idade não possam ter acesso aos programas de chatbox; os problemas mentais – inclusive suicídios – estão aumentando nas conversas de crianças com as IAs que vão se tornando suas “confidentes” ou “melhores amigas”.
Isso é muito, muito importante. Nós estamos assistindo a uma pandemia de enfermidades mentais (ansiedade, depressão, déficit de atenção, burnout…), cuja causa mais óbvia são as plataformas, as redes sociais, aos programas de IA, a adição ao uso do smartphone e às telas desde cedo. Segundo alguns indicadores, elas já atingem 25 a 30% da humanidade. Nós já estamos com gerações que nasceram com o smartphone e isso foi reconfigurando o cérebro dos agora adolescentes, assim como de crianças atuais, e literalmente danificando as capacidades mentais de parcelas importantes da população. Uma parte do dano é irreparável, mas temos que lutar pelo direito das novas gerações à saúde mental, a uma vida com valores positivos, a expor-se menos à enorme violência simbólica que as redes atualmente existentes carregam. Esse é um embate civilizacional de maior alcance, que viabilizará a existência ou não de novas gerações aptas a lutarem pelo futuro ou serem adestradas como zumbis ou fascistas.
Quem trabalha com educação sabe que o nível de problemas vai muito além do declínio cognitivo. Uma pesquisa no sistema escolar norte-americano mostrou que existia um autista para cada 2.500 crianças em 1980. Hoje existe um autista para cada 31 crianças. Mesmo que os dados não sejam exatos, é uma multiplicação impressionante. Ou seja, as big techs estão realizando o maior experimento de tecnologia social da história da humanidade. E com resultados claramente desastrosos para a humanidade, mas muito lucrativos para seus donos. As big techs desenvolveram tecnologias aditivas e mecanismos de gamificação de todas as dimensões das relações com as redes, que criam mecanismos de dependência atrozes e têm impacto grande sobre sua autoestima, capacidade de iniciativa e estabilidade psíquica. As pessoas que crescem nessas condições têm muito menos condições de responder às demandas do mercado de trabalho, às demandas de vida autônoma.
Não vou me estender aqui sobre tal tema, mas essa é uma questão de sobrevivência para a esquerda. As redes e plataformas privadas se tornaram o aparelho ideológico central do fascismo contemporâneo e estão tendo uma contribuição fundamental para a difusão de movimentos nacionalistas regressivos, conservadores, reacionários, neofascistas, todo espectro tradicionalista, fundamentalista religioso. Precisamos romper com isso, construindo soberania digital e desenvolvendo uma nova esfera pública submetida às regras do debate cidadão, que contenha os discursos de ódio.
Correio da Cidadania: No Nepal, o governo caiu porque tentou bloquear todas as redes sociais de uma só vez, o que na prática interdita a vida social real. Como enfrentar um poder tão avassalador, que atravessa nossas relações sociais, pessoais, afetivas, produtivas, intelectuais?
José Corrêa Leite: Há uma remitificação do imaginário dos usuários dessas empresas que agora está se agravando. Bilhões de pessoas não vão mais conseguir distinguir visualmente entre verdade e mentira com os produtos feitos por IAs. Ainda é meio precário, vemos coisas grotescas, mas crescentemente a distinção entre verdade e mentira pela imagem se torna mais difícil. Se alguém conta uma lorota, a humanidade aprendeu, ao longo de milênios, a ter desconfiômetro para questionar sua veracidade. Mas se alguém vê uma imagem na circulação fugaz das redes, a reação imediata, até intuitiva, dos seres humanos é considerar que isso é verdade. Isso agora deixou de corresponder à realidade com a difusão das IAs. As IAs são expressão orgânica de um novo tipo de imperialismo que não é só econômico, é também um imperialismo psíquico.
Isso significa que, a menos que um país obtenha sua soberania digital, terá sempre quinta colunas atuando no seu interior via Big Techs. E a busca por tal soberania vai exigir atitudes políticas muito drásticas. Tem de ser objeto de políticas estratégicas, os países devem ter redes próprias, relegitimar limitações às plataformas, como a Austrália faz. As redes não podem tudo. Não podemos entregar a formação do imaginário da infância à voracidade das big techs – já vemos o impacto disso sobre os meninos que vão aderindo à “machosfera”. Devemos construir gradativamente a percepção de que devem existir limites – como o Felca começou a fazer no Brasil, com a proibição ainda parcial dos celulares nas escolas. Porque as tecnologias digitais podem ter outras configurações. Pode-se ter plataformas cooperativas, já tivemos há décadas no movimento do software livre. Precisamos reconquistar a legitimidade para se romper com a naturalização do poder das big techs e sua colonização do nosso imaginário.
