Toffoli deixa relatoria do Caso Master sob pressão no STF
Revelações da Polícia Federal, vínculos financeiros com o banco falido e risco de desgaste institucional levaram à saída do ministro após reunião tensa e sigilosa da Corte
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
A saída de Dias Toffoli da relatoria do chamado Caso Master, no Supremo Tribunal Federal, foi o desfecho de uma reunião fechada, longa e marcada por apreensão com os danos que o escândalo pode causar à já combalida imagem da Corte. Convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, a sessão administrativa ocorreu de forma híbrida, na quinta-feira, com parte dos ministros presentes em Brasília e outros participando por videoconferência. O encontro se estendeu por mais de duas horas e terminou com uma nota conjunta assinada pelos dez ministros, anunciando que Toffoli pediu a redistribuição dos processos ligados ao Banco Master, acolhida “considerando os altos interesses institucionais”.
Segundo apuração, Fachin apresentou aos colegas o conteúdo entregue pela Polícia Federal dois dias antes: dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que indicariam conversas diretas com Toffoli. O material, sigiloso, elevou a temperatura do encontro. Após um intervalo, os ministros voltaram a se reunir por poucos minutos. Na saída, Toffoli buscou demonstrar normalidade. “Excelente, tudo unânime”, disse, ao ser questionado sobre o clima da conversa.
Na nota oficial, o Supremo afirmou não haver elementos para declarar o ministro suspeito ou impedido e registrou “a plena validade dos atos praticados” por Toffoli até então. Ainda assim, reconheceu que a permanência do magistrado à frente do caso se tornara politicamente insustentável diante da gravidade das suspeitas e do risco de aprofundar a crise de credibilidade da Corte. O novo relator foi definido por sorteio: André Mendonça.
As suspeitas e a defesa do ministro
O cerco a Toffoli se fechou após a PF identificar diálogos entre ele e Vorcaro, além de transações financeiras envolvendo a empresa Maridt, da qual o ministro admitiu ser sócio. A Maridt participou do empreendimento do resort Tayayá, no Paraná, vendido em 2021 a um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. De acordo com a investigação, pagamentos que somariam ao menos R$ 20 milhões teriam sido feitos em 2024, anos depois da venda — um intervalo que, para os investigadores, levanta suspeitas de simulação e possível ocultação de beneficiário final.
Toffoli nega irregularidades. Em nota, afirmou que “jamais” manteve relação de amizade com Vorcaro, disse desconhecer o gestor do fundo envolvido e sustentou que a venda do resort ocorreu regularmente em 2021. Durante a reunião no STF, segundo relatos, o ministro reiterou que não havia impedimento nem suspeição e questionou a legitimidade da PF para levantar tais ilações. Também argumentou que atendeu a “todos os pedidos formulados pela PF e pela PGR”.
Ameaça ao Supremo
Apesar do apoio formal registrado na nota, ministros reconheceram, nos bastidores, que a permanência de Toffoli como relator representava uma ameaça direta à imagem do STF. As revelações da PF reforçaram críticas já existentes à condução do caso, que foi levado ao Supremo por iniciativa do próprio Toffoli, após pedido da defesa de Vorcaro, mesmo sem foro privilegiado. Soma-se a isso o episódio da viagem do ministro em jatinho de empresário ligado ao caso, ao lado de advogado que representa dirigente do banco investigado.
O temor, dentro e fora da Corte, é que o envolvimento de um ministro com estruturas financeiras opacas — fundos encadeados e beneficiários ocultos — alimente a percepção de que há dois pesos e duas medidas no sistema de Justiça. Parlamentares já protocolaram pedidos de impeachment e representações na Procuradoria-Geral da República, ampliando a pressão política.
A saída de Toffoli da relatoria não encerra a crise. Ao contrário: evidencia a gravidade do escândalo e o desafio do STF de demonstrar que está disposto a submeter seus próprios integrantes ao mesmo escrutínio que impõe aos demais poderes. Com a redistribuição do caso, o Supremo tenta conter danos. Resta saber se a apuração seguirá até o fim — ou se o “acordão” de Brasília voltará a falar mais alto.