Relatos de um Rio em disputa
No Tapajós, a conciliação com o agronegócio exportador tende a produzir frustração social, desgaste político e abertura de espaço para o crescimento da extrema direita
Foto: Equipamento de dragagem no Rio Tapajós. (Jander Arapiun/Tapajós de Fato)
Como um militante ecossocialista, sempre tive uma posição bastante crítica em relação ao agronegócio como eixo estruturante do desenvolvimento brasileiro e também à política de conciliação que o PT historicamente estabeleceu com esse setor. Não foi uma conclusão recente nem fruto apenas de debates teóricos ou leituras econômicas. Mas confesso que passar o carnaval no corredor Tapajós-Arapiuns, na região de Santarém, transformou essa convicção em algo mais concreto, quase palpável. Fui inicialmente para descansar, encontrar familiares e aproveitar a região, mas as conversas informais, tanto com moradores locais quanto com parentes e pessoas que circulam economicamente por ali, acabaram revelando um quadro político bastante eloquente. Independentemente da posição ideológica, gente identificada com a direita tradicional, bolsonaristas, gente que votou no Lula para derrotar o bolsonarismo e gente historicamente vinculada à esquerda expressava preocupações semelhantes sobre os projetos de reorganização e privatização das hidrovias, especialmente a dragagem do Tapajós e a ampliação da infraestrutura voltada ao escoamento de grãos.
O que mais me marcou foi perceber que não se tratava apenas de um debate ambiental abstrato. A sensação generalizada era a de que a região está sendo reorganizada para atender prioritariamente às necessidades logísticas do agronegócio exportador, sobretudo da produção do Mato Grosso que desce pela BR-163 até os terminais fluviais e segue pelos rios amazônicos rumo ao mercado internacional. Essa percepção atravessava conversas familiares, rodas informais em comunidades ribeirinhas e diálogos com trabalhadores ligados ao turismo e ao comércio local. Mesmo entre pessoas sem trajetória militante, havia uma desconfiança crescente de que o discurso do desenvolvimento nacional encobre, na prática, a subordinação do território amazônico às cadeias globais de commodities.
Essa experiência empírica dialogou diretamente com a reflexão política que encontrei no texto recente do Secretariado Nacional do Movimento Esquerda Socialista publicado na Revista Movimento. A ideia central ali, a necessidade de preservar uma esquerda com independência estratégica diante da política de conciliação, me pareceu dialogar diretamente com o que observei no território. A conciliação permanente com frações dominantes do capital, especialmente com o agronegócio exportador, pode garantir estabilidade institucional momentânea, mas tende a produzir frustração social, desgaste político e abertura de espaço para o crescimento da extrema direita. No Tapajós, essa tensão aparece no cotidiano, com comunidades preocupadas com dragagem, aumento do tráfego fluvial, impactos na pesca, pressão imobiliária, turismo desorganizado e risco ambiental crescente.
O corredor hidroviário tornou-se peça central de um modelo econômico dependente baseado na exportação primária. A produção de soja e milho do Centro-Oeste, especialmente do Mato Grosso, depende cada vez mais dessa rota logística. Grandes tradings internacionais estruturam essa cadeia e se beneficiam diretamente de investimentos públicos em rodovias, portos, hidrovias e financiamento agrícola. O problema é que esse modelo aprofunda a dependência externa do país, concentra renda, pressiona territórios tradicionais e intensifica a devastação ambiental. O discurso de modernização frequentemente oculta o fato de que estamos reforçando uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, exportando commodities de baixo valor agregado enquanto importamos tecnologia, capital financeiro e dependência política.
Essa contradição aparece de forma bastante explícita quando observamos a própria composição do Ministério da Agricultura. O caso do ministro Carlos Fávaro é ilustrativo nesse sentido. Sua trajetória política e econômica está profundamente vinculada ao agronegócio do Mato Grosso, principal polo produtor de soja do país e diretamente interessado na expansão logística que envolve a BR-163 e as hidrovias amazônicas. Não se trata aqui de uma questão pontual, mas da constatação de que a presença recorrente de representantes do agronegócio em posições centrais da política agrícola dos governos PTistas expressa uma relação estrutural entre esse governo e esses setores exportadores. Essa relação revela uma estratégia de governabilidade baseada na conciliação com frações dominantes do capital agrário, mesmo quando isso entra em tensão com agendas ambientais, territoriais e sociais.
Essa política de conciliação não neutraliza o poder do agronegócio; ao contrário, sempre o fortalece. A ampliação da infraestrutura logística, o financiamento público, o crédito subsidiado e os incentivos fiscais expandem a capacidade exportadora das grandes corporações agrícolas. Ao mesmo tempo, políticas sociais de caráter compensatório não conseguem responder plenamente aos impactos ambientais e territoriais desse modelo. O resultado é a produção de um sentimento difuso de incoerência política, que acaba sendo explorado pela extrema direita.
Há ainda um elemento político decisivo que muitas vezes é evitado no debate público. A base social que sustenta o bolsonarismo está profundamente enraizada no agronegócio, especialmente nos grandes produtores e cadeias exportadoras do Centro-Oeste. Esse setor combina conservadorismo social, defesa radical do mercado, rejeição sistemática à regulação ambiental e forte presença política institucional. Quando um governo progressista mantém alianças estruturais com esse mesmo setor, cria-se uma contradição difícil de administrar. Ao mesmo tempo em que busca derrotar a extrema direita, preserva parte das bases materiais que sustentam sua força social.
Nesse cenário, a resistência indígena na região amazônica assume um papel decisivo e precisa ser reconhecida como sujeito político central, não apenas como vítima desse processo. No próprio Tapajós e em outras regiões da Amazônia, mobilizações indígenas têm sido fundamentais para frear projetos predatórios, exigir consulta prévia, denunciar impactos ambientais e pressionar o Estado a rever decisões. Essa resistência não é apenas defensiva. Ela expressa outra concepção de território, de economia e de relação com a natureza. Atua também como fator concreto de pressão sobre o governo, lembrando permanentemente que políticas de infraestrutura e expansão agrícola não podem ser decididas ignorando povos originários e comunidades tradicionais. Sem essa pressão organizada, provavelmente muitos projetos avançariam com ainda menos debate público e controle social.
Essa talvez seja uma das questões estratégicas mais delicadas da esquerda brasileira hoje. Não basta derrotar eleitoralmente o fascismo contemporâneo se o modelo econômico que alimenta sua base social permanece praticamente intacto. A conciliação permanente com o agronegócio não neutraliza a extrema direita. Ela contribui para sua recomposição política, porque mantém os interesses econômicos e culturais que a sustentam. Ao mesmo tempo, setores populares, ambientalistas e povos indígenas percebem incoerências e podem se afastar politicamente do governo.
Defender uma esquerda socialista independente, nesse cenário, não é um capricho ideológico nem uma postura sectária. É uma necessidade estratégica. Sem independência política, a crítica ao modelo agroexportador se enfraquece, a defesa ambiental perde consistência e a esquerda corre o risco de se tornar apenas gestora de um modelo econômico que não controla e que frequentemente contraria seus próprios princípios históricos. O debate sobre o papel do PSOL, nesse sentido, ultrapassa a questão partidária e toca o problema mais amplo da reconstrução de uma esquerda capaz de enfrentar o poder estrutural do agronegócio e do capital financeiro.
Voltei do Tapajós com a sensação reforçada de algo que já defendia anteriormente. O Brasil segue preso a um padrão dependente de desenvolvimento, e a Amazônia está no centro dessa disputa. A expansão do agronegócio não é apenas uma questão econômica, mas também ambiental, territorial, cultural e política, e sua permanência como eixo estruturante tende a reproduzir desigualdades, devastação e instabilidade democrática. Ao mesmo tempo, a resistência indígena tem se mostrado um dos principais freios a esse avanço predatório, pressionando governos, denunciando impactos e recolocando no debate a soberania territorial e a justiça ambiental. Soma-se a isso o trabalho persistente de companheiras e companheiros do Movimento Esquerda Socialista e do PSOL na região do Tapajós e em toda a Amazônia, que mantêm viva uma esquerda comprometida com os territórios, os povos da floresta e a construção de uma alternativa ao modelo agroexportador dependente. Se a esquerda brasileira quiser, de fato, enfrentar a extrema direita e construir um projeto popular consistente, precisará reconhecer essas resistências, fortalecer sua independência política e colocar no centro a defesa radical do território, do meio ambiente e da soberania popular. Caso contrário, continuaremos administrando tensões que, cedo ou tarde, acabam sendo capitalizadas pelos mesmos setores que dizemos combater.