Correio da Cidadania: Além da esfera produtiva informacional-digital, a temática ambiental aparece como assunto incontornável sobre as possibilidades futuras da humanidade.
José Corrêa Leite: Como dito no início, o sistema climático deu um salto de qualidade para um patamar mais quente. Grosso modo, todo o referencial do debate climático é dado pelo Acordo de Paris de 2015. A ideia era que os países negociassem reduções das emissões de modo a preservar as temperaturas abaixo de 1,5 grau em relação ao nível pré-industrial.
Ora, a temperatura já subiu mais de 1,5 graus no ano passado e no ano anterior e, portanto, já deu um salto para um patamar que se imaginava como meta para 2050 – foram 35 anos em 10. Neste patamar, por exemplo, os corais de recife do planeta estão sendo destruídos; uma grande parte já foi branqueada. Significa que os maiores habitats de peixes, dos quais dependem de grandes populações de pescadores, deixam de existir.
Os recifes de corais são um dos pontos de virada, de ruptura. O sistema climático já começa a conhecer rupturas. Por exemplo, se imaginava que a Amazônia poderia segurar uma elevação de temperatura de até 4 graus sem colapsar. Mas a floresta está muito degradada. Nós já temos 17%, 18% da floresta destruída e, portanto, a resiliência e capacidade de resistir, manter os seus fluxos em temperaturas mais altas, se reduz. Talvez ela não resista a um aumento de temperatura de 2 graus. A mesma coisa com o degelo do permafrost, que tem enormes reservatórios de metano, um gás de efeito estufa muito mais poderoso do que o CO2. Nós estamos começando a ter o degelo da Groenlândia e com isso o início da redução da força da corrente do Golfo, ou mais amplamente do motor das correntes marítimas (a chamada circulação termohalina global). Uma parcela ainda pequena da Antártica, continente desprovido de vegetação, começou a se esverdear; líquens estão agora crescendo na Península Antártica. Tudo isso significa que o processo de aquecimento está muito mais rápido do que se imaginava.
Correio da Cidadania: Quais seriam, nesse contexto, os impactos humanos das questões ambientais?
José Corrêa Leite: Os impactos sobre as populações crescem ainda mais velozmente. Nós vimos Porto Alegre e o Rio Grande do Sul em 2024. No início de dezembro, mais de mil pessoas morreram na Indonésia, em enchentes. A região em torno do trópico de câncer – sul dos Estados Unidos, norte do México, sul da Europa, norte da África, Oriente Médio, Paquistão, Índia, Bangladesh – está aquecendo de uma maneira explosiva.
Qual o horizonte disso? Inviabilizar a agricultura, sucatear infraestruturas sociais e econômicas, inviabilizar a presença humana em muitos dias do ano. O Brasil, por exemplo, que é um grande exportador de commodities agrícolas, produzidas no Cerrado, em Matopiba e no Sudeste, depende dos rios voadores da Amazônia que já estão se reduzindo. Um deserto já nasceu no Nordeste.
Qual é a consequência social mais estratégica? Grandes deslocamentos de população. A ambientalista inglesa Gaia Vince publicou um livro em que define o século XXI como o “Século Nômade”. É um fenômeno que os historiadores com uma visão ampla conhecem muito bem. No passado, existiram grandes colapsos de civilização que tiveram como elemento detonador grandes migrações. Foi o caso do colapso da Era do Bronze, lá pelo ano 1000 a.C. Foi o caso do colapso do Império Romano do Ocidente, nos séculos IV e V. Foi o caso de todas as civilizações destruídas pelos deslocamentos das populações mongóis, por volta de 1200. Periodicamente, quando uma sociedade mais organizada tem algum elemento extremamente disfuncional, populações se movem, migram e destroem as que se opõem a isso. O Império Romano foi absorvendo migrantes em todo o seu processo de declínio. Chegou um momento, no século V, onde as migrações foram maiores do que a capacidade romana de absorver os recém-chegados. Esse é um componente, embora nem de longe o mais importante, do que podemos chamar de colapso. O central é que o sistema já não funciona mais.
As sociedades urbanas estão transitando para outra “lei de população”, diferente do período de maior êxodo rural, e a queda na natalidade é expressão disso (e do empoderamento das mulheres). Os imigrantes são a solução para que essa transição seja mais suave. Mas a imagem de “hordas bárbaras de gente pobre e ameaçadora que vai invadir a nossa terra” assola boa parte da extrema direita identitarista e xenófoba na Europa, nos Estados Unidos e mesmo na Ásia, que adere a teorias de conspiração para “substituição de populações”. Isso não pode ser explicitamente reconhecido pelo Trump, porque ele diz que o aquecimento global é uma fantasia. Mas os estrategistas do Departamento de Defesa, agora Departamento de Guerra, já estão cansados de publicar ensaios sobre o impacto das mudanças climáticas na segurança norte-americana que levantam tais temas.
Correio da Cidadania: Neste sentido, a COP-30 foi síntese fiel deste impasse generalizado das civilizações?
José Corrêa Leite: As negociações climáticas chegaram a um ponto limite. Belém deixou evidente que é impossível negociar qualquer transição energética com a Arábia Saudita, Rússia e outros países petroleiros. Mesmo o Brasil também teve uma posição muito ambígua. Defende uma transição energética no discurso, mas dobra a aposta na exploração de petróleo. Não dá para pensar que as COPs vão enfrentar as mudanças climáticas.
Oitenta países disseram, na COP-30 que precisávamos de um mapa da transição para fora dos combustíveis fósseis, nas negociações ambientais. É imprescindível, mas se o esquema é o consenso das COPs, não vamos ter nunca. Esgotou. Colômbia e Holanda convocaram a Primeira Conferência Internacional para a Eliminação Progressiva dos Combustíveis Fósseis, agendada para 28 e 29 de abril de 2026. É uma iniciativa frágil porque o governo da Colômbia provavelmente expirará no mês seguinte, quando tem eleição presidencial e as pesquisas indicam que a direita vai ganhar. Mas é tudo que temos.
O negacionismo climático é hoje um componente central da política da extrema-direita e do neofascismo. Está diretamente vinculada a imperialismos mais agressivos e guerras de conquista. Gaza é, nesse sentido, o laboratório do futuro das populações descartáveis. A situação palestina é um processo pelo qual se insensibiliza populações para com o genocídio e se banaliza as mortandades em escala industrial. Gostaria de chamar a atenção para o pequeno livrinho do Andreas Malm “A destruição da Palestina é a destruição do planeta”, que desnuda muito bem essas conexões.
Correio da Cidadania: Como fica nossa região nesta dinâmica imperialista?
José Corrêa Leite: Temos um recrudescimento dos esforços do imperialismo americano de enquadrar a América Latina como sua zona de influência privilegiada, como seu quintal. Mas isso vale também para o Canadá e a Groenlândia, associada à Dinamarca.
Eu diria que, para discutir as perspectivas do Brasil e da América Latina, devemos destacar a nova natureza do imperialismo. Trump quer aplicar em todo o continente um imperialismo de canhoneira. É um imperialismo abertamente intervencionista, que volta a ganhar aquelas configurações mais ultrajantes do final do século 19 e início do século 20, que geraram a ideia de república de banana. Isto é, se a United Fruits tinha um problema na Nicarágua, ligava para presidente dos EUA, que mandava os mariners derrubarem o governo ou enfrentarem rebeliões.
Essa faceta mais rude do imperialismo tinha sido atenuada depois da Segunda Guerra Mundial pelos movimentos de descolonização e pelas derrotas de movimentos intervencionistas (principalmente no Vietnã). Mas agora voltamos a um neoimperialismo em que as facetas mais brutais se colocam no primeiro plano, como vemos agora no tratamento da Venezuela de Maduro. Israel é literalmente uma guarnição dos Estados Unidos que trucida toda a população em volta em favor de seus desígnios de manter um Estado de fanáticos religiosos. Trump bombardeou, nesses dias, uma região da Nigéria que conhece conflitos que ele avalia serem perseguição dos mulçumanos aos cristãos (e analistas críticos serem um conflito entre pastores e agricultores). Ele abre os EUA para receberem brancos africaners, que eram pilares do regime do apartheid na África do Sul, considerando-os vítimas de perseguição! Supremacismo branco e cristão, imperialismo grotesco e fascismo se misturam nas relações internacionais sob Trump.
Eu acho que em um mundo onde a força pode ser usada arbitrariamente em função do interesse nacional, os países vão se dividir entre aqueles que conseguem manter sua soberania e aqueles que se subordinam, ou têm que se subordinar. O Brasil, a Índia, a Rússia, a China, a África do Sul (os chamados BRICS), não são países pequenos e vulneráveis. Uma burguesia como a brasileira passou a fazer negócios de uma maneira muito mais multilateral. Hoje ela tem na economia chinesa sua principal cliente. Isso dá mais margem de manobra para a economia brasileira do que, por exemplo, os países centro-americanos.
Mesmo um país como o México, vizinho dos Estados Unidos e muito vinculado à sua economia, é um país cuja economia tem um peso que lhe dá condições de fazer certas negociações. O Samuel Pinheiro Guimarães falava da era dos gigantes; eu acho que o Brasil, por qualquer critério, é um país que, quando consegue unidade interna, tem condições de força em negociações internacionais. É um dos poucos países no mundo que está estruturalmente em condições de manter uma posição de não alinhamento, porque deslocou o eixo das suas exportações para a China e das importações também. E a China, espertamente, também começa a investir fortemente capitais no Brasil, o que reforça a margem de manobra do país.
Correio da Cidadania: Você vê o Brasil sob Lula como palco privilegiado de uma polarização também de viés civilizatório que opõe, para além de eleições e personalidades políticas, uma disputa de projeto social que varia entre o solidário e o seu oposto?
José Corrêa Leite: O governo Lula tem clareza de alguns dos problemas estruturais da nova configuração geopolítica do mundo. A maneira como reagiu às tarifas foi muito hábil. E o Lula é uma serpente capaz de encantar os espectadores. O Brasil está, dessa forma, exercendo sua soberania naquilo que ela tem de mais básica. Mas seriamos mais rigorosos se falássemos, como o Jorge Almeida, que o “governo Lula está confortável com uma posição subsoberana”.
Quais são, então, os problemas? O primeiro é que o exercício efetivo de soberania não se detém na questão das tarifas, mas necessita questionar o regime econômico do livre-comércio, a globalização neoliberal, que é uma estrutura de poder fortemente hierarquizada. A esquerda deve ser contra o livre-comércio, que articula as classes dominantes dos países imperialistas com a dos países dominados. O comércio mundial deve obedecer a determinações de desenvolvimento nacional soberano e a condicionantes sociais e ambientais, que devem subordinar a ação das empresas capitalistas.
O segundo é a própria natureza do modelo econômico montado nos últimos 35 anos no país, um neoliberalismo desindustrializante, neoextrativista, fossilista e predador da natureza, incapaz de responder às necessidades das massas urbanas de um país onde 85% da população vive nas cidades, mas o coração da economia está nas atividades primário-exportadoras. Não temos política industrial e Lula aparece como um defensor ingênuo de um neoliberalismo extemporâneo em um mundo que se desglobaliza e volta a se blocar.
O terceiro é que a soberania passa cada vez mais por limitar o papel político das big techs, por regulá-las, como faz a Europa; já vimos isso aqui com o X de Elon Musk. Mas a Meta e o Google estão cotidianamente utilizando suas plataformas para beneficiar as forças conservadoras. Sem regulação e limitação do poder das redes e plataformas, armas de destruição em massa estão diariamente nas mãos do Centrão e do fascismo brasileiro e vamos vê-las sendo usadas nas eleições. Aí não só o Brasil é mais vulnerável, mas também existe uma menor consciência política dos atores progressistas sobre o tema – a visão de boa parte do petismo de tais temas não se distingue da direita, como vemos no caso do Ministério da Educação contratando uma empresa fascista como a Palantir! O governo Lula não é capaz nem mesmo de proibir as bets, que esfolam diariamente a classe trabalhadora brasileira. O petismo está pelo menos três décadas defasado em tudo que diz respeito ao digital. Este é o telhado de vidro mais imediato da discussão sobre soberania hoje no Brasil.
O judiciário brasileiro teve um papel muito importante em neutralizar os golpistas de 8 de janeiro e isso cria realidades incontornáveis. A direita no Brasil está dividida e com dificuldades de negociação, embora seja possível que no final feche em torno do Tarcísio. Mas o processo está sendo custoso e dá mais espaço político para manobrar – embora o governo Lula não tenha nenhuma política estratégica senão descolar uma parte do Centrão para apoiá-lo nas próximas eleições. Mas, ao fazê-lo, tem que aceitar políticas conservadoras que reforçam socialmente as bases “do boi, da bala e da bíblia”.
Algumas medidas positivas foram aprovadas, como o Imposto de Renda, embora sejam ainda limitadas, mas podem ganhar uma nova qualidade se o governo conseguir aprovar o fim da jornada 6×1 e a redução para 40 horas semanais. A extrema-direita aposta na agenda de segurança pública, uma fragilidade da esquerda, e nas guerras culturais, que sempre trazem os temas do conservadorismo para a cena política. Nos dois, as redes e plataformas estão ao lado da extrema-direita.
Correio da Cidadania: Aqui, voltamos ao problema debatido nos últimos anos, isto é, a esquerda tenta fazer governos socialmente mais justos, porém, sem mexer nos modelos econômicos produtores das desigualdades, injustiças e violações de todo tipo. Do outro lado, a ultradireita aparece com sua crítica do “sistema”, da forma mais fraudulenta possível, pois no fim das contas apenas aprofunda a virulência deste sistema e ainda por cima se revela completamente corrupta.
José Corrêa Leite: No caso do Brasil, o Banco Central é uma enorme bola de ferro prendendo qualquer governo progressista. Temos uma drenagem absurda de recursos para os setores financeirizados. O rentismo defende seus privilégios com unhas e dentes. E o período do bolsonarismo deixou uma patológica herança de fisiologismo no Congresso Nacional. A palavra de ordem “Congresso inimigo do povo” é um pálido reflexo dessa realidade.
Na verdade, está mais para aquilo que o Lula falava lá nos anos 90, dos “300 picaretas com anel de doutor”, do que qualquer outra coisa. É ficha policial. Tal configuração faz com que centrão e a extrema-direita tendam a unificar-se, mas com dificuldades, porque o bolsonarismo não larga o osso.
O governo Lula, com todos os seus problemas e tendo, pelo menos momentaneamente, driblado o problema maior do trumpismo, dá algum horizonte de respiro nesse mundo tão hostil. E como mostrou a eleição chilena, e pode mostrar a da Colômbia – embora Petro tenha um legado mais sólido a oferecer à candidatura de Ivan Cepeda – a situação está difícil na América Latina. A extrema direita está na ofensiva, não na defensiva. O Brasil é a exceção, mas precisamos zelar para que o caldo não entorne. E ganhar tempo para enfrentar os dois problemas estruturais sem os quais não há reconstrução da esquerda: uma esquerda que seja ecossocialista e batalhe por um modelo econômico coerente e que compreenda a centralidade da soberania e da regulação do digital.
Se não tivermos os dois elementos equacionados, dificilmente poderá ocorrer uma nova ofensiva de um projeto de esquerda no mundo. O capitalismo de Estado chinês é mais eficiente do que o norte-americano, mas não é replicável porque em última instância repousa na herança de uma revolução socialista vitoriosa, uma das maiores do século 20, a Revolução Chinesa de 1949 e a restauração capitalista consolidada em 1989. Embora a China seja um capitalismo de Estado, temas como o da soberania não são abertos à discussão naquele país, como o são aqui.
Correio da Cidadania: Continuamos na alternância de governos de esquerda e direita que não contornam as estruturas geradoras da frustração social em suas populações.
José Corrêa Leite: De modo mais preciso, é uma alternância de governos progressistas ou reacionários. Explica grande parte do que ocorre na América Latina, mas está sendo subvertida pela direita. Porque se a direita trumpista realmente fizer escola e conseguir se estabilizar, o espaço para os progressismos será fechado. Temos hoje pelo mundo uma difusão de regimes autoritários desde dentro de democracias liberais ou democracias representativas, que estão subvertendo as bases das liberdades democráticas. Isso vale para a Índia e para a Turquia, não é um processo só da Europa ou das Américas. Temos reações progressistas (Mamdani, Your Party do Corbyn…), mas enquanto não existirem grandes partidos e movimentos antissistêmicos, o espaço privilegiado para agitação antissistêmica continuará, em cada eleição, nas mãos dos fascistas.
Para fechar, podemos dizer que a tarefa política central colocada para 2026 é, mais do que nunca, não apenas combater as ameaças eleitorais fascistas, mas construir esquerdas que sejam antissistêmicas e fechem o espaço para a extrema-direita se apresentar como porta-voz do descontentamento popular.
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Pós-escrito de 8 de janeiro de 2026:
A entrevista acima foi realizada em 16 de dezembro de 2025. No dia 3 de janeiro, Trump atacou a Venezuela e sequestrou Nicolás Maduro. É um acontecimento de enorme relevância, que justifica um pós-escrito à entrevista.
Ele gira essencialmente em torno da pergunta “Estamos diante de uma irresistível mudança de era?”, e da minha resposta “A nova ordem ainda não está visível, porque precisa ou de um agravamento do caos sistêmico ou de uma pactuação que estabilize uma nova estrutura sistêmica… Há vários elementos que não estão ainda definidos, inclusive sobre o Brasil, porque Trump está tentando normalizar a América Latina como quintal dos Estados Unidos”.
Mas o ataque de Trump à Venezuela, não só pela ação militar em si (que parece ter contado com o apoio ativo de elementos internos ao chavismo), mas principalmente pela forma como ela foi apresentada e justificada, marca um salto adiante na militarização das relações internacionais. Trump eliminou todo rodeio ideológico para apresentar a operação como uma garantia do controle do que Washington vê como sua esfera de influência e afirmar o petróleo da Venezuela como propriedade dos Estados Unidos. É a pilhagem de recursos pela força bruta, roubo à mão armada. Nenhuma veleidade de restaurar a democracia na Venezuela – a administração do país é deixada às facções do PSUV, desde que as petroleiras ianques possam extrair o “ouro negro”.
Embora a América Central e o Caribe conhecessem múltiplas intervenções militares dos EUA (a última foi no Panamá, em 1989), é a primeira operação desse estilo na América do Sul. Depois de Gaza, do Irã, da Nigéria (outro país petroleiro), Trump multiplica as ameaças: a Groenlândia, o Panamá, a Colômbia, o México, o Canadá, quem sabe se amanhã o Brasil. Os EUA se tornaram um “rogue state”, um “estado fora da lei”.
Julian Borger, correspondente internacional sênior do The Guardian, afirmou que a “putinização da política externa dos EUA chegou na Venezuela”. Vladimir Safatle escreveu que estamos frente a uma terceira onda colonial. Trump nos diz como pretende gerir o declínio do poder estadunidense, cada vez mais visível depois de 2008 – pelo uso da força militar para impulsionar processos neocoloniais. Essa operação evidencia a profunda identidade com outro autocrata, Vladimir Putin, que, inconformado com o colapso soviético, quer reafirmar o poder russo anexando militarmente o que puder da Ucrânia e de outros países vizinhos.
Estaríamos voltando, como diz Safatle, às práticas das potências que, em Berlim, em 1885, dividiram a África? Ou ao “grande jogo” entre o Reino Unido e o Império Czarista na Ásia Central, no final do século 19? Creio que as referências para as lideranças neofascistas dos EUA são bem mais rústicas: a política de canhoneira da virada para o século 20, o “big stick”, o porrete grande, de Theodore Roosevelt…
Essa experiência maior parece apontar para uma certeza, ao mesmo tempo em que destaca outro aspecto que ainda parece estar em aberto (ao menos no que eu consigo hoje enxergar).
Estabeleceu-se uma política de recolonização truculenta da América Latina por parte de Washington que redefine o horizonte estratégico dos países da região. Isso demanda uma forte unidade na luta anti-imperialista como não víamos desde o ciclo da Revolução Cubana. Trump quer os recursos naturais do continente – antes de tudo o petróleo que se esgota nos Estados Unidos -, mas também negar acesso aos mercados da região para os concorrentes chineses.
Como afirma Pedro Fuentes: “A tarefa histórica inconclusa da unidade latino-americana volta a ser uma necessidade estratégica diante da crise mundial. Partindo da solidariedade ativa com a Venezuela, é preciso pensar na necessidade da defesa comum da soberania, no controle popular dos recursos estratégicos e na coordenação das lutas contra o capital transnacional e o militarismo imperial. O negacionismo de Trump — que tem em Milei, Katz e Bukele aliados incondicionais — não só leva a mais exploração dos trabalhadores, mas também à expropriação dos recursos naturais, à devastação da Amazônia, à contaminação dos rios e a maiores crises climáticas”.
A tarefa não é fácil, em parte porque a esquerda ou o progressismo vem se enfraquecendo em cada experiência de governo ou de poder no continente. Se o progressismo social-liberal encaminha políticas de mercado que enfraquecem a base social da esquerda, os casos de degeneração burocrática da Nicarágua e da Venezuela prepararam o terreno onde Trump pode desencadear, como afirma Pablo Stefanoni, “a mais grave e impune intervenção imperialista dos últimos tempos”. O autor se pergunta, no El País, se “um Muro de Berlim não está caindo para a esquerda latino-americana?” Parece-me que a frase tem um alcance maior do que o autor dá a ela no seu artigo. Não podemos nos esquecer que Cuba – que sobreviveu ao colapso soviético de 1989/91 – se apresenta, para Marco Rubio e os gusanos de Miami, como uma obsessão e agora como um alvo vulnerável.
O ataque contra a Venezuela, não foi apenas contra a Venezuela, foi contra o Brasil. Como o país da América Latina com mais condições estruturais de se opor a Trump, a luta anti-imperialista passa pela próxima eleição presidencial. Ela vai definir se quem governará o país será um brasileiro, minimamente focado em algo que pode ser qualificado como interesses nacionais, ou um funcionário de Trump. Uma parcela da burguesia brasileira tem uma inserção multilateral na economia mundial e fica desconfortável com a orientação de suprimir o sistema global de comércio. De todo modo, creio que a temática anti-imperialista pode ser um fator importante para empurrar a política brasileira mais para a esquerda.
Por outro lado, a tibieza das reações europeias – com exceção da Espanha – aponta para sua marginalização no cenário geopolítico global. Isso coloca uma questão muito importante, que vou assinalar, mas não responder: a crise do neoliberalismo parece levar as classes capitalistas em todas as partes a derivarem para saídas autoritárias ou, o que a longo prazo leva à mesma conclusão, sentirem-se impotentes para oferecerem respostas republicanas a ela. O atual trio de governantes europeus – Merz, Macron e Starmer – é tão medíocre que não pode expressar apenas características pessoais, mas provavelmente principalmente traços estruturais do declínio político do continente.
A gestão militar do declínio norte-americano com o caráter nacionalista racista e xenófobo que o trumpismo lhe dá conduzirá a humanidade, quase que certamente, para uma “armadilha de Tucídides”. Os EUA, o hegemon declinante, prefere a destruição generalizada do que recuar – como já vemos na questão dos combustíveis fósseis. Com a agravante que as armas nucleares se apresentam como um risco suplementar às tendências ao colapso ambiental e aos perigos das tecnologias disruptivas. Tudo indica que muita coisa será decidida pela força das armas.
Mas há um elemento em aberto: a reação da China. Ela procurará ou aceitará uma pactuação implícita? Washington aceitará o preço disso (que passa, no mínimo, pela anexação de Taiwan)? Mas Trump abriu o precedente e perde condição de questionar uma eventual invasão da ilha… Pequim está, por ora, se colocando como defensora do multilateralismo e dizendo que não vai abrir mão de seus negócios na América Latina. Mas não sabemos até quando.
Voltando à pergunta, creio que agora podemos dizer que Trump está nos empurrando rapidamente para uma mudança de era, enterrando o que sobrava do sistema multilateral do pós-Segunda Guerra Mundial. Temos um forte agravamento das tendências desagregadoras do sistema internacional, que se torna qualitativamente mais caótico.
O mundo ficou muito mais perigoso em 3 de janeiro!
Gabriel Brito é jornalista, repórter do site Outra Saúde e editor do Correio da Cidadania