O combate ao antissemitismo e as eleições de 2026
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O combate ao antissemitismo e as eleições de 2026

Em jogo não está apenas uma definição, mas a preservação de um espaço democrático

Daniela Fajer 2 fev 2026, 10:13

Foto: Reunião convocada em 28/01 pelo Palácio do Planalto. (SRI/Flickr)

Mal começou o ano eleitoral e o debate sobre o antissemitismo já foi deslocado para o jogo político. No dia 28 de janeiro, o governo federal realizou no Palácio do Planalto uma reunião sobre o “combate ao antissemitismo no Brasil”, convocada pelas ministras Gleisi Hoffmann e Macaé Evaristo, com a presença de integrantes do primeiro escalão como Esther Dweck, Maria Laura da Rocha e o presidente em exercício, Geraldo Alckmin. O encontro reuniu representantes de organizações judaicas e abriu espaço para proposições dirigidas ao governo.

O enfrentamento ao antissemitismo é urgente e necessário. O problema surge quando essa pauta passa a ser mobilizada para enquadrar posições políticas, pressionar o governo e estreitar os limites do que pode ser dito sobre um Estado estrangeiro, num momento em que a ofensiva israelense em Gaza intensifica tensões globais. Nesse deslocamento, uma luta contra o racismo corre o risco de ser convertida em ferramenta de disputa política e contenção do debate público.

Falo como judia, neta de imigrantes poloneses que vieram ao Brasil fugindo do antissemitismo na Europa. Sei, por história familiar, que o ódio contra judeus não é uma abstração e que enfrentá-lo é uma luta necessária. Justamente por isso, é impossível assistir em silêncio à sua instrumentalização.

Antissemitismo x antissionismo

Segundo o relato oficial do governo, a reunião reafirmou o compromisso do governo Lula de combater todo tipo de preconceito e discriminação, mas também deu destaque às relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Israel, mencionando visitas oficiais e acordos bilaterais. Quando um encontro sobre antissemitismo é comunicado junto a referências às relações Brasil–Israel, produz-se uma associação sutil, porém poderosa: a de que proteger judeus no Brasil e sustentar vínculos políticos com o governo israelense fariam parte do mesmo campo de ação. Mas não fazem. Combater o preconceito contra judeus é diferente de discutir as políticas de um Estado. Essa aproximação transforma uma pauta de enfrentamento ao racismo em instrumento de disputa e blindagem política.

É dessa aproximação que nasce a confusão — estimulada por atores políticos e institucionais — entre antissionismo e antissemitismo. O sionismo é uma ideologia política ligada à criação e manutenção de um Estado. O judaísmo é uma religião, uma cultura e uma identidade diversa, plural e espalhada pelo mundo. Quando se afirma que Israel “representa o povo judeu”, cria-se uma associação perigosa que vincula judeus às ações de um Estado e reforça a própria lógica que alimenta o antissemitismo.

Pressão sobre o governo

Na véspera da reunião no Planalto, o portal UOL publicou a reportagem “O Holocausto retórico promovido pelo governo Lula”, divulgando uma pesquisa encomendada pela CONIB, pelo Memorial do Holocausto de São Paulo, pelo Museu do Holocausto de Curitiba e pela ONG StandWithUs. O texto afirma que a base eleitoral do presidente Lula seria “a mais vulnerável a narrativas distorcidas, desinformação e negacionismo” sobre o Holocausto.

A operação discursiva é clara: associa-se a base social e eleitoral do governo à ignorância histórica e ao risco moral do negacionismo, transformando a memória do Holocausto em instrumento para constranger politicamente o governo.

Entre as organizações envolvidas está a StandWithUs, que atua internacionalmente na defesa das políticas da entidade israelense e na contenção de iniciativas de solidariedade ao povo palestino. No Brasil, sua atuação se dá tanto na exposição pública quanto nos bastidores, pressionando parlamentares nos corredores de Brasília.

São essas mesmas organizações que vêm criticando publicamente a retirada do Brasil da definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) e defendendo sua incorporação como referência normativa. A sequência dos acontecimentos — mobilização institucional, pressão midiática e interlocução direta com o governo — indica que não se trata de episódios isolados, mas de uma disputa coordenada em torno de quem define o que é antissemitismo e com que efeitos políticos.

Disputa pela definição de antissemitismo

É justamente essa disputa que ganha forma na controvérsia em torno da definição de antissemitismo da IHRA. Entre seus exemplos estão afirmações como considerar Israel um “empreendimento racista” ou comparar políticas israelenses às do nazismo — pontos mobilizados para equiparar crítica política a preconceito contra judeus. Com isso, o foco se desloca do combate ao ódio antijudaico para a proteção diplomática e simbólica da entidade israelense.

Essa disputa não é abstrata. Projetos de lei buscam incorporá-la ao ordenamento jurídico. O PL nº 472/2025, do deputado General Pazuello, pretende torná-la referência normativa nacional, abrindo precedente para a judicialização de posições políticas, acadêmicas e de militância, inclusive de judeus comprometidos com os direitos humanos e com a justiça para o povo palestino.

A retirada do Brasil da IHRA não significou abandonar o combate ao antissemitismo, mas preservar a autonomia da política brasileira frente a uma definição politicamente orientada e contestada.

Nesse contexto, a reunião no Planalto propôs a criação de um grupo de trabalho sobre a definição de antissemitismo, com ênfase educativa. O coletivo Vozes Judaicas por Libertação, única organização judaica antissionista presente, apoiou a iniciativa e defendeu um espaço plural e protegido de instrumentalizações da extrema direita. Também sustentou a adoção de uma perspectiva mais próxima à Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo (JDA), que estabelece distinções mais precisas entre preconceito contra judeus e crítica a um Estado.

O pano de fundo: Gaza, eleições e excepcionalização

Esse debate ocorre enquanto o governo israelense conduz uma ofensiva militar em Gaza amplamente caracterizada por juristas e organizações de direitos humanos como genocídio em curso. Nesse cenário, a ampliação da definição de antissemitismo passa a operar como mecanismo de enquadramento das críticas a Israel, deslocando o debate de violações concretas de direitos humanos para controvérsias identitárias.

Ao mesmo tempo, o tema integra o reposicionamento político de setores da extrema direita brasileira, que se aproximam do governo israelense. Flávio e Eduardo Bolsonaro estiveram em Israel, reuniram-se com Netanyahu e participaram de conferência sobre antissemitismo, prometendo “retomar integralmente as relações comerciais” caso retornem ao poder. Tarcísio de Freitas também tem feito acenos públicos à comunidade judaica institucional. O combate ao antissemitismo passa, assim, a circular como marcador de alinhamento político e ativo eleitoral.

O resultado é a transformação de uma pauta de enfrentamento ao racismo em instrumento de pressão e constrangimento do debate público. A memória do Holocausto e a proteção a comunidades religiosas são mobilizadas para limitar o que pode ser dito sobre um Estado estrangeiro, corroendo a base democrática que sustenta o combate legítimo às discriminações.

Nada disso significa minimizar o antissemitismo. Ele é uma forma grave de racismo e deve ser combatido com seriedade. Mas não é um fenômeno isolado. Separá-lo das lutas contra outras formas de discriminação — inclusive a islamofobia — fragmenta a solidariedade e enfraquece o campo antirracista como um todo.

Também chama atenção a assimetria política: não há espaço equivalente de interlocução estatal com a comunidade palestina no Brasil, mesmo diante de mais de dois anos de genocídio em Gaza. Essa diferença de tratamento evidencia o peso desigual de determinados atores e interesses na definição das prioridades do debate público.

A presença do coletivo Vozes Judaicas por Libertação sinaliza que não há consenso na comunidade judaica sobre essa instrumentalização. Há judeus que defendem, simultaneamente, o combate ao antissemitismo e o direito de criticar Israel e expressar solidariedade ao povo palestino.

O que está em jogo

Não está em disputa apenas uma definição, mas se a luta contra o racismo será usada para ampliar direitos ou restringir o debate público. Está em jogo a preservação de um espaço democrático onde seja possível criticar Estados, denunciar violações de direitos humanos e formular política externa sem que isso seja convertido em suspeita de ódio religioso.

Ser antissionista não é ser antissemita. Criticar políticas de um Estado não é odiar um povo. Defender a vida palestina e denunciar violações de direitos humanos é uma posição ética, não hostilidade religiosa. O combate ao antissemitismo é uma causa justa. Transformá-lo em arma eleitoral e instrumento de censura é o que o desvirtua — e ameaça a própria liberdade que deveria proteger.


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