O acordo UE-Mercosul: vinte e cinco anos na sala de espera

O acordo UE-Mercosul: vinte e cinco anos na sala de espera

O acordo UE-Mercosul consolida a mesma estrutura comercial de 1999, dentro da qual a América Latina mantém sua condição primário-exportadora

Canal Wolff Analiza 15 jan 2026, 14:24

Transcrito do canal Wolff Analiza

Vinte e cinco anos. Um quarto de século. Duas gerações completas. Nesse período, uma criança nasceu, cresceu, formou-se na universidade, iniciou uma carreira profissional e constituiu família. Nesse mesmo intervalo, a economia chinesa multiplicou-se por dez, a Índia emergiu como potência tecnológica, o comércio global triplicou, as cadeias de suprimento foram reestruturadas três vezes.

Mas a América Latina, durante esses mesmos vinte e cinco anos, permaneceu sentada em uma sala de espera: esperando que a Europa dissesse sim, esperando que Bruxelas aprovasse, esperando que a França deixasse de bloquear, esperando autorização para vender carne, soja, café e minerais ao continente que um dia a colonizou.

Vinte e cinco anos negociando para ser fornecedora de matérias-primas. Vinte e cinco anos construindo um acordo que consolida exatamente a mesma estrutura comercial que existia em 1999, quando começaram as negociações. E agora nos dizem que isso é histórico, que isso é progresso, que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul representa um avanço monumental para a América do Sul.

Quatro bilhões de euros em tarifas eliminadas, acesso a mercados, oportunidades de exportação. Celebram como se fosse uma vitória. Mas ninguém pergunta por que a América Latina precisou de vinte e cinco anos para alcançar o que outros blocos comerciais constroem em cinco. Ninguém pergunta por que quatro países sul-americanos — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — tiveram que esperar um quarto de século para que a Europa lhes permitisse vender aquilo que já produziam.

E, sobretudo, ninguém faz a pergunta mais importante de todas: por que a América Latina continua buscando validação no Norte quando possui duzentos milhões de consumidores em seu próprio continente?

Porque o problema não é se o acordo será ou não assinado. O problema não é se a França, a Bélgica ou a Itália mudam seu voto. O problema não é se agricultores europeus bloqueiam estradas em protesto. O problema fundamental — o problema estrutural que ninguém quer nomear — é que a América Latina, após vinte e cinco anos de negociações com a Europa, ainda não construiu um mercado interno funcional entre seus próprios países.

O Mercosul existe desde 1991, há trinta e cinco anos, e o comércio entre seus membros continua marginal. Enquanto esperavam a aprovação de Bruxelas, não construíram nada entre si.

Deixem-me explicar o que realmente está acontecendo aqui. Porque o que vemos não é simplesmente um acordo comercial que finalmente chega à sua conclusão após décadas de atrasos. O que estamos presenciando é a consolidação permanente de uma arquitetura econômica que mantém a América Latina em seu lugar designado dentro da divisão global do trabalho.

E essa arquitetura é muito simples: a América Latina produz, a Europa processa. A América Latina extrai, a Europa manufatura. A América Latina exporta valor agregado zero; a Europa exporta valor agregado máximo. Este acordo não muda essa estrutura. Ele a certifica. Ele a oficializa. Ele a transforma em tratado internacional.

Analisemos os números, porque os números não mentem. O acordo União Europeia–Mercosul cobre um comércio bilateral de 111 bilhões de euros. Parece impressionante até que se desagregue: o que a Europa exporta para o Mercosul? Máquinas, produtos químicos, equipamentos de transporte, tecnologia, produtos farmacêuticos, bens manufaturados de alto valor. E o que o Mercosul exporta para a Europa? Produtos agrícolas, minerais, celulose, carne, soja, café. Exatamente o mesmo que exportava em 1999. Exatamente o mesmo que exportava em 1950, quando muitos desses países ainda estavam sob ditaduras apoiadas pelo Ocidente.

A composição do comércio não mudou. Apenas o volume mudou. A América Latina continua sendo o celeiro e a mina. A Europa continua sendo a fábrica e o laboratório.

E aqui está a parte que realmente precisa ser compreendida: isso não é um acidente. Não é um resultado infeliz de circunstâncias históricas. É o funcionamento normal do sistema. Porque, quando negociam um acordo comercial, não estão apenas reduzindo tarifas: estão codificando relações de poder, institucionalizando hierarquias econômicas, transformando vantagens estruturais temporárias em permanentes.

A Europa entrou nessas negociações com indústrias maduras, cadeias de suprimento integradas, capacidade tecnológica avançada, acesso a capital barato, mercados financeiros profundos. O Mercosul entrou com dependência de exportações de commodities, indústrias frágeis, tecnologia importada, moedas voláteis e dívida externa crônica. Após vinte e cinco anos de negociações, essas assimetrias diminuíram? Não. Elas se ampliaram. Porque enquanto negociavam, a Europa se industrializou ainda mais e a América Latina se desindustrializou.

Tomemos o Brasil como exemplo, a maior economia do Mercosul. No ano 2000, a indústria manufatureira representava 18% do PIB brasileiro. Hoje representa 11%. Uma queda de sete pontos percentuais em duas décadas. E o que substituiu essa manufatura? Agricultura, mineração, extração. O Brasil está se tornando aquilo que era há cem anos: uma economia primário-exportadora. E o acordo UE–Mercosul acelera esse processo. Porque, ao reduzir tarifas sobre produtos manufaturados europeus, torna-se mais difícil para a indústria brasileira competir. Fica mais barato importar do que produzir. Incentiva-se a desindustrialização.

E, ao mesmo tempo, ao facilitar a exportação de produtos agrícolas brasileiros, incentiva-se a expansão agrícola, incentiva-se o desmatamento, incentiva-se exatamente o modelo extrativista que organizações ambientais do mundo inteiro afirmam estar destruindo o planeta.

Aqui chegamos a uma das grandes ironias do acordo. Grupos ambientalistas europeus o chamam de climaticamente destrutivo — e estão certos. Mas por que é climaticamente destrutivo? Porque incentiva o Brasil a derrubar mais floresta amazônica para plantar mais soja para exportar à Europa. Mas essa é exatamente a lógica do acordo. Esse é seu propósito. A Europa precisa de soja barata para alimentar sua indústria pecuária. O Brasil tem terra. A equação é simples. A Europa não vai plantar soja — vai comprá-la. E vai comprá-la de quem a produzir mais barato. E a forma mais barata de produzir soja é desmatando floresta tropical, expulsando comunidades indígenas, aplicando pesticidas proibidos na Europa e pagando salários que nenhum trabalhador europeu aceitaria.

A Europa sabe disso. A Comissão Europeia sabe disso. Por isso incluíram salvaguardas ambientais no acordo, cláusulas de cumprimento, mecanismos de monitoramento. Mas essas cláusulas são decorativas. Porque ninguém vai suspender o acordo se o Brasil desmatar a Amazônia. A Amazônia já está sendo desmatada e a Europa continua comprando.

Agora perguntem-se: por que Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai não conseguem construir entre si o que estão construindo com a Europa? Por que o comércio intrarregional continua marginal após trinta e cinco anos? Por que esses países não integraram suas economias? Por que não construíram cadeias de suprimento regionais? Por que não desenvolveram indústrias complementares?

A resposta é estrutural. E é uma resposta incômoda, porque revela algo fundamental sobre como funciona o capitalismo periférico. A América Latina não consegue integrar-se comercialmente porque suas economias não são complementares. Todas produzem a mesma coisa. Todas exportam a mesma coisa. A Argentina produz carne, soja e trigo. O Brasil produz carne, soja e café. O Paraguai produz soja e carne. O Uruguai produz carne, soja e arroz. Todos competem pelos mesmos mercados. Todos vendem aos mesmos compradores. Não têm nada para trocar entre si que não possam produzir por conta própria.

E quando tentam comercializar produtos manufaturados entre si, descobrem que todos importam o mesmo — dos mesmos lugares. Importam máquinas da Alemanha, eletrônicos da China, produtos químicos dos Estados Unidos. Não produzem internamente os bens de alto valor que suas próprias economias necessitam. Então o que vão comercializar entre si? Soja brasileira por carne argentina? Isso não é integração econômica. Isso é escambo de commodities.

Compare isso com a Europa. Por que a União Europeia funciona como bloco comercial? Porque a Alemanha produz automóveis e máquinas, a França produz aviação e energia nuclear, a Itália produz moda e bens de luxo, a Espanha produz turismo e agricultura, a Holanda é hub logístico. Cada país tem algo diferente a oferecer. Cada economia complementa as demais. Quando a Alemanha exporta automóveis para a França, a França exporta aviões para a Alemanha. Quando a Itália exporta moda para a Alemanha, a Alemanha exporta máquinas para a Itália. Há troca real de valor agregado diferenciado. Há especialização produtiva. Há integração de cadeias de suprimento. Por isso o comércio intraeuropeu é massivo. Por isso a Europa é um mercado único.

Não é porque os europeus sejam mais inteligentes ou mais cooperativos. É porque suas estruturas produtivas são complementares. A América Latina nunca desenvolveu essa complementaridade. Por quê? Porque, quando esses países se industrializaram no século XX — e sim, industrializaram-se; o Brasil, nos anos 1950 e 1960, era uma potência industrial — fizeram isso sob um modelo específico: a substituição de importações. Cada país tentou produzir internamente tudo aquilo que importava. A Argentina tentou produzir automóveis e produtos químicos. O Brasil tentou produzir automóveis e produtos químicos. O México tentou produzir automóveis e produtos químicos. Todos construíram as mesmas indústrias. Todos desenvolveram as mesmas capacidades. Todos terminaram competindo entre si em vez de se complementarem.

Quando esse modelo colapsou nos anos 1980, com a crise da dívida, o que restou foi um conjunto de indústrias ineficientes que não conseguiam competir internacionalmente e tampouco precisavam comerciar regionalmente. Então veio a globalização, vieram os acordos de livre comércio, veio a lógica das vantagens comparativas — e disseram a esses países: especializem-se. E eles se especializaram. Mas especializaram-se naquilo que já faziam no século XIX: produzir matérias-primas. A Argentina voltou a ser celeiro. O Brasil voltou a ser plantação. O Chile voltou a ser mina de cobre. Todos regressaram à sua função designada na divisão internacional do trabalho.

E o comércio intralatino-americano, que nunca foi grande, tornou-se ainda menor. Porque se todos vendem commodities ao Norte, para que comerciar entre si?

É aqui que o acordo UE–Mercosul se torna verdadeiramente revelador. Ele mostra que, após vinte e cinco anos, após ALBA, após CELAC, após UNASUL, após todos os projetos de integração latino-americana, após toda a retórica sobre cooperação Sul-Sul e Pátria Grande, a América Latina continua desesperadamente buscando acesso ao Norte. Continua priorizando acordos com a Europa e os Estados Unidos em detrimento da integração interna. Continua competindo entre si para atrair investimento estrangeiro, em vez de construir capacidades produtivas regionais.

O acordo UE–Mercosul não é evidência de sucesso latino-americano. É evidência de fracasso em construir uma alternativa.

Pensem no absurdo da situação. O Mercosul tem 290 milhões de habitantes — mais que Alemanha, França e Itália combinadas. Possui recursos naturais que a Europa só pode sonhar. Terra cultivável suficiente para alimentar um bilhão de pessoas. Água doce, minerais estratégicos, biodiversidade incomparável. E o que faz com tudo isso? Espera vinte e cinco anos para que a Europa lhe permita vender carne. Não desenvolve tecnologia própria. Não constrói indústrias avançadas. Não cria cadeias de valor regionais. Simplesmente espera autorização para ser fornecedora de insumos básicos.

Enquanto isso, olhem o que a Ásia está fazendo. A ASEAN, a Associação de Nações do Sudeste Asiático, tem menos população que o Mercosul, menos recursos naturais, menos terra cultivável. Mas em trinta anos construiu cadeias de suprimento regionais integradas que rivalizam com a Europa. O Vietnã fabrica componentes eletrônicos. A Tailândia monta automóveis. Singapura fornece serviços financeiros. A Malásia produz semicondutores. Cada país tem um papel específico em uma cadeia de valor regional. E eles comerciam massivamente entre si.

Assista na íntegra em: https://www.youtube.com/watch?v=dmJGKSU3hrw


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