Tarifas pela força
Obsessão de Trump por anexar a Groenlândia empurra EUA e UE para a maior crise transatlântica em décadas e acende alerta sobre coerção econômica
Foto: RS/Fotos Públicas
A obsessão de Donald Trump em anexar a Groenlândia empurrou Estados Unidos e União Europeia (UE) para uma guerra tarifária que ameaça redesenhar o comércio transatlântico e corroer princípios básicos do direito internacional. Segundo o Financial Times, o bloco europeu avalia impor cerca de 93 bilhões de euros em sobretaxas a produtos norte-americanos como retaliação às ameaças do presidente dos EUA a aliados da Otan que se opõem à campanha pela “compra completa e total” do território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca.
No sábado (17), Trump anunciou tarifas progressivas sobre mercadorias de oito países europeus – Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia – começando em 10% a partir de 1º de fevereiro de 2026 e subindo para 25% em 1º de junho, caso não haja acordo. Em uma longa publicação nas redes sociais, o republicano acusou os parceiros de terem sido “subsidiados” pelos EUA por décadas e disparou: “Agora, após séculos, é hora de a Dinamarca retribuir”.
A reação europeia foi imediata. Em reunião no Chipre, embaixadores dos 27 países-membros discutiram medidas contra o que classificaram como coerção. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou no X que, após conversas com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e líderes como Emmanuel Macron e Friedrich Merz, “reafirmamos nosso compromisso de defender a soberania da Groenlândia e do Reino da Dinamarca”. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, convocou uma cúpula extraordinária e advertiu que tarifas “minam as relações com os americanos” e violam o acordo comercial entre EUA e UE, acrescentando que o bloco está pronto para se defender de “qualquer forma de coerção”.
A escalada ganhou contornos militares e retóricos. Em tom de ameaça, Trump afirmou na Truth Social que a Dinamarca teria falhado em “afastar a ameaça russa” da Groenlândia e justificou a anexação como peça central do seu projeto de defesa, o chamado “Domo de Ouro”.
“Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada a respeito. Agora chegou a hora, isso será feito!”, escreveu.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, refutou a ideia e recebeu apoio de países europeus, que enviaram tropas ao território em meio às pressões de Washington. Em resposta, Trump anunciou tarifas de 10% contra países que auxiliem Copenhague “até que seja fechado um acordo” para a compra do território.
Para observadores, trata-se de um precedente perigoso.
“O uso de tarifas como instrumento de chantagem territorial rompe com a lógica de cooperação que sustentou o comércio transatlântico no pós-guerra”, avalia Sophie Meunier, professora de Política Europeia em Princeton.
Na mesma linha, Adam Tooze, historiador econômico da Universidade Columbia, vê na ofensiva uma tentativa de “normalizar a coerção econômica para objetivos geopolíticos”, com custos que tendem a recair sobre trabalhadores e consumidores dos dois lados do Atlântico.
Já Elvire Fabry, do Instituto Jacques Delors, observa que a UE tende a responder com proporcionalidade para preservar sua credibilidade:
“Se o bloco não reagir, sinaliza que aceita a instrumentalização do comércio para fins de anexação territorial – algo incompatível com a lei internacional e com a própria arquitetura da Otan”.
Para Carsten Brzeski, economista-chefe do ING na Alemanha, a conta é concreta: cadeias produtivas integradas, da indústria automotiva à farmacêutica, seriam atingidas por “um choque tarifário desnecessário e politicamente motivado”.
Ao apostar na força e na intimidação, Trump transforma a relação com aliados históricos em campo de batalha comercial e diplomática. A UE, por sua vez, tenta equilibrar defesa da soberania e disposição ao diálogo, enquanto prepara o contra-ataque tarifário. O resultado é uma crise que expõe a face mais agressiva da política externa da extrema direita no poder em Washington – e recoloca o Ártico no centro de uma disputa que mistura segurança, recursos e hegemonia, com a economia global como refém.