Stiglitz sobre Keynes e a instabilidade do capitalismo
Keynes queria salvar o capitalismo porque o desemprego persistente e a estagnação tornavam a ordem liberal politicamente vulnerável
Foto: John Maynard Keynes. (Gordon Anthony/GI)
Via Sin Permiso
A The Economist publicou um breve artigo de Joseph Stiglitz sobre Keynes. Concordo com Stiglitz na ideia política geral de que Keynes não era um socialista revolucionário, como já comentei anteriormente. Queria salvar o capitalismo de si mesmo, como costuma ser dito. Stiglitz diz essencialmente a mesma coisa. Para ele: “o pragmatismo de Roosevelt e as ideias de Keynes salvaram o capitalismo dos capitalistas”, porque o capitalismo sem restrições, em uma depressão prolongada, talvez não tivesse sobrevivido. Ele também afirma que Keynes “não era um radical de esquerda”, acreditava na economia de mercado e via a intervenção estatal como uma “solução menor”, e não como uma revolução.
Stiglitz sugere corretamente que Keynes permaneceu um liberal, e não um socialista, e que era moderado na política, embora disposto a experimentar pragmaticamente diferentes políticas. Nesse ponto, ele diverge dos trabalhos de Jim Crotty e Rod O’Donnell sobre as posições políticas de Keynes, que sugerem que ele era socialista. Stiglitz, ao contrário, argumenta que Keynes compreendia que o capitalismo laissez-faire precisava ser transformado ou superado, mas sem abandonar a sociedade liberal burguesa. Em meu artigo, afirmo que ele foi “um revolucionário na teoria econômica, mas um moderado na política”.
A principal diferença entre a interpretação de Stiglitz e meu ponto de vista está na teoria. O Keynes de Stiglitz continua sendo, em grande medida, o Keynes do keynesianismo dominante. Os mercados podem falhar gravemente, podem permanecer em situação de desemprego por longos períodos, e o gasto público é necessário para estabilizar a demanda. Mas ele enquadra a questão, em parte, como um problema de lenta autocorreção. Mesmo que existam forças que levem a economia de volta ao pleno emprego, “elas atuam lentamente demais” para evitar o sofrimento social. Isso deixa aberta uma leitura convencional em que Keynes é, principalmente, um teórico das imperfeições, para quem os mercados podem acabar funcionando, mas salários, preços e taxas de juros se ajustam lentamente, as expectativas falham devido à incerteza ou as fricções financeiras tornam o ajuste excessivamente lento.
A divergência não está na política de Keynes, mas na profundidade de sua ruptura teórica. Stiglitz destaca Keynes como o economista que demonstrou que o governo podia estabilizar uma economia capitalista intrinsecamente instável. Eu destacaria Keynes como o economista que rompeu com a Lei de Say e desenvolveu o Princípio da Demanda Efetiva. Por isso, em minha interpretação, Keynes não está apenas dizendo que os mercados se ajustam lentamente ao pleno emprego, mas afirmando que não existe uma tendência automática ao pleno emprego, mesmo com salários e preços flexíveis. Ainda que, no final, ele tenha recorrido à incerteza, porque em muitos aspectos permaneceu próximo dos princípios marshallianos dominantes.
A questão não é que Keynes pensasse que o capitalismo fosse intrinsecamente caótico no sentido de tender constantemente ao colapso. Em vez disso, ele acreditava que o sistema poderia ser economicamente estável em um mau equilíbrio, capaz de persistir durante longos períodos com níveis de produção e emprego abaixo do normal. Foi isso que afirmou na Teoria Geral: o capitalismo “não é violentamente instável” e pode permanecer em “uma condição crônica de atividade abaixo do normal por um período considerável sem qualquer tendência marcada nem à recuperação nem ao colapso total”.
Stiglitz enfatiza a instabilidade em um sentido mais convencional da política econômica. O capitalismo produz fortes oscilações, depressões, recessões e crises, e Keynes mostrou que o governo poderia neutralizá-las. Isso é verdade, mas corre o risco de fazer Keynes parecer alguém cuja principal contribuição teórica foi demonstrar que o capitalismo é instável e necessita de políticas de estabilização. Em minha visão, o argumento teórico mais radical de Keynes era outro: o sistema pode ser estável sem ser autocorretivo em direção ao pleno emprego.
Stiglitz destaca Keynes como o teórico da prevenção de crises e da estabilização macroeconômica, o que é bastante justo. Sem dúvida, essa é a visão dominante sobre Keynes. Eu destacaria Keynes como o teórico do capitalismo estável com subemprego. O perigo, para Keynes, não era simplesmente que o capitalismo entrasse mecanicamente em uma espiral rumo ao colapso econômico. O perigo era que um sistema capaz de permanecer estagnado abaixo do pleno emprego gerasse pressões sociais e políticas capazes de minar o próprio capitalismo liberal. Era politicamente instável, mas não necessariamente economicamente.
Keynes queria salvar o capitalismo, mas não porque acreditasse que os mercados fossem apenas frágeis e propensos à desintegração econômica imediata. Queria salvá-lo porque o desemprego persistente e a estagnação tornavam a ordem liberal politicamente vulnerável, tanto ao socialismo de estilo soviético quanto ao fascismo. Suas propostas políticas buscavam alcançar o pleno emprego nacional diante da crescente maré do fascismo e do comunismo, ambos detestados por ele, como mencionei no artigo citado acima.
Isso faz de Keynes nem um simples teórico das imperfeições nem um grosseiro teórico da instabilidade que acreditasse que o sistema estivesse permanentemente à beira do abismo. Ele tentava dizer algo mais sutil. As economias capitalistas podem ser suficientemente estáveis para sobreviver economicamente com baixos níveis de atividade, mas é precisamente essa estabilidade em condições de subemprego que as torna politicamente perigosas. O problema econômico não é o colapso automático, mas a ausência de qualquer mecanismo automático confiável que restabeleça o pleno emprego. Era um problema político — e continua sendo, embora tenham ocorrido mudanças importantes desde sua época.
Hoje, ao menos nos Estados Unidos e em outras economias avançadas, o problema raramente é o desemprego massivo no sentido keynesiano clássico. A questão passa mais pela qualidade, segurança, remuneração e significado social do emprego. O capitalismo pode apresentar baixos índices de desemprego e, ainda assim, produzir trabalhos precários, mal remunerados ou socialmente degradantes, reproduzindo assim uma forma diferente de instabilidade política.