Peru enfrenta nova queda presidencial
José Jeri

Peru enfrenta nova queda presidencial

Congresso destitui José Jerí e escancara crise estrutural herdada do governo autoritário de Dina Boluarte; país segue sem rumo às vésperas das eleições

Redação da Revista Movimento 18 fev 2026, 09:15

Foto: Victor Vasquez/Congresso do Peru

O Congresso do Peru destituiu nesta terça-feira (17) o presidente interino José Jerí, acusado de “má conduta funcional” e “falta de idoneidade moral” para exercer o cargo. A decisão, tomada após um julgamento político relâmpago, aprofunda a instabilidade institucional crônica do país andino, que já teve sete chefes de Estado em apenas dez anos.

Jerí, de 39 anos, havia assumido a presidência em outubro de 2025 na condição de presidente do Congresso, sucedendo Dina Boluarte, derrubada em meio a uma onda de protestos populares e amplamente classificada por movimentos sociais e organizações de direitos humanos como uma ditadora, devido à repressão violenta contra manifestações e ao uso sistemático das Forças Armadas para conter a crise social.

“A mesa diretora declara a vacância da Presidência da República”, anunciou o presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi, após a votação que superou os 58 votos necessários para a destituição.

Um país sem presidente — e sem horizonte

Com a decisão, o Peru ficará mais de 24 horas sem chefe de Estado, um fato inédito em sua história recente. O Congresso deve eleger um novo presidente do Legislativo, que assumirá automaticamente a presidência interina até 28 de julho, data constitucional de encerramento do mandato.

A queda de Jerí ocorre em um contexto de crise institucional permanente, que se arrasta desde as eleições de 2016, marcadas por fragmentação partidária, disputas entre poderes e sucessivas manobras parlamentares para derrubar presidentes eleitos ou interinos.

Jerí era investigado pelo Ministério Público em dois casos de suposto tráfico de influência, incluindo encontros clandestinos com empresários chineses e possível interferência na contratação de mulheres para cargos no governo. Seu mandato, que deveria garantir a transparência das eleições presidenciais e legislativas marcadas para 12 de abril, terminou antes do previsto.

“Eu não cometi nenhum crime. Tenho plena suficiência moral para poder exercer a presidência da República”, afirmou Jerí em entrevista televisionada no domingo, numa tentativa frustrada de barrar a ofensiva parlamentar.

Direita oportunista, esquerda minoritária

A destituição foi impulsionada por uma aliança circunstancial entre setores da direita tradicional e uma oposição esquerdista minoritária. Ao todo, Jerí enfrentou sete pedidos de censura no Congresso.

“Ele decepcionou o Congresso pelos erros que cometeu; o Congresso se equivocou ao elegê-lo e podemos corrigir o erro”, declarou o parlamentar conservador Jorge Marticorena durante o debate.

Já a deputada de esquerda Susel Paredes foi direta ao apontar o fracasso do governo interino: “Este presidente não serve, temos números altos de mortes por encomenda e homicídios, os índices não baixaram”.

Do lado de fora do Congresso, manifestantes exibiam cartazes pedindo a saída de Jerí. “Não é nosso presidente”, disse à AFP a comerciante María Galindo, de 48 anos.

Eleições, cinismo e poder

Analistas veem na destituição mais um movimento cínico de um Parlamento desacreditado. Para o cientista político Augusto Álvarez, a troca constante de presidentes não enfrenta a raiz do problema.

“Ter uma nova substituição na presidência, a quarta no atual lustro político, não resolverá nada da profunda crise institucional que o país vive”, afirmou. Segundo ele, “será difícil encontrar no atual Congresso — com evidências de mediocridade e suspeita sólida de corrupção generalizada — um substituto com legitimidade política”.

A pressa na tramitação da censura também está ligada ao calendário eleitoral. Com mais de 30 candidatos presidenciais, um recorde histórico, partidos apostam no caos institucional como estratégia eleitoral. 

“Os partidos que apressam a destituição o fazem porque acreditam que isso poderia ajudá-los a obter mais votos”, avaliou Álvarez.

Entre os mais enfáticos críticos de Jerí está Rafael López Aliaga, candidato da extrema direita e apoiador declarado de Donald Trump. Ele acusou o agora ex-presidente de ser “operador de dezenas de grupos chineses que entram em massa no Palácio”, sem apresentar provas.

Boluarte, Jerí e a normalização do colapso

A sucessão de Boluarte por Jerí — e agora sua queda — revela a normalização do colapso democrático no Peru. Boluarte foi destituída após não conseguir conter uma explosão de violência e extorsões, mas também por ter governado à base de repressão, deixando dezenas de mortos em protestos populares, sobretudo indígenas e camponeses.

Desde então, o país segue refém de um Congresso desacreditado, elites políticas desconectadas da realidade social e um modelo institucional incapaz de oferecer estabilidade, justiça social ou democracia real.

No Peru de hoje, a queda de presidentes deixou de ser exceção — tornou-se regra.

Com informações da AFP


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