Sem resultados concretos, encontro entre Trump e Xi Jinping expõe crise da hegemonia dos EUA
Após semanas de tensão comercial, guerra no Oriente Médio e disputa por Taiwan, cúpula entre Washington e Pequim evidenciou os limites da ofensiva de Trump contra a ascensão chinesa
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Sem anunciar acordos concretos e pressionado por crises comerciais e geopolíticas agravadas pelo próprio governo americano, Donald Trump deixou Pequim após uma reunião com Xi Jinping que expôs as dificuldades crescentes dos Estados Unidos diante da ascensão econômica e tecnológica da China.
Para o economista da USP Eleutério Prado, a cúpula girou em torno de “três problemas criados por Trump”: a guerra comercial contra Pequim, a escalada militar envolvendo o Irã e o aumento das tensões em torno de Taiwan.
Trump deixou a China afirmando ter fechado “acordos comerciais fantásticos, ótimos para os dois países”, mas sem detalhar exatamente quais compromissos foram firmados. Xi classificou a reunião como “histórica” e um “divisor de águas”. Apesar do tom amistoso, os principais conflitos entre Washington e Pequim permanecem abertos.
Comércio: Trump recua após ofensiva fracassada
A principal pauta da visita foi econômica. Trump chegou a Pequim acompanhado de uma poderosa delegação empresarial formada por executivos da Boeing, Tesla, Nvidia e representantes do agronegócio norte-americano. A expectativa era consolidar uma ampliação da trégua tarifária firmada no ano passado e destravar novos acordos bilaterais.
Durante a guerra comercial, Trump havia elevado tarifas sobre produtos chineses a até 145%. Mas, segundo Eleutério Prado, dois fatores forçaram Washington a recuar.
“Primeiro, a China ameaçou restringir a exportação de terras raras, onde a China possui quase 90% desses minerais vitais usados em todos os negócios de semicondutores de alta tecnologia e IA dos quais a economia dos EUA depende cada vez mais.”
O segundo fator foi a pressão das próprias multinacionais americanas instaladas na China.
“Os fabricantes americanos baseados na China ficaram alarmados, reclamando que as tarifas de Trump atingiriam principalmente suas exportações e lucros”, afirma o professor.
Após negociações iniciadas ainda em outubro do ano passado, os EUA reduziram gradualmente as tarifas. Hoje, elas giram em torno de 10%, após decisões judiciais e novas rodadas de negociação.
Mesmo assim, nenhum acordo detalhado foi oficialmente divulgado nesta viagem. Trump afirmou que Pequim concordou em comprar 200 aviões da Boeing, com possibilidade de aquisição futura de mais 750 aeronaves. Também prometeu novos contratos agrícolas envolvendo soja e carne americana. Até o momento, porém, o governo chinês evitou confirmar cifras ou cronogramas.
A Casa Branca anunciou apenas a criação de uma junta comercial permanente entre os dois países para administrar conflitos econômicos sem necessidade de reabrir disputas tarifárias a cada crise.
Tecnologia: a disputa central do século XXI
Mais do que soja ou aviões, o centro da disputa entre EUA e China está na tecnologia. A presença de Elon Musk, da Tesla, e Jensen Huang, da Nvidia, foi interpretada como sinal de que inteligência artificial, semicondutores e veículos elétricos dominaram parte importante das conversas. Os EUA tentam restringir o acesso chinês a chips avançados e tecnologias de IA, mas Pequim respondeu acelerando sua autonomia tecnológica. Para Eleutério Prado, a estratégia americana fracassou.
“Todas as tentativas de restringir a expansão da China para produtos tecnológicos, semicondutores etc., fracassaram miseravelmente.”
Ele destaca que a China hoje lidera setores estratégicos globais.
“A China está se recuperando da ‘guerra dos chips’, lidera por longe em robótica e lançou seus próprios modelos de IA ‘open source’, como o DeepSeek, que estão prejudicando seriamente modelos como ChatGPT e Claude.”
A China já possui mais robôs industriais do que o restante do mundo somado e domina praticamente toda a cadeia de manufatura de energia renovável. A dependência americana da China ficou evidente na própria composição da delegação de Trump. A Tesla depende fortemente da fábrica de Xangai e do mercado consumidor chinês. Já a Nvidia busca autorização para voltar a vender chips avançados ao país asiático.
Irã e petróleo: Pequim evita alinhamento automático
Outro tema central foi a guerra no Oriente Médio e a crise envolvendo o Irã. Trump buscou apoio chinês para estabilizar o estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo mundial. Segundo o presidente americano, Xi teria sinalizado disposição para colaborar. Mas Pequim adotou posição cautelosa. O governo chinês limitou-se a defender “um cessar-fogo abrangente e duradouro” e a reabertura das rotas marítimas internacionais.
A China é hoje a principal compradora de petróleo iraniano e resiste às sanções impostas pelos EUA. Recentemente, Washington sancionou empresas chinesas acusadas de auxiliar programas militares iranianos. Para Eleutério Prado, o conflito mostra os limites da força americana.
“Mesmo aqui, a guerra no Irã expôs a incapacidade das forças armadas dos EUA de impor sua vontade sobre uma economia e um Estado de terceiro nível.”
Taiwan segue como “bomba-relógio”
Apesar do esforço diplomático para transmitir cordialidade, Taiwan continua sendo o ponto mais explosivo da relação bilateral. Xi Jinping alertou diretamente Trump durante o encontro.
“A questão de Taiwan é a questão mais importante nas relações China-EUA. Se forem mal tratadas, as duas nações podem colidir ou até mesmo entrar em conflito”, afirmou o líder chinês, segundo a mídia estatal de Pequim.
A China considera Taiwan parte inseparável de seu território desde a vitória comunista de 1949, enquanto os EUA mantêm apoio político e militar à ilha. Segundo Prado, essa tensão foi “fomentada por Trump” e representa o maior risco geopolítico do século XXI.
A disputa pela hegemonia mundial
Para o economista da USP, o encontro em Pequim só pode ser compreendido dentro da disputa estrutural entre uma potência em declínio relativo e uma potência ascendente.
“Os EUA há muito perderam sua superioridade na indústria, manufatura e comércio. A China agora é a superpotência mundial da manufatura.”
Prado sustenta que a força chinesa deriva do modelo de planejamento estatal adotado pelo país.
“O sistema de planejamento liderado pelo Estado que a China adotou é o verdadeiro problema do imperialismo americano e seus aliados.”
Ele afirma que, ao contrário das previsões recorrentes de colapso da economia chinesa, o país mantém crescimento sustentado, expansão do consumo interno e liderança tecnológica em setores estratégicos.
“A economia chinesa enfrenta muitos problemas, mas não está prestes a desmoronar.”
Enquanto isso, os EUA preservam supremacia militar e financeira, apoiados pelo papel global do dólar, mas enfrentam déficits crescentes e perda de competitividade industrial.
A visita terminou sem os grandes anúncios comerciais esperados, mas deixou evidente que Washington busca administrar uma realidade cada vez mais difícil: a ascensão chinesa já alterou profundamente o equilíbrio econômico mundial – e os EUA não conseguem mais impor unilateralmente suas condições como fizeram nas décadas posteriores à Guerra Fria.