Venezuela bolivariana: uma revolução interrompida
Funerais de Hugo Chávez. Março de 2012 Caracas

Venezuela bolivariana: uma revolução interrompida

Entre o cerco imperialista e a degeneração burocrática, o balanço crítico do processo bolivariano e os desafios da luta anti-imperialista na América Latina

Antonio Neto 20 jan 2026, 10:09

Foto: Antonio Neto/Arquivo Pessoal

Em julho de 2024, publicamos um artigo no qual analisávamos os cenários possíveis para as eleições presidenciais venezuelanas. Naquele texto, abordamos o caráter do governo e do regime político vigente na Venezuela à luz de uma série de fatos que já indicavam o esgotamento definitivo de qualquer resquício democrático do regime de Nicolás Maduro. A proscrição sistemática de organizações e partidos de esquerda, bem como a então recente intervenção direta no Partido Comunista da Venezuela, evidenciavam que o regime havia rompido definitivamente com as liberdades políticas elementares, avançando para uma forma de dominação abertamente autoritária — a negação concreta daquilo que foi, em sua origem, a Revolução Bolivariana.

No mesmo sentido, a imposição das Zonas Econômicas Especiais, amparadas pelas chamadas Leis Antibloqueio, representou um salto qualitativo na descaracterização do projeto bolivariano. Essas medidas atropelaram a Constituição de 1999, que consagrava a soberania nacional sobre todo o território venezuelano, abrindo caminho para a entrega de riquezas estratégicas ao capital internacional, em especial ao imperialismo, sob a gestão direta de uma burocracia estatal profundamente divorciada dos interesses populares.

A concentração da renda petroleira nas mãos de uma nova classe social, formada no seio da própria Revolução Bolivariana, somada à incapacidade do governo de satisfazer as necessidades mais elementares da população venezuelana, foi corroendo progressivamente a base social que sustentou Hugo Chávez. Já sem Chávez e sob o impacto do bloqueio econômico, as reivindicações populares por melhores condições de vida passaram a ser respondidas com repressão, o que aprofundou o descontentamento social e abriu caminho para o fortalecimento da extrema direita. Esse conjunto de fatores criou as condições para o golpe final do imperialismo norte-americano.

Seria um erro, no entanto, atribuir a derrota da Revolução Bolivariana exclusivamente à intervenção militar dos Estados Unidos. Para além dos fatores internos que levaram ao fracasso do programa impulsionado por Hugo Chávez, a conjuntura internacional também contribuiu para o isolamento progressivo do processo bolivariano e para seu posterior retrocesso. Chávez defendia um programa de enfrentamento ao imperialismo e uma política de unidade latino-americana em torno desse projeto, materializada na ALBA e em um novo modelo de integração regional. No plano interno, ainda que nunca tenha avançado na expropriação do sistema financeiro, manteve uma política de confronto com a burguesia nacional e de redistribuição da renda petroleira.

A vitória de Evo Morales, na Bolívia, e de Rafael Correa, no Equador, representou, em certa medida, a continuidade do bolivarianismo na América Latina. Já os governos do PT no Brasil caminharam na contramão desse projeto. Lula e o PT chegaram ao governo com um programa de conciliação de classes, baseado em um projeto de integração subordinada à ordem liberal burguesa e à globalização neoliberal. Em oposição à ALBA, o Mercosul expressou uma forma de integração capitalista do continente. Os governos de Lula nunca tiveram uma orientação anti-imperialista; ao contrário, consolidaram a condição subimperialista do Brasil em relação às demais nações latino-americanas. Essa posição chocava-se frontalmente com a Venezuela bolivariana de Chávez. Por isso, o papel dos governos petistas frente à Revolução Bolivariana foi, desde o início, o de contenção de sua possível expansão.

Ou seja, a derrota da Revolução Bolivariana foi resultado de uma combinação de fatores: a ausência de aprofundamento do processo revolucionário, a não nacionalização do sistema financeiro, a incapacidade de estender a revolução ao conjunto do continente, além da ação de elementos burocráticos que sequestraram o processo. Soma-se a isso o caudilhismo que caracterizou tanto o governo de Hugo Chávez quanto o de Nicolás Maduro, marcado pela desconfiança em relação ao movimento de massas e pela ausência de uma política de auto-organização popular.

Nesse sentido, nossa compreensão diverge profundamente das posições campistas. Isso, no entanto, não altera um ponto fundamental: é necessário denunciar, sem ambiguidades, a agressão imperialista contra a Venezuela. A invasão de um país soberano constitui uma violação flagrante do direito internacional e representa uma ameaça direta à soberania dos demais países latino-americanos, particularmente de Cuba. Da mesma forma, os Estados Unidos não possuem qualquer legitimidade para sequestrar, julgar ou condenar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, a deputada Cilia Flores. Exigimos sua libertação imediata. Também condenamos o bloqueio econômico imposto à Venezuela, que castiga brutalmente o povo trabalhador, aprofunda a miséria e serve como justificativa para o fortalecimento do aparato repressivo e do controle social por parte do regime.

No entanto, a defesa da soberania venezuelana não pode servir de cortina de fumaça para encobrir a realidade concreta do regime. É preciso afirmar com todas as letras: há muito tempo a burocracia estatal venezuelana, associada a uma nova classe social surgida no interior do próprio processo bolivariano — a chamada boliburguesia —, apropriou-se do aparelho de Estado para satisfazer seus interesses materiais, promovendo a degeneração do processo iniciado com Hugo Chávez em 1998.

A intervenção dos EUA, o bloqueio econômico e o cerco militar não resolveram — nem resolverão — os problemas enfrentados pelo povo nas ruas de Caracas. A história recente é eloquente: Iraque, Afeganistão, Panamá, entre muitos outros exemplos, demonstram que a intervenção imperialista apenas aprofunda o caos, a violência e a dependência. No caso venezuelano, essas agressões externas foram instrumentalizadas pelo governo para ampliar o Estado policial, intensificar a repressão e restringir ainda mais as liberdades políticas de uma população já privada do mais elementar. É falso, contudo, atribuir exclusivamente ao bloqueio a crise social: mesmo antes de sua imposição, em 2014, a população já sofria os efeitos de uma política econômica voltada a beneficiar uma minoria privilegiada.

No artigo de 2024, apontávamos dois cenários possíveis. Hoje, sequer é possível afirmar qual deles se confirmou, uma vez que os resultados eleitorais jamais foram plenamente divulgados. O CNE nunca publicou as atas de cada urna. Ainda assim, Maduro foi empossado presidente, apesar das inúmeras denúncias de fraude e das dúvidas levantadas inclusive por governos aliados, como o do presidente Lula, no Brasil, que não reconheceu oficialmente os resultados.

Naquele momento, já afirmávamos que a perda de legitimidade de Maduro era profunda e decorria, em grande medida, de sua incapacidade de responder às necessidades mais básicas da população trabalhadora. Os acontecimentos posteriores confirmaram essa análise. Trump inaugurou uma nova etapa da ofensiva imperialista na América Latina ao sequestrar o presidente de um país soberano. Em 2002, quando Hugo Chávez foi sequestrado, a resposta popular foi imediata: centenas de milhares tomaram as ruas, marcharam sobre Caracas, paralisaram o país e impuseram sua restituição. Não houve espaço para negociação nem para capitulação.

Em 5 de janeiro de 2026, no entanto, poucas horas após o êxito da operação das forças especiais dos EUA, os irmãos Rodríguez — Delcy e Jorge —, com o aval de Diosdado Cabello, já iniciavam tratativas com a Casa Branca. Uma semana depois, uma delegação diplomática estadunidense desembarcava em Caracas para reabrir a embaixada dos EUA. Consolidou-se, assim, a conversão do governo venezuelano em gestor político de um protetorado norte-americano.

Na Venezuela não existem soluções fáceis. Mas qualquer saída passa, necessariamente, por uma análise da realidade concreta. Não havia democracia sob Maduro, e a intervenção imperialista tende apenas a aprofundar o autoritarismo. A crise social se agrava desde 2014, tanto em razão do bloqueio econômico imposto unilateralmente pelos EUA quanto da gestão burocrática, corrupta e antipopular do governo. Desde a morte de Hugo Chávez, a Revolução Bolivariana vem sendo sistematicamente desmontada, com a supressão de direitos sociais históricos. Apesar dos esforços de Chávez e da luta dos trabalhadores e camponeses, a Venezuela não rompeu com sua estrutura produtiva dependente da renda petroleira.

Ao longo dos últimos anos, a Venezuela — que foi uma referência para a vanguarda política mundial — perdeu protagonismo e capacidade de mobilização. Essa perda de centralidade política e social foi um dos fatores que abriram espaço para a ofensiva imperialista de Trump.

Diante dessa nova situação, na qual a ofensiva imperialista e neocolonial de Trump se apresenta sem disfarces, impõe-se a necessidade de iniciar uma luta continental contra o imperialismo, aproveitando as contradições que essa ofensiva produzirá nas próprias burguesias nacionais. Fundamentalmente, será preciso construir a mais ampla unidade de ação anti-imperialista para enfrentar este novo período, que tudo indica será longo. Somar-se às diversas iniciativas de solidariedade com o povo venezuelano será parte central desse esforço de unidade de ação, e a I Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre, em março de 2026, será um momento estratégico para realizar um balanço dessas iniciativas, aprofundar a articulação internacional e impulsionar novas ações no enfrentamento ao imperialismo norte-americano.

Histórico

Sou Antonio Neto, militante do MES e membro da Comissão Internacional. Vivi na Venezuela entre 2007 e 2009, militando na Marea Socialista, corrente política filiada ao PSUV. Fui membro do conselho editorial do jornal homônimo, participei do congresso de fundação da Juventude do PSUV e das plenárias convocadas por Hugo Chávez para a construção da V Internacional. Testemunhei a vitória de Chávez em referendos revogatórios e participei da campanha vitoriosa dos trabalhadores da Sidor pela nacionalização de uma das maiores siderúrgicas das Américas.

O MES, corrente na qual milito desde 2002, esteve na vanguarda da luta em solidariedade com a Venezuela. Juntamente com a ATTAC Brasil, o mandato da companheira Luciana Genro foi responsável pela primeira visita de Hugo Chávez ao Brasil, durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em janeiro de 2003 – poucos meses após a tentativa fracassada de golpe e enquanto o país ainda se recuperava do paro petroleiro organizado pela oposição de direita.

Em nome do internacionalismo revolucionário que nos inspira, retornei diversas vezes à Venezuela entre os anos de 2005 e 2014 e pude acompanhar de perto a progressiva ruptura entre o governo e os interesses da maioria da população trabalhadora.


TV Movimento

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo

Global Sumud Flotilla: Por que tentamos chegar a Gaza

Importante mensagem de três integrantes brasileiros da Global Sumud Flotilla! Mariana Conti é vereadora de Campinas, uma das maiores cidades do Brasil. Gabi Tolotti é presidente do PSOL no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e chefe de gabinete da deputada estadual Luciana Genro. E Nicolas Calabrese é professor de Educação Física e militante da Rede Emancipa. Estamos unindo esforços no mundo inteiro para abrir um corredor humanitário e furar o cerco a Gaza!

Contradições entre soberania nacional e arcabouço fiscal – Bianca Valoski no Programa 20 Minutos

A especialista em políticas públicas Bianca Valoski foi convidada por Breno Altman para discutir as profundas contradições entre a soberania nacional e o arcabouço fiscal. Confira!
Editorial
Israel Dutra | 13 jan 2026

2026: Nós contra Trump

Estamos apenas no começo de uma luta aguda entre a soberania dos povos e a ofensiva neofascista para reorganizar a vida política no planeta
2026: Nós contra Trump
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